Bolsonaro entrega protagonismo contra coronavírus a ministro

Enquanto presidentes e mesmo governadores atuam na linha de frente, governo tem auxiliar como porta-voz

Brasília

Ao contrário de líderes internacionais e até locais, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) adotou tom mais discreto no combate à epidemia do coronavírus. Ele terceirizou praticamente toda a comunicação a auxiliares.

Quem lidera o enfrentamento à nova doença e à crise no Brasil é o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. 

Uma das primeiras manifestações de Bolsonaro sobre o novo coronavírus ocorreu no fim de janeiro. Foi quando o mandatário realizava uma viagem oficial à Índia. 

Na ocasião, não havia ainda casos da enfermidade confirmados no Brasil. O presidente manifestou preocupação, mas ressaltou que a situação não era alarmante.

“Estamos nos preparando para que, se tivermos [contágio] no Brasil, que seja atenuado”, disse, à época.

O presidente Jair Bolsonaro durante coletiva de imprensa para falar sobre o coronavírus
O presidente Jair Bolsonaro durante coletiva de imprensa para falar sobre o coronavírus - Pedro Ladeira - 31.jan.2020/Folhapress

Nesta semana, um caso foi confirmado em São Paulo, de um homem de 61 anos que esteve na Itália; o país tem ainda 182 casos de suspeita.

Desde então, Bolsonaro tratou em outras ocasiões do vírus, mas evitou assumir a linha de frente do plano de ação. 

Ele também comentou possíveis efeitos colaterais do avanço do coronavírus, como a possibilidade de cancelar uma viagem planejada para a Itália (centro da epidemia na Europa) e as consequências sobre a alta do dólar.

Em live transmitida na última quinta (27), Bolsonaro disse que o surto era responsável pela escalada da moeda americana e queda das bolsas.

“Estamos tendo problema nesse vírus aí, o coronavírus. O mundo todo está sofrendo. As bolsas estão caindo no mundo todo, com raríssimas exceções”, afirmou.

“O dólar também está se valorizando no mundo todo, e no Brasil está R$ 4,40. A gente lamenta, porque isso aí, mais cedo ou mais tarde, vai influenciar naquilo que nós importamos, até no pão, o trigo.”

Em 31 de janeiro, quando diversos países estavam organizando operações de evacuação de seus nacionais da província de Hubei, epicentro do surto do vírus na China, Bolsonaro listou problemas que dificultavam uma ação semelhante por parte do Brasil. 

Ele apresentou como impedimentos a escassez de recursos orçamentários e a ausência de uma lei de quarentena.

As declarações geraram repercussão negativa; um grupo de brasileiros que estava no local gravou um vídeo pedindo auxílio para deixar a área. Dois dias depois, o governo anunciou que enviaria aviões para resgatar esses cidadãos.

Na sequência, nova declaração do presidente foi feita sobre o assunto, ao prometer que o Congresso votaria em tempo recorde as mudanças legislativas que permitiram a instalação da quarentena —o que de fato ocorreu. 

Hoje, após o vírus chegar ao Brasil e o número de casos de suspeita crescerem, a postura mais discreta de Bolsonaro difere da de outros governantes pelo mundo.

O francês Emmanuel Macron, por exemplo, visitou recentemente um dos hospitais onde estão se tratando infectados pela doença no país. A França já registrou duas mortes pela nova enfermidade. 
 

Bolsonaro, por sua vez, não compareceu a Anápolis (GO) quando terminou a quarentena das 58 pessoas que participaram da operação de evacuação de Wuhan. 

A principal autoridade presente no ato foi o ministro da Defesa, Fernando Azevedo. O resgate foi coordenado pela pasta e pelo Ministério das Relações Exteriores.

A China, onde já foram registradas mais de 2.700 mortes, é o país mais golpeado pela epidemia. Mesmo em países menos atingidos, mandatários foram a público para defender as ações de seus governos para conter a doença.

Donald Trump deu recentes declarações à imprensa para dizer que os EUA estavam preparados para a situação, ocasião em que nomeou seu vice, Mike Pence, coordenador do plano de contenção.  

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também procurou ter protagonismo maior. É no estado onde está o único caso confirmado até o momento no Brasil.

Na quinta, em entrevista ao lado de Mandetta, Doria fez intervenções a questionamentos de jornalistas ao ministro. 

Por determinação de Bolsonaro, o titular da Saúde tem sido o porta-voz do governo sobre o tema. 

Mandetta tem participado das entrevistas coletivas sobre o coronavírus, falado com jornalistas e detalhado as ações planejadas para o enfrentamento ao vírus.

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