Em novo livro, antropóloga ensina mulheres a ligar o botão do foda-se

Mirian Goldenberg compara a preocupação de europeias e brasileiras com o corpo e prega o desapego

Marcella Franco
São Paulo

Embora não se dirija exclusivamente às mulheres quando fala, a antropóloga e escritora Mirian Goldenberg encontra um eco gigantesco de suas ideias no público feminino. É natural: afinal, quem mais sofre com a tirania dos padrões estéticos e de comportamento, além da pressão para não envelhecer?

Esses assuntos, há anos caros aos estudos da colunista da Folha e que já marcaram presença em vários de seus quase 20 livros publicados, surgem com força em “Liberdade, Felicidade & Foda-se – As Perguntas e as Respostas para Viver mais Feliz”, que Mirian lança neste mês.

O livro é uma consequência de sua palestra no TEDx São Paulo de 2017, chamada “A Invenção de uma Bela Velhice”, e que se baseia na curva da felicidade, descoberta por pesquisadores em 80 países. Nela, pessoas até os 40 e que têm mais de 50 anos são as mais felizes, enquanto as mais infelizes são aquelas que atravessam esse intervalo entre os 40 e os 50.

De azul, Mirian Goldenberg sorri em meio a árvores
A antropóloga e colunista da Folha Mirian Goldenberg, que está lançando um novo livro "Liberdade, Felicidade e Foda-se" - Raquel Cunha/Folhapress

“Tenho uma obsessão com o tema da felicidade, faço pesquisas há 30 anos, e o livro é um resultado disso. Depois do TED, recebi tantas mensagens, tantas pessoas me pararam na rua pedindo que eu escrevesse mais sobre esse tema”, conta Mirian. “E quem mais me deu retorno foram as mulheres.”

Nascida em Santos (SP) e hoje moradora do Rio de Janeiro, a escritora passou uma temporada na Alemanha em 2007, quando foi convidada para um ciclo de palestras em universidades locais. Durante aquele período, perguntou a alemãs que tinham, em média, 40 anos, sobre o que lhes trazia alegria e satisfação.

“Perguntava como estava sendo aquele momento, e elas falavam de viagens e programas culturais. Nenhuma me falou sobre falta de homem ou de envelhecimento”, revela. Na volta ao Brasil, Mirian abriu grupos de pesquisa com mulheres da mesma faixa etária, e o resultado foi bem diferente.

“As brasileiras reclamavam que tudo estava caindo, que não conseguiam mais emagrecer. Falavam em primeiro lugar da decadência do corpo e de suas insatisfações com o sexo masculino. Aqui, as mulheres envelhecem subjetiva e culturalmente muito mais cedo, porque até mesmo antes dos 40 já estão se sentindo velhas. Só que não é que envelhecemos mais. Nós sofremos mais e muito antes.”

O medo generalizado de envelhecer e os planos para quando a velhice chegar são assuntos abordados por Mirian em “Liberdade, Felicidade & Foda-se”. Ela diz, por exemplo, que sua escolha pessoal foi de investir tempo, dinheiro e energia em projetos de vida, e não no sofrimento pelas transformações inevitáveis do corpo.

“Vivemos um momento paradoxal em que há um discurso mais livre em relação ao corpo, com mulheres assumindo cabelos brancos e gordurinhas, mas ao mesmo tempo somos campeões em cirurgias plásticas no mundo e em remédios para emagrecer. Existem comportamentos mais libertários, e, ao mesmo tempo, valores introjetados que ainda dizem que a mulher tem seu corpo magro e jovem como seu principal capital. É preciso fazer um esforço para sair disso.”

Ela mesma diz ter sido vítima dessa imposição. “Fui muito pressionada por amigas e dermatologistas. Numa primeira consulta, uma médica sugeriu preenchimento ao redor do lábio, correção nas pálpebras, botox na testa, disse que eu ia ficar dez anos mais jovem. Entrei em crise existencial, e eu só queria um filtro solar. Temos a ideia de que a mulher é responsável pelo seu envelhecimento, e, se não faz o que é esperado, a culpa é dela. Como se fosse um estigma”, avalia. “Antigamente eu tinha o maior grilo de usar biquíni e shortinho. Não é que esteja totalmente imune, mas é que aprendi, cada vez que esse pensamento vem, a pensar ‘foda-se’ e seguir.”

Ao mesmo tempo, quando questionada sobre quantos anos tem, ela rebate, séria: “Decidi que vou admitir que minto minha idade, e que tenho 93 anos”.  

Além de se libertar da aflição pela passagem inexorável do tempo, no livro Mirian sugere o desapego —tanto por parte das mulheres como também dos homens— de posses e hábitos desnecessários. Ela conta que abriu mão de roupas que não usava, de rotinas de cuidados exaustivos com a casa e de preocupações insignificantes —um exemplo citado no livro é ficar discutindo a relação por causa de tampa da privada levantada. 

Para ela, dá, sim, para abstrair, levar as coisas menos a sério e ser feliz. O caminho, ensina, é apertar o tal “botão do foda-se”, que, para ela, surgiu em suas pesquisas, quando mulheres com mais de 60 anos que se diziam exaustas de cuidar de todos e não ter tempo para si decidiram aprender a dizer “não”.

“Não é abandonar tudo, mas parar de se preocupar com o que os outros vão dizer, parar de me esquecer de mim mesma. O ‘foda-se’ é uma atitude interna, não tem nada de agressividade. Inclusive tive o dilema de escrever essa palavra no título do livro, com medo de que as pessoas achassem que significava não se importar mais com os outros. E não é”, explica.

Ela dá o exemplo de uma leitora que tatuou no pulso um botão em que se lê a agora já famosa expressão. “Quando alguém fala algo de que ela não gosta, ela sorri e aperta o botãozinho. É um jeito de se libertar de tudo que não serve, uma atitude lúdica-libertária. Tipo: estamos envelhecendo? Sim. Mas foda-se.”

Liberdade, Felicidade e Foda-se - As perguntas e respostas para viver mais feliz
Autora: Mirian Goldenberg
Editora Planeta, 160 páginas 

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