Descrição de chapéu Coronavírus

Cientistas mapeiam coronavírus em morcegos em ação contra novas epidemias

Estudos podem ajudar na criação de estratégias de prevenção; Brasil é visto como hotspot de vírus

São Paulo

O vírus Sars-CoV-2, que já infectou mais de 3 milhões de pessoas e causou mais de 200 mil mortes no mundo, provavelmente saltou dos morcegos para o pangolim antes de infectar os humanos.

Para ajudar a prever e impedir novas crises como esta que vivemos, cientistas do mundo todo têm buscado identificar vírus encontrados em outros animais com potencial zoonótico, ou seja, que poderiam pular de animais para o homem.

Uma iniciativa global pretende mapear mais de meio milhão de vírus presentes na natureza que podem ser transmitidos para o ser humano. Coordenada por Dennis Carroll, virologista que previu a pandemia em documentário veiculado na plataforma Netflix, o Global Virome Project quer buscar os vírus antes que eles nos encontrem.

O objetivo é dar as ferramentas para que a comunidade global passe a ter uma abordagem proativa em relação às doenças emergentes em vez ações de apenas reagir quando a epidemia já está instalada.

Carroll esteve à frente nos últimos nove anos no Programa de Ameaças de Doenças Infecciosas (Predict, na sigla em inglês), que buscou o potencial de doenças virais se tornarem epidemias em mais de 30 países, entre eles o Brasil, que foi apontado como um “hotspot” para a emergência de doenças infecciosas.

Gustavo Góes, pós-doutor do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas e da Plataforma Científica Pasteur-USP, explica que para ser um "hotspot" um país ou região deve possuir algumas características específicas, como uma elevada biodiversidade de mamíferos, uma alta perda de biodiversidade e um alto potencial de contato com esses animais silvestres.

“Nós somos o país com a maior diversidade de morcegos do mundo: 182 das cerca de 1.400 espécies que existem ocorrem no Brasil, e alguns desses morcegos apresentam vírus com potencial zoonótico”, diz ele, que trabalhou na última década com coronavírus endêmicos de humanos.

Em seu doutorado, Góes estudou coronavírus respiratórios de humanos e se interessou por vírus de morcegos que podem causar doenças, e agora expandiu sua pesquisa para os betacoronavírus (mesmo gênero do Sars) desses animais.

Góes analisou mais de 1.300 amostras de diferentes espécies de morcegos e identificou 24 genótipos de vírus de importância para doenças emergentes, dos quais quatro serão analisados quanto ao seu potencial infeccioso.

Conhecendo os genomas desses vírus, o biólogo irá sequenciar apenas o fragmento do RNA viral responsável por formar a proteína S (de spike, ou espinho, em inglês), que é a porta de entrada do vírus para a célula humana.

Ele pretende criar pseudotipos virais —vírus que contém o spike do coronavírus de morcegos brasileiros– para verificar o potencial de infectar células de diferentes linhagens de mamíferos in vitro e analisar em quais delas os patógenos têm sucesso de entrada.

Clarice Weis Arns, professora do laboratório de Virologia Animal do Instituto de Biologia da Unicamp, trabalha com coronavírus de importância veterinária em animais domésticos e agora pesquisa também vírus tipo Sars.

As amostras são coletadas de morcegos na natureza, por meio de cotonetes inseridos na região oro-nasal e retal, e depois analisadas em laboratório. Para identificar os vírus, os pesquisadores usam a metagenômica, método que "pesca" em uma sopa imensa de nucleotídeos o material genético dos vírus de interesse.

Arns pretende analisar também a evolução dos coronavírus usando dados do GeneBank, uma espécie de biblioteca genética virtual.

Comparando os genomas dos vírus encontrados nos morcegos brasileiros com os de outros países, a expectativa é obter uma árvore filogenética dos coronavírus para identificar a origem e evolução desses parasitas na natureza.

"Esse conhecimento evolutivo é muito importante para identificar os vírus que infectam os seres humanos mas também aqueles que podem levar a surtos em animais domésticos e afetar a produção", afirma.

Pesquisadores buscam morcegos no campo para estudar vírus nesses hospedeiros em floresta próximo à Araçatuba, interior de São Paulo.
Pesquisadores buscam morcegos no campo para estudar vírus nesses hospedeiros em floresta próximo à Araçatuba, interior de São Paulo. - Cristiano de Carvalho/Divulgação

Na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, o virologista Paulo Eduardo Brandão pesquisa coronavírus e como eles evoluem em seus hospedeiros—de bovinos a morcegos e seres humanos.

Brandão também avalia o que acontece quando o vírus muda de um hospedeiro para outro, como qual parte do genoma sofre mutação e em qual processo celular ele atua.

A partir da análise da evolução desses vírus nas diferentes populações, Brandão avalia quais os vírus que podem saltar entre espécies. O potencial infeccioso desses vírus também é analisado: se eles têm sucesso na ligação com receptores de células de diferentes animais e, uma vez dentro das células, quais são os processos moleculares e de resposta do organismo envolvidos.

E por que os morcegos? Segundo o virologista, esses animais se dão muito bem com os vírus que hospedam devido à sua resposta imune, que mantêm os vírus com uma baixa carga viral mas não é tão intensa a ponto de causar uma reação inflamatória.

“É por isso que o morcego é um excelente alvo para buscar novos vírus. Além disso, os morcegos existem há bastante tempo, então existe coevolução desses vírus com morcegos”, completa.

Tronco de árvore oco com morcegos da espécie Desmodus rotundus.
Tronco de árvore oco com morcegos da espécie Desmodus rotundus, próximo de Araçatuba, interior de São Paulo. - Cristiano de Carvalho/Divulgação

O Global Virome Project, no entanto, foi alvo de críticas no meio científico, que veem um melhor uso dos recursos para medidas de vigilância epidemiológica.

Em artigo publicado na revista científica Nature, o virologista Edward Holmes afirma que embora “estudos genômicos amplos de vírus na vida selvagem posssam trazer avanços no conhecimento da evolução e diversidade de vírus, (...) eles serão de pouca importância prática no que diz respeito ao entendimento e à mitigação de doenças emergentes”.

O biólogo Atila Iamarino afirma que as duas frentes são complementares, e não excludentes. Para ele, descobrir um vírus novo em humanos pela primeira vez é o pior cenário. "Conhecê-los antes é importante também para desenhar os testes.”

Pesquisas que incentivam o conhecimento da biodiversidade, porém, sofrem com falta de financiamento e são criticadas por serem ciência básica, supostamente sem aplicação, segundo Paulo Brandão.

“Se eu tenho o genoma viral completo é possível pesquisar quais os possíveis tratamentos ou vacinas que podem atuar e que vão ser efetivas no combate a epidemias. Todo mundo fala: ‘Para que você quer pesquisar vírus em morcego? Qual a aplicação?’. Agora está aqui a aplicação”, completa.

Góes diz o mesmo. Sua bolsa de pós-doutorado para estudar coronavírus de morcego foi negada sete vezes pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) antes de ser aprovada em agosto passado, com a justificativa de não ter aplicação conhecida.

“A questão não é se vamos ter mais uma epidemia de vírus que saltou na natureza para humanos. A questão é quando. O contato mais próximo entre estes animais com humanos e animais domésticos tem importante papel nesse processo e vemos uma aceleração destes eventos nos últimos 25 anos”, finaliza.

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