Pela 1ª vez, SP tem 2 anos seguidos de queda de HIV, mas infecções crescem entre idosos

Entre os mais velhos, a contaminação pelo vírus aumentou 15% de 2017 a 2018

São Paulo

As infecções por HIV na cidade de São Paulo registraram, pela primeira vez, queda por dois anos consecutivos desde 1983, quando o levantamento passou a ser realizado.

Apesar de o grupo mais vulnerável continuar sendo o de homens jovens, pretos e gays, a população idosa foi a única, entre os adultos, que registrou crescimento dos casos.

Em 2018 foram notificados 3.145 casos de HIV contra 3.826 em 2017, uma redução de 17,8%. Entre 2016 e 2017, a queda foi de 1,4%. Na série histórica, houve declínios isolados de casos apenas em 2004 e, depois, em 2006.

Entre os idosos, o número de novas contaminações aumentou 15% —de 92 em 2017 para 106 neste ano, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde.

Os jovens de 15 a 29 anos concentraram 49,3% das notificações de 2018. Entre os homens infectados, 70,3% se declararam homossexuais e 18,6,% heterossexuais.

Para Cristina Abbate, coordenadora do Programa Municipal DST/Aids da gestão Covas, o aumento de casos no grupo dos idosos se explica “por uma vida sexual mais prolongada”.

“O uso de medicamentos que aumentaram a potência sexual de idosos e a chegada dos aplicativos de paquera causaram uma mudança comportamental muito significativa na prática de sexo entre eles. O que precisa acontecer, agora, é a adesão à prevenção”, diz ela.

Abbate crê que as ações de prevenção como PreP (profilaxia pré-exposição) e PEP (profilaxia pós-exposição); além da dispersão de camisinhas em espaços públicos e o início precoce do tratamento para pessoas diagnosticadas formaram, no conjunto, uma barreira eficaz para a queda de novos casos do vírus entre as demais faixas etárias.

A PreP é o uso de medicamento antirretroviral por pessoas que não estão infectadas pelo HIV, mas que se encontram em situação de vulnerabilidade de contrai-lo. Já na PEP, a pessoa toma medicação após relações sexuais desprotegidas.

Recentemente, a capital também eliminou a transmissão de HIV da mãe para o bebê.

Outro indicador que apresentou queda por dois anos consecutivos na capital paulista foi a taxa de detecção do vírus. A taxa passou de 32,7 casos para 26,8 por 100 mil habitantes entre 2017 e 2018.

Entre 2016 e 2017, a taxa já havia caído 1,9%, apontou a secretaria de Saúde.

HIV ENTRE IDOSOS

Os casos de HIV entre idosos têm aumentado em todo o país, mas praticamente não há campanhas preventivas ou políticas públicas direcionadas a esse público. 

Com os aplicativos de relacionamento e o livre comércio de medicamentos para disfunção erétil, essa população está bem ativa sexualmente, mas o tabu em torno do assunto ainda é grande.

Com mais parcerias sexuais desprotegidas, também aumenta a exposição aos riscos em contrair o vírus. No Brasil, entre 2007 e 2017, os diagnósticos de HIV cresceram sete vezes. Em mulheres com 60 anos ou mais, o aumento foi de 21,2% nesse mesmo período.

Segundo dados do Ministério da Saúde, em geral, os idosos vivendo com HIV têm, em média, 12 anos de diagnóstico, a maioria é de homens solteiros, divorciados ou viúvos, e de classe econômica mais baixa.

Isso mostra o quanto é necessário que os profissionais da saúde entendam que idosos não são assexuados e incorporem a questão da sexualidade em suas consultas, falando de prevenção.

Se já existe muita resistência para o uso do preservativo na população em geral, entre os idoso isso é muito pior. Eles precisam ser informados, por exemplo, sobre as terapias preventivas, como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição).

Outro motivo de preocupação é que os idosos contaminada pelo HIV podem apresentar comorbidades que podem complicar o tratamento. Por exemplo, insuficiência renal, perda de massa óssea, doenças do fígado, alterações metabólicas, cardiovasculares e declínio cognitivo. Além disso, a tuberculose é a principal causa de morte relacionada à Aids. 

De acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), uma em cada cinco mortes por tuberculose ocorre entre soropositivos.

Mesmo sendo o público que mais tende a utilizar os serviços de saúde, os idosos ainda são pouco testados para o HIV justamente porque os profissionais de saúde subestimam a sua sexualidade. Em geral, o diagnóstico só ocorre com o aparecimento de sintomas, como perda de apetite e de peso.

Com o aumento da expectativa de vida, essa é uma questão que precisa urgentemente ser incluída na agenda não só da saúde mas de todos os ambientes por onde os idosos circulam, inclusive dentro da própria família.

TAXA DE MORTALIDADE

Na cidade de São Paulo, a taxa de mortalidade por Aids em 2018 atingiu 4,1 por 100 mil habitantes em 2018 —queda de 48,7% em relação a 2014. “Isso mostra que as pessoas diagnosticadas precocemente estão seguindo o tratamento”, afirma Abbate.

A população preta é a mais afetada. Em 2018, a taxa de contaminação por HIV entre as mulheres pretas foi de 30,2 por 100 mil habitantes ante 6,6 casos entre as brancas.

Dos casos registrados em homens, 60,9% têm 12 anos ou mais de estudo. Entre as mulheres esse número é de 37,2%.

O centro da capital paulista, apesar de ainda manter a maior taxa de detecção do vírus, apresentou a maior queda de novos casos entre as regiões da cidade: 87 para cada 100 mil habitantes –em 2017, eram 137,3 casos.

A região oeste ficou com a segunda maior taxa (26,4 casos por 100 mil habitantes) e a região leste apresentou o menor índice (21,6 casos).

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