Concertos à beira do leito confortam pacientes internados com coronavírus

Músicos oferecem distração e beleza aos que estão isolados em hospital de Nova York

Benjamin Weiser
Nova York | The New York Times

Nas caóticas salas de emergência e UTIs de toda a cidade de Nova York, os pacientes do coronavírus lutam para sobreviver no isolamento, com médicos e enfermeiros mascarados mantendo distância e as visitas de parentes proibidas. Alarmes, monitores e anúncios por alto-falantes são uma perturbação constante.

Mas no Hospital Presbiteriano Allen de Nova York, em Manhattan, a música de Bach, de Brahms e até dos Beatles começou a inundar os quartos de pacientes, tocada por músicos talentosos —intérpretes de música de câmara recém-desempregados, ganhadores de concursos e prêmios internacionais, professores em escolas de música prestigiosas.

Eles tocam na Califórnia, em Kentucky, Maine, Virgínia, Massachusetts e Nova York, onde moram. A música é reproduzida em um iPhone ou iPad colocado junto ao leito dos pacientes que indicaram a vontade de ouvir um concerto, usando só a função de áudio do FaceTime para proteger sua privacidade.

"Espero oferecer um breve momento de conforto e distração ou beleza", disse Michelle Ross, violinista de Manhattan que tocou para os pacientes.

No Hospital Allen, que fica na ponta norte de Manhattan e atende a uma comunidade de minorias, geralmente de baixa renda, o número de casos de coronavírus é especialmente devastador. Na semana passada, uma importante médica de emergência do Allen morreu por suicídio, dando destaque aos problemas do pequeno hospital.

Às vezes, a instituição de 200 leitos chegou a ter 170 pacientes de coronavírus; no início de abril houve 59 mortes de pacientes, relatou o New York Times.

Foi mais ou menos nessa época que surgiu a ideia dos concertos. A médica Rachel Easterwood, que trabalha no turno da noite na UTI, estava desesperada por não poder fazer muito pelos pacientes. "Eu me sentia realmente desesperada, impotente", disse ela. "As pessoas estão morrendo à nossa volta."

A médica Rachel Easterwood ao lado do NewYork-Presbyterian Allen Hospital, em Manhattan
A médica Rachel Easterwood ao lado do NewYork-Presbyterian Allen Hospital, em Manhattan - NYT

Numa noite de folga, ela escutou um amigo violoncelista da Califórnia tocar Bach para ela pelo FaceTime. Easterwood, 35, que tocava clarinete profissionalmente antes de entrar na faculdade de medicina, achou a música reconfortante.

"Cara, eu gostaria de fazer isso no hospital", disse ela ao amigo, relembrando a conversa. Naquele momento surgiu a ideia de tocar para os doentes.

O celista, Andrew Janss, e outra amiga que toca viola, Molly Carr, começaram a recrutar outros músicos.
Alguns pacientes estavam em alas normais, acordados e capazes de se comunicar. Outros, em leitos de UTI, estavam ligados a respiradores e sob forte sedação.

Nesses casos, disse Easterwood, ela ligou para as famílias para obter autorização para realizar o concerto. Ela esperava que até mesmo esses pacientes fossem reconfortados de alguma maneira.

Em breve ela expandiu os concertos para os funcionários do hospital, que enfrentam desafios inéditos, expondo-se a riscos de saúde, vivendo longe de suas famílias e compartilhando a tristeza da morte de pacientes. Em um turno, os funcionários se reuniram numa estação de enfermagem perto da 0h para ouvir Janss tocar um solo de violoncelo.

"Nós o aplaudimos e pedimos mais uma canção", disse a médica-assistente Anna Kosmider. "É difícil encontrar esses momentos de felicidade no trabalho."

Easterwood também encontrou alívio na apresentação de Janss. "Foi reconfortante para mim, porque como médica eu estava sofrendo", explicou.

Playlist do pianista Henrique Eisenmann, que tocou música para pacientes do NewYork-Presbyterian Allen Hospital
Playlist do pianista Henrique Eisenmann, que tocou música para pacientes do NewYork-Presbyterian Allen Hospital - NYT

Em 27 de abril, horas depois da notícia da morte de seu colega médico, um pequeno concerto foi organizado para membros da equipe de emergência do Hospital Allen. Mais de uma dúzia de funcionários lotaram uma sala de descanso para ouvir Janss tocar seleções de Bach, Edith Píaff, Saint-Saëns e Elton John. A apresentação foi abafada e tristonha.

Easterwood, que se formou em 2006 na escola de música de Manhattan, recebeu o diploma de medicina em 2014 no Colégio de Médicos e Cirurgiões da Universidade Columbia. Completou a residência em medicina interna e se tornou médica-assistente no Allen no ano passado.

Ela disse que sempre pensou que a música faria parte de sua vida —ainda tem o clarinete—, mas não teve muito tempo para tocar após iniciar a carreira médica.

"A música exige uma enorme dedicação, mas a medicina, muito mais", explicou.

Em abril, ela estava trabalhando no turno da noite cobrindo a unidade de tratamento intensivo no Allen.
"É o turno mais difícil de todos", disse sua supervisora, a doutora Zorica Stojanovic, diretora-médica dos médicos hospitalistas, "porque na maior parte do tempo todo mundo anda na corda bamba entre a vida e a morte."

Em 2 de abril, Easterwood teve uma conversa casual com Janss. A ideia do concerto pareceu natural para ele e Carr, a violista, que juntos recrutaram os músicos. Eles dirigem o Projeto Música Nos Cura (Project: Music Heals Us), organização sem fins lucrativos fundada por Carr para fazer concertos clássicos gratuitos em lares de idosos, hospícios, prisões, abrigos de sem-teto e centros de refugiados.

A pandemia interrompeu seu trabalho, e o grupo de músicos independentes também estava tendo suas apresentações canceladas. (Para sustentar os músicos, o grupo disse que decidiu pagar a cada um US$ 100 por período de três horas dedicadas a concertos do coronavírus.)

Esaterwood enviou um email a sua supervisora, Stojanovic, pedindo aprovação. A chefe não hesitou, dizendo em uma entrevista que foi uma ideia maravilhosa nestes tempos de calamidade. "O que pode romper esse padrão de desespero é a música", afirmou.

Em 7 de abril, Janss, em seu apartamento em Oakland, na Califórnia, tocou o primeiro concerto --uma peça para celo de 15 minutos que começou com Bach.

Mais tarde no mesmo dia, um trio no Kentucky tocou durante 75 minutos para outro paciente. Os músicos incluíam Carr, que ensina na Escola Juilliard e no Bard College; seu marido, o celista Oded Hadar; e Anna Petrova, professora de piano na Universidade de Louisville. (Os três estavam em quarentena na casa de Petrova enquanto Hadar se recuperava de sintomas do coronavírus.)

Petrova também tocou Chopin rapidamente para outro paciente que respondeu pelo telefone: "Eu amo música. Obrigado. Ganhei o dia", lembrou Carr.

Talvez nenhum compositor tenha obra mais tocada para pacientes do coronavírus que Bach, disse Easterwood, descrevendo sua música como tranquilizadora, reanimadora e "um tipo de melancolia que as pessoas apreciam".

Alguns dos músicos disseram que tocar para os doentes foi profundamente emocionante, e eles choraram enquanto se apresentavam.

A música também provocou emoções nos internados. Easterwood disse que deixou seu telefone ao lado do leito de um paciente, e quando voltou depois da apresentação o encontrou sorrindo.

"Percebi que nunca tinha visto um paciente sorrir nesse tempo todo", disse ela.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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