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Hospitais usam tablets e robôs para aproximar pacientes com coronavírus de famílias

Em muitas instituições, porém, parentes ficam sem notícias por dias; novo protocolo propõe mudanças

São Paulo

Diante do isolamento imposto a pacientes internados com Covid-19, hospitais de ponta têm adotado videochamadas com familiares por meio de smartphones, tablets e até robôs para diminuir a angústia do afastamento.

Em muitas instituições, porém, ainda prevalece a falta de comunicação. Há relatos dramáticos de famílias que perdem totalmente o contato com o doente na internação. Nem sequer conseguem se despedir na hora da morte.

O Hospital das Clínicas de São Paulo é uma das exceções entre os públicos. Um time envolvendo setores de humanização, de cuidados paliativos e de inovação já testa o uso de robôs de telepresença e de tablets para o contato.

Por meio de parcerias, o hospital conseguiu três robôs emprestados e há uma campanha em curso para a obtenção de tablets. A ideia é que o paciente na UTI receba a visita do robô e por meio dele possa se comunicar com a família.

"Essa é uma doença cruel, ela afasta as pessoas. No momento de mais necessidade, você não pode receber conforto físico, não pode estar junto de quem você ama”, diz a médica Lilian Arai, diretora da Hackmed, organização que busca inovações em saúde e que tem feito a ponte entre o HC e empresas que ajudem em soluções tecnológicas.

Encontro virtual entre o paciente Guilherme, 37, e sua família na UTI do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS)
Encontro virtual entre o paciente Guilherme, 37, e sua família na UTI do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS) - Daiana Barbosa/Arquivo pessoal

No Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS), o uso de telemedicina começou na semana passada. Na segunda (30), a editora de livros Janine, 37, conversou com o marido Guilherme, 37, que estava internado na UTI com Covid-19.

A filha Elisa, de quatro anos, também participou do bate-papo. “No início, tive medo que a imagem do pai na UTI, cheio de eletrodos e usando máscara, pudesse assustá-las. Mas foi reconfortante para ela ver que o pai está vivo, se recuperando bem”, conta. Na quinta (2), Guilherme teve alta da UTI e seguia internado no quarto. Mãe e filha estão isoladas em casa.

A comunicação entre a família ocorreu por meio de um carrinho de telemedicina, que tem câmera e tela acopladas e chega até a beira do leito na UTI. O hospital envia um link de videoconferência à família para a conexão.

“O que as pessoas mais têm medo é que familiares ou elas próprias peguem a doença, sejam levados para a UTI e morram. Ver o familiar, mesmo que à distância, conhecer a equipe que está cuidando dele, faz muita diferença, dá mais segurança”, diz Daiana Barbosa, coordenadora da enfermagem do Hospital Moinhos de Vento.

Segundo ela, muitas vezes as famílias não querem informações apenas sobre o quadro clínico do doente na UTI. “Elas querem saber se ele tem dor, se sente frio, como se alimenta, como é o banho.”

O médico Felipe Cabral, coordenador médico de saúde digital do Moinhos de Vento, explica que a ferramenta também tem possibilitado que o médico assistente veja o seu paciente, já que ele, assim como os familiares, está impedido de entrar na UTI por risco de contágio.

O hospital já tinha expertise no uso da telemedicina em UTIs de adultos. Desde 2018, faz avaliações de pacientes críticos internados em hospitais de Palmas (TO), Sobral (CE) e Rio de Janeiro.

“Pensamos: por que não transportar essa experiência para dentro das unidades de Covid? Com esse modelo, a gente consegue a segurança com a limpeza do aparelho conforme as regras da comissão de infecção hospitalar.”.

Os hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, de São Paulo, estudam implantar visitas virtuais na UTI para pacientes de Covid-19, mas a prioridade atual é a emissão de um boletim diário sobre o quadro clínico de doentes críticos e o que é esperado para as próximas horas.

