Descrição de chapéu Coronavírus

'Escapadinha' de idosos na quarentena não é recomendada, mas há brechas

Isolados, mais velhos relatam saudades da família, tédio e medo da doença

São Paulo

“Estou na prisão domiciliar, né?”, diz Izaira Bergamini de Andrade, 81, ao atender o telefone. Ela, que vive em Louveira, no interior de São Paulo, tem saído de casa durante a quarentena só para dar uma “voltinha no condomínio”.

Bergamini reconhece a importância de respeitar o isolamento e afirma que tanto ela quanto seu marido procuram se preservar. “Além do mais, não tem nada de interessante acontecendo na rua”, diz.

“A gente se acostuma com tudo nessa vida”, conta ela, que antes da pandemia era muito ativa, saía para ir ao cinema, ao shopping e à igreja aos domingos, além de promover reuniões familiares.

Agora, a rotina se resume a televisão, tocar piano, ouvir música e cozinhar. Ela e outras idosas ouvidas pela reportagem demonstram certa tristeza e inquietação pela falta do contato com suas famílias e amigos, além de sentirem falta da rotina.

Após tanto tempo confinadas, será que elas, que integram o grupo de risco da Covid-19, não poderiam encontrar com amigos e familiares isolados também? A resposta, da maioria dos especialistas ouvidos pela reportagem, é não, mas há brechas.

Segundo o geriatra do hospital Oswaldo Cruz Sergio Colenci, esse convívio familiar tem um peso maior para o idoso que para o adulto que passa a maior parte do dia fora de casa.

“Notamos uma necessidade de sair e encontrar pessoas de quem gostam. Percebemos também maior procura por médicos com queixas inespecíficas, e quando vamos ver, eles estão, na verdade, com um quadro de ansiedade e até depressão”, diz ele.

Porém, Colenci diz que flexibilizar qualquer medida de isolamento social neste momento não é o ideal. “A recomendação é de não sair, agora estamos atingido o pico [de infecções] e permitir qualquer coisa é perder quase todo o trabalho que fizemos em dois meses”, analisa.

A opinião de Colenci é semelhante ao do também geriatra Daniel Apolinario, do HCor. O hospital tem acompanhado pacientes que tiveram suspeita de Covid-19 e não precisaram ser internados —ao todo, já foram realizados mais de 2.000 contatos. Nos telefonemas, notou-se que a maioria dos idosos está muito ansiosa, principalmente aqueles que têm uma autonomia maior.

Atendimento do HCor que monitora pacientes que tiveram Covid-19, ou suspeita, mas não foram internados
Atendimento do HCor que monitora pacientes que tiveram Covid-19, ou suspeita, mas não foram internados - Roberto Loffel/Divulgação

O sentimento de solidão, para a surpresa de Apolinario, não é a queixa da maioria. “As famílias tentam compensar a ausência física por meio de videochamadas, e percebemos que os idosos têm se sentido mais acolhidos, em alguns casos até mais do que antes”, diz ele.

Com o veto às saidinhas, um encontro em lugar aberto, como na garagem de casa, e com ao menos dois metros de distância, é permitido. Apolinário, porém, recomenda que crianças não participem, já que é mais difícil fazer com que obedeçam o distanciamento.

Foi o que a família de Divanir Ferrari Moretti, 74, fez no Dia das Mães. Seus três filhos apareceram no térreo do seu prédio para mandar um beijo para a matriarca, que os recepcionou pela varanda.

Para Moretti, tem sido difícil preencher o tempo. “É um desespero”, define ela. Seus dias eram cheios de atividades começando pelas aulas de pilates, podendo se alongar a uma ida ao salão de beleza, ao shopping, à missa ou almoços com as amigas.

Ela admite que só conseguiu se adaptar bem à quarentena porque adora ler romances e, desde o início do confinamento, se rendeu ao Kindle (leitor de livros digitais) para ter acesso a mais livros.

Às vezes bate uma tristeza, diz Moretti, mas além da família, ela tem o apoio dos amigos, que ligam para checar se está tudo bem. Apesar de tomar suco verde diariamente, manter a dieta balanceada e ter uma “saúde de ferro”, o medo de sair de casa é alto.

“Minha filha me chamou para eu ir até a casa dela, mas tenho medo”. Agora, ela avalia se deve ir almoçar na semana que vem na casa de uma amiga.

O infectologista Paulo Olzon, da Unifesp, é mais flexível com relação ao isolamento. Segundo o médico, algumas proibições têm que ser vistas com bom senso e ele afirma que pessoas que ficaram dois meses isoladas poderiam se encontrar com outras da mesma faixa etária que passaram o mesmo período reclusas.

Olzon também critica algumas medidas tomadas durante a quarentena em São Paulo, como o fechamento de parques. “O parque Ibirapuera, que tem toda aquela área aberta, o estado fecha, mas as pessoas continuam a frequentar o entorno, mas de forma mais aglomerada”.

Apesar de sentir vontade de sair de casa, Maria Eliza Nagy Fiore, 79, também teme as consequências e, por isso, não dá nenhuma escapada. “Meu maior medo é passar mal e ser intubada. Nunca pensei que fosse viver uma guerra silenciosa, onde não há vencedores.”

Durante a quarentena, ela tem a companhia de Filomena, sua tartaruga de cinco anos, e conversa com o guarda de sua rua, mantendo uma certa distância, claro.

“Eu tenho muito amor para dar, quando meus netos me ligam, falam de quem amam e perguntam ‘vovó, você tá quietinha?’. Me dá uma revigorada”.

“Não aguento mais ficar em casa” é uma frase que Jamal Suleiman ouve com frequência de sua mãe. “Eu digo para ela: ‘Mas eu te amo e adoro a sua esfiha, então, por favor, fica em casa’”, brinca o infectologista do Instituto Emílio Ribas.

Apesar da risada, o médico fala com seriedade da necessidade do isolamento: “É uma medida mais severa para as pessoas de idade? Sem dúvida. Mas eu não quero ver mais gente morrer. Chega.”

Ele explica que por se tratar de um vírus de transmissibilidade alta, basta que a pessoa toque em uma superfície contaminada que o “estrago já está feito”.

Suleiman compara a pandemia a uma situação de guerra, em que as pessoas conseguem ter empatia pelas outras. “Estamos na mesma situação, não dá para olhar para a janela, pegar um livro, uma revista? É uma questão de saúde pública. Não é uma questão individual”.

Dicas para idosos na quarentena

  • Manter isolamento social, sempre que possível

  • Se sair, usar máscara que cubra nariz e boca

  • No caso de encontros, que aconteçam em locais arejados e se mantenha dois metros de distância

  • Encontros em prédios podem ser feitos com a pessoa na varanda e o familiar no térreo

  • Manter contato com a família via telefone e videochamadas

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