Descrição de chapéu Coronavírus

Defensor da cloroquina, fundador da Wizard diz que aceitou convite para secretaria na Saúde

Carlos Wizard Martins diz ter recebido convite de ministro interino por sua experiência empresarial e defende uso profilático da cloroquina

Brasília

Fundador da Wizard e à frente de outras 20 empresas, o empresário bilionário Carlos Wizard Martins afirma em entrevista à Folha ter sido convidado pelo ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, para assumir o cargo de secretário de ciência e tecnologia da pasta —o qual aceitou.

“Essa semana sai no Diário Oficial da União. Mas estou indicado, e já vou me reunir com a equipe para fazer o agendamento [de ações]”, afirma.

Segundo ele, um primeiro convite ocorreu há cinco dias e foi confirmado nesta segunda (1º).

O empresário Carlos Wizard Martins, ao lado da ministra Damares Alves
O empresário Carlos Wizard Martins, ao lado da ministra Damares Alves - Carlos Wizard Martins no Facebook

Questionado, o Ministério da Saúde não respondeu sobre a nomeação. Membros da pasta, porém, confirmam que o nome do empresário é escalado para a área e que ele tem participado de algumas ações.

Próximo do ministro interino, Martins já tem atuado como conselheiro da pasta desde abril, sem remuneração.

O convite, afirma, veio do general, com quem atuou em Roraima em operações de atendimento a refugiados venezuelanos —Martins é missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

“No dia 17 de abril, o presidente da República telefona em Manaus para o general Eduardo Pazuello [para assumir a secretaria-executiva do ministério]. Em seguida, ele [Pazuello] telefona pra mim em Campinas e diz: Carlos, preciso de você em Brasília. Estou formando uma equipe.”

Sem experiência em saúde, ele atribui a escolha para ocupar o cargo a seu histórico empresarial.

“Temos um dos maiores orçamentos da União. Ele [Pazuello] acredita que de alguma forma minha experiência empresarial, de gestão e finanças, pode ajudar a localizar fornecedores confiáveis e de qualidade, e com economia para o ministério”, afirma. “Não negocio com intermediário, negocio diretamente com fabricante.”

Na pasta, se confirmado, Martins diz que irá levar a proposta de ampliação da oferta de cloroquina e hidroxicloroquina também para uso profilático contra a Covid-19. Ele cita como exemplo o município de Porto Feliz, no interior de São Paulo, que elaborou um "kit" contra a Covid.

"Quero fazer de duas maneiras: de forma precoce, tão logo diagnosticada, e forma profilática o entorno dele. Se uma mãe foi diagnosticada, vamos dar para o marido, para os filhos e o entorno dela."

Estudos recentes, publicados em revistas científicas internacionais, porém, não apontam evidências de eficácia do medicamento e alertam para riscos de ocorrência de quadros como arritmia.

Para Martins, porém, "as pessoas fazem um fantasma muito grande sobre a cloroquina".

"Meu filho ficou dois anos na África, e sabe o que ele fazia toda semana? Ele tomava a tal da cloroquina. Era sagrado. Você acha que meu filho está retardado, com taquicardia, algum dano cerebral? Pelo contrário, é uma mente brilhante", afirma. "Se eu soubesse que o mesmo efeito positivo que teve nele teria em outras criancinhas, eu daria para toda criancinha do Brasil [ri]."

A Sociedade Brasileira de Pediatria, porém, emitiu um parecer nesta semana contrário ao uso do medicamento em crianças e adolescentes fora de estudos clínicos.

Questionado, Martins diz que protocolos acompanhados pela pasta apontam dados positivos —ele não cita quais. Atualmente, o Conselho Federal de Medicina também não recomenda uso profilático.

Wizard entrou para a lista de bilionários da revista americana Forbes em 2018, com uma fortuna avaliada em R$ 2,4 bilhões. Em 2013, ele vendeu o grupo Multi, que incluía as escolas de idiomas Wizard e Yázigi, para a britânica Pearson por cerca de R$ 2 bilhões.

Hoje, ele preside o grupo Sforza, que controla empresas como Pizza Hut, KFC e Taco Bell.

Martins, porém, nunca atuou em cargo público. E o que o leva a acreditar que está habilitado para o posto?

"Vou fazer um paralelo. Tenho mais de 20 empresas. Tenho empresas que vão desde área de ciência e tecnologia, como Social Bank, até redes de fast food, como a Pizza Hut, KFC. E o que eu entendo de fazer pizza? O que eu entendo é a minha posição como gestor, de avaliar, projetar, contratar profissionais qualificados. É muito mais importante você ter noção de gestão, ter metas."

Caso assuma a vaga na pasta, ele elenca algumas: a primeira, diz, será economizar 20% do orçamento. Outra será retomar um projeto para desenvolvimento de uma laboratório de biossegurança nível 4, em parceria com a Fiocruz. "Queremos tirar isso da gaveta", afirma. "Preciso ser médico para fazer isso? Não preciso."

Questionado, Martins evita comentar como avalia o cenário da epidemia e diz apenas que o momento é de "solidariedade".

"Não viemos fazer carreira no ministério, nem trampolim de um cargo para outro. Estamos com missão específica de combate a Covid-19", disse.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.