Descrição de chapéu Coronavírus

Em 1 mês, Pazuello melhora relação com estados, mas abre crise dos dados da Covid

Apagão de informações afeta imagem de militares como 'ala moderada' do governo no combate ao novo coronavírus

Brasília

Há um mês como interino no comando do Ministério da Saúde, o general Eduardo Pazuello já deixou sinais duplos em sua gestão: se por um lado ganhou a simpatia de secretários estaduais para seguir na pasta, por outro contribuiu para uma crise sem precedentes de confiabilidade para o governo brasileiro na gestão da pandemia do novo coronavírus.

O apagão de dados oficiais de sites do ministério gerou forte repercussão em território nacional e no exterior e fez o Brasil sumir temporariamente do ranking elaborado por universidades respeitadas como a Johns Hopkins.

Em meio a isso, militares se preocupam com arranhões gerados à imagem que tentavam construir desde o início do governo de Jair Bolsonaro, de que eles compõem a ala moderada do governo.

Os fardados buscam enfatizar a impressão de que foi o grupo que conseguiu convencer o presidente em recuos pontuais na visão dele de minimizar o impacto da pandemia no país.

Exemplo disso foram alterações nos pronunciamentos em rede nacional que Bolsonaro fez ao longo de março e abril e que acabou deixando de lado nos últimos meses.

A entrega da Saúde ao general, depois de dois ministros terem deixado o comando da pasta em meio ao agravamento da crise, colocou isso por terra.

Pazuello assumiu no dia 15 de maio, logo após o pedido de demissão de Nelson Teich, que não ficou um mês no cargo. Teich substituiu Luiz Henrique Mandetta.

Assim que assumiu o cargo, Pazuello passou a atender demandas do presidente na contramão de recomendações da ciência —e que, não à toa, seus antecessores se recusavam a cumprir.

Já nas primeiras horas de comando de forma oficial, ele repassou orientações para ampliação da oferta de cloroquina a pacientes com sintomas leves da doença, mesmo sem evidências de eficácia científica. Recentemente, ampliou também a grávidas e crianças.

Sem experiência em saúde, Pazuello deixou o comando da 12ª Região Militar, em Manaus, para assumir a secretaria-executiva ainda na gestão de Teich, mas como um nome ligado aos generais e a Bolsonaro.

O objetivo era dar apoio em questões logísticas. A saída repentina de Teich, porém, fez com que assumisse a pasta interinamente.

No posto, passou a fazer do ministério uma espécie de quartel, ampliando a presença de militares em cargos próximos e até mesmo em secretarias especializadas.

Também exonerou funcionários que assinaram uma nota técnica sobre atenção à saúde das mulheres em meio à pandemia distorcida por Bolsonaro, que apontou proposta de legalização do aborto que não constava do documento.

A maior crise, porém, veio com as mudanças no modelo de divulgação de dados da Covid-19.

Antes diárias, as coletivas de imprensa para evolução da pandemia, que já vinham sendo reduzidas, passaram a ocorrer com ainda menos frequência, e com dados desatualizados —os novos eram divulgados só minutos após o fim de cada encontro.

Em seguida, membros da pasta passaram a defender mudança nos critérios de divulgação dos números e chegaram a retirar da plataforma o total acumulado de casos e mortes pela doença.

A divulgação foi retomada após determinação do STF (Supremo Tribunal Federal).

Para Lígia Bahia, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e especialista em saúde pública, a crise no acesso aos dados e a manutenção de uma gestão provisória na pasta têm levado a um "apagamento" do Ministério da Saúde.

Ela compara a atuação dos três últimos ocupantes da pasta em meio às crises junto ao Palácio do Planalto. "Tivemos três ciclos no ministério: Mandetta, mais altivo, Teich, mais conciliador, e agora temos um ministro que é propositalmente um não ministro. Estamos passando por uma pandemia sem Ministério da Saúde: não só não existe a pandemia quanto não existe quem fale sobre ela."

"É um apagamento da tragédia sanitária e da instituição que deveria ser responsável pelas respostas."