“O que os familiares querem é informação. A queixa que a gente mais teve até agora foi: ‘o meu familiar está aí e a gente não tem notícia. Se alguém disser ‘eu quero ver como ele está’, a gente está preparado para fazer visita virtual", diz Ana Merzel Kernkraut, coordenadora da experiência do paciente do Einstein.

Segundo ela, o hospital também está estudando novas formas de comunicar a família em caso de morte do paciente. “A impossibilidade de não ver o corpo pode gerar um luto mais complicado.” O Einstein colocou à disposição de familiares e pacientes o serviço de psicologia virtual.

O Sírio-Libanês avalia alternativas de possibilitar visitas virtuais na UTI mediadas por uma psicóloga, inclusive com o uso de robôs, mas isso ainda está sendo estudado pelos setor jurídico do hospital.

Para os pacientes menos críticos, é permitido o uso de celulares. O hospital também fornece tablets, caso o doente prefira. A cada uso, o aparelho passa por desinfecção.

“A gente tem visto pacientes ficarem dentro da UTI por mais de dez dias. Essa permanência prolongada gera muita angústia não só para os familiares como também para os médicos e equipes assistenciais”, diz Felipe Duarte Silva, coordenador de práticas médicas do Sírio.

Segundo o geriatra Douglas Crispim, médico do núcleo de cuidados paliativos do HC, a comunicação é um elemento essencial durante a internação do paciente com Covid-19. “Neste momento, vemos milhares de pessoas internada que perdem totalmente as relações com o externo.”

Ele e um grupo de especialistas em comunicação em saúde criaram um protocolo para essa situação que pode ser aplicado em todos os níveis de instituições, inclusive em hospitais de campanha.

“Com um celular e um tablet, respeitando as normas de paramentação, você consegue montar times de comunicação dentro dos hospitais, consegue fazer com que o paciente receba visitas de forma virtual, independentemente se ele está morrendo ou não.”

A ideia é que os hospitais usem profissionais que não estejam na linha de frente dos atendimentos, como psicólogos e terapeutas ocupacionais. Eles agendariam previamente a visita virtual com a família e passariam nos leitos de pacientes que ainda conseguem falar.

Já os pacientes em ventilação mecânica, sedados, poderiam receber outros estímulos. “As famílias mandariam mensagens de viva voz diariamente, músicas.

Para ele, é urgente que também se olhe para esses pacientes que estão ficando dias sem falar com os familiares e, alguns, morrendo absolutamente sozinhos. “É isolamento compulsório e ponto final.”

Na semana passada, várias pessoas se queixavam sobre falta de informação de parentes internados com suspeita de Covid-19 nos hospitais municipais Tide Setúbal e Cidade Tiradentes, ambos na zona leste.

Depois de internar seu irmão Franz, 29, no dia 23, com febre e dificuldade de respirar, Marisol só teve notícias dele no final da noite de quinta (26), quando o hospital avisou sobre sua morte. “Não o vimos mais, nem pudemos dizer adeus”, contou. Procurada, a Secretaria Municipal da Saúde não se pronunciou sobre o caso.

No dia em Franz morreu, foi o início do drama do aposentado Antonio Rodrigues de Lima, 70. Ele sentiu falta de ar e foi levado para o hospital Santa Marcelina, onde morreu no sábado com suspeita em Covid-19.

“Ninguém mais conseguiu falar com ele. Pensamos que era infarto. É muito duro morrer sozinho, sem ter alguém da família por perto, ser enterrado sem velório”, disse o irmão Luiz Rodrigue de Lima.

Em nota, o hospital disse que sem as informações completas do paciente, não poderia apurar a situação. Além do nome e da data de morte fornecidos pela reportagem, a instituição alegou que era necessário data de nascimento e nome da mãe. “O hospital tem se esforçado para adequar sua missão humanizada nesse momento singular da saúde", informou.

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