Para Bahia, porém, a indicação recente de titulares para secretarias da pasta mostram que o ministro tem se tornado um "provisório eterno". A avaliação é compartilhada por servidores do Ministério da Saúde.

Embora diga que não tem a intenção de permanecer no cargo e que cumpre apenas uma missão, Pazuello tem discutido indicações para secretarias da pasta que estavam vagas.

As escolhas têm variado entre composições com militares, aliados de Bolsonaro, amigos próximos e parlamentes do bloco chamado de centrão.

Das sete secretarias, três são ocupadas hoje por militares —que também já ocupam ao menos 20 outros cargos de direção e coordenação.

Além do secretário de Saúde Indígena, o coronel da reserva Robson Santos da Silva, que já estava na gestão, Pazuello nomeou Antônio Élcio Franco para a secretaria-executiva e Luiz Otávio Franco Duarte para a Secretaria de Atenção Especializada, voltada a hospitais.

Ambos têm a patente de coronel do Exército e histórico de atuação em Roraima, onde Pazuello atuou como coordenador da Operação Acolhida, destinada ao apoio a imigrantes venezuelanos.

Para a Ciência de Tecnologia, Pazuello chegou a convidar o bilionário Carlos Wizard, com quem atuou em Roraima. Ele desistiu do cargo após afirmar que desconfiava dos números de mortes pela Covid, situação que colaborou para acirrar a crise.

O médico Hélio Angotti Neto, seguidor de Olavo de Carvalho, foi nomeado nesta semana para o posto.

Já a Secretaria de Atenção Primária em saúde completa dois meses sem titular.

Ao mesmo tempo que Pazuello vê a gestão ser marcada por uma crise de confiança com especialistas e parte da sociedade civil, a tentativa de aproximação com secretários estaduais e municipais de Saúde é apontada de forma positiva.

Responsáveis pela gestão do SUS na ponta, secretários se queixavam de terem sido alijados de decisões da pasta nos últimos meses e terem tido reuniões diárias interrompidas. Com a reaproximação, os encontros foram retomados.

O grupo descreve Pazuello como alguém de fácil acesso e zeloso com as relações e que tenta atender demandas.

Os relatos são de que ele costuma ligar diretamente e fazer piadas, chamando o interlocutor de amigo —fórmula que costuma agradar políticos, ainda que parte das ações concretas não tenha sido entregue.

"A relação tem sido a melhor possível", diz Mauro Junqueira, secretário-executivo do Conasems (conselho de secretários municipais de saúde).

"Se depender de nós, ele fica por um bom tempo. Ele chegou, entendeu, está ouvindo e respeita os conselhos. Mudar significa alterar tudo de novo, e não se sabe quem vem", afirma.

Apesar da aproximação, secretários ainda reclamam de atraso na habilitação de leitos de UTI e da demora do governo em dar apoio para compra de sedativos necessários para intubar pacientes —após críticas, a pasta diz que ajudará a fazer uma compra emergencial.

Pazuello tem defendido ampliar a triagem de casos e ampliar a oferta de testes, sem detalhar qual seria essa medida.

No primeiro mês no cargo, concentrou agendas em viagens para inauguração de hospitais em diferentes cidades (foram oito visitadas até agora), encontros com deputados (ao menos 17 recebidos) e membros do governo.

Avesso a entrevistas, atribuiu à equipe a missão de participar de coletivas de imprensa, postura que agrada a Bolsonaro. Também segue discursos do presidente, como ao dizer que "triagem é mais importante que o isolamento".

Recentemente, foi alvo de memes ao dizer que o Norte e Nordeste seguiam o inverno do hemisfério Norte. Desde então, tem evitado fazer análises maiores da epidemia.

A Folha ligou e mandou mensagens para Pazuello, mas ele não retornou.

​Em eventos, tem tentado rebater a polêmica sobre informações da pandemia, afirmando que a ideia atual é colocar dados de mortes por data em que ocorreram, sem excluir outros números.

Também inicia discursos com falas de apoio a famílias que perderam parentes, na tentativa de arrefecer a crise, e pedido união a gestores no que chama de guerra da Covid.​​

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