Descrição de chapéu Coronavírus

Como transportar um elefante durante uma pandemia

Operação leva Mara, por terra e sob escolta, de Buenos Aires até o Santuário de Elefantes em Mato Grosso

Brooke Jarvis
The New York Times

Fazia quase dois meses que a fronteira entre a Argentina e o Brasil estava fechada devido à pandemia do coronavírus quando, no início de maio, um comboio incomum se aproximou do posto de controle em Puerto Iguazú. Eram 15 pessoas, todas com cara de quem dormiu pouco em vários dias, e seis veículos, incluindo um guindaste e um grande caminhão.

Atrás do caminhão havia uma caixa de transporte especializada.

Dentro da caixa estava um elefante.

O nome do elefante era Mara. Tinha cerca de 50 anos, e passara as últimas duas décadas e meia em um recinto empoeirado de zoológico no bairro de Palermo, no centro de Buenos Aires. O zoológico já foi uma peça central dos grandes parques vitorianos da cidade, um símbolo de seu prestígio. Como observou o vice-presidente da Argentina em 1888, não existia uma grande cidade que não tivesse um zoológico.

À moda da época, o recinto de Mara foi construído para se parecer com as ruínas românticas de um templo hindu. Mas para ela era uma casa difícil, pequena e tensa, dividida com outros dois elefantes. Eram africanos, espécie diferente da de Mara, que é um elefante asiático, e como eles não se davam bem os tratadores garantiam que nunca compartilhassem o pequeno espaço —trocando-os entre as seções internas e externas do recinto a cada dia.

Veterinário oferece maçã à elefante Mara em zoológico em Buenos Aires, Argentina - Agustin Marcaria - 18.fev.20/Reuters

Mara ficava muito tempo dentro da casa, embora os elefantes precisem andar muito para digerir adequadamente e manter as patas saudáveis, e passava muito tempo sozinha, embora os elefantes sejam profundamente sociais. Ela costumava passar horas balançando a cabeça em um círculo, um comportamento estereotipado considerado um sinal de estresse nos elefantes em cativeiro.

Os visitantes observaram o mesmo comportamento em um urso polar, Winner, antes de sua morte durante uma onda de calor em 2012. Alguns anos depois, dois dos leões-marinhos do zoológico morreram com poucos dias de diferença.

As pessoas começaram a protestar que algo precisava ser feito --não apenas por Mara, mas por todos os animais, cerca de 2.500 em 2016, que estavam espremidos em apenas 17 hectares.

Um grupo de protesto, chamado SinZoo, disse que estava fazendo um abaixo-assinado "pela liberdade dos prisioneiros em Palermo". A prefeitura, dona do terreno, decidiu intervir e assumir a direção da empresa privada que administrava o zoológico.

Mas àquela altura, disse Tomás Sciolla, que se tornou o novo gerente de vida silvestre e conservação, os protestos levantaram uma questão que a prefeitura teve de levar a sério: seria suficiente melhorar a vida dos animais que ainda viviam em zoológico? Sua visão dos animais e seu papel na sociedade haviam mudado desde 1888?

A elefante Mara cruza a Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, sob escolta - Christian Rizzi - 11.mai.20/Polícia Rodoviária

A cidade decidiu que o terreno deveria fazer a transição para um "ecoparque", onde as crianças poderiam aprender sobre conservação e os animais nativos poderiam ser reabilitados, mas não viveriam em exibição. O comitê começou a pesquisar como enviar os animais do zoológico para novas casas, em santuários e reservas naturais. Alguns estavam muito velhos ou doentes para se mudar, e alguns animais morreram.

Mas, à medida que a logística se formava, muitos outros partiram: três ursos-de-óculos para um santuário animal no Colorado; Sandra, a orangotango, para o Centro de Grandes Primatas em Wauchula, na Flórida. Nesta primavera, 860 animais foram realocados. Mara seria o número 861.

O comitê fez um plano para transferi-la para o Santuário de Elefantes no Brasil, um complexo de 1.120 hectares recém-criado no estado de Mato Grosso. Para realocar um elefante 2.720 quilômetros através das fronteiras internacionais requer uma grande quantidade de documentos. (Isso serve para evitar o contrabando de animais, especialmente de espécies ameaçadas.)

No caso de Mara, obter autorizações significava provar onde ela nasceu e onde morou antes de ir para o zoológico em 1995. Então, ela tinha sido confiscada de um circo, o Circo Rodas, por causa do mau tratamento. Mas para onde sua vida a havia levado antes disso?

A atenção da mídia ao caso de Mara envolveu o público, e as pessoas apresentaram informações. A família Tejidor, que já dirigiu vários circos, relatou que no início dos anos 1970 eles tinham comprado Mara, junto com dois outros elefantes, do Tierpark Hagenbeck, um zoológico em Hamburgo, na Alemanha.

A elefante Mara faz a travessia na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, sob escolta - Christian Rizzi - 11.mai.20/Polícia Rodoviária

Acontece que esse zoológico a adquiriu ainda jovem na Índia, onde ela nasceu em cativeiro em um campo de trabalho. Victor Veira Tejidor, cujos avô e tio-avô foram donos do circo que a comprou, lembrava-se de Mara como um membro da família, faminta por atenção e carinho.

"Ela é um ser muito especial", disse ele.

Durante anos, Mara viajou com a família de cidade em cidade na Argentina, Uruguai e Brasil, apresentando-se para multidões. Fotos antigas a mostram como um bebê, com dois homens apoiados em suas costas; crescida e fazendo truques em um banquinho, com um enfeite de cabeça; equilibrando-se nas patas dianteiras e na jaula dentro de uma tenda de circo vazia.

A família de Veira deixou o circo em 1980, quando ele tinha 12 anos, e vendeu Mara para o Circo Rodas.

"Foi quando as coisas começaram a ficar feias para ela", disse Sciolla. Mara não "se comportava" --"porque o que é 'comportamento' para um elefante que está em cativeiro e sendo forçado a se apresentar?"

O novo circo contratou o ex-treinador de Mara para fazê-la se apresentar novamente. Mas Mara, talvez sentindo-se ameaçada, o matou.

"Não é mentira que os elefantes não esquecem", disse Sciolla.

A elefante Mara - Christian Rizzi -11.mai.20/Polícia Rodoviária

Antes de ser confiscada e levada para morar no zoológico, ela foi encontrada acorrentada em um estacionamento. Mas o zoológico representou apenas uma melhoria relativa nas condições e, após 25 anos, Sciolla estava desesperado para tirar Mara de lá. O plano de partida exigia intensa coordenação com vários ministérios e dois governos nacionais, mas, finalmente, as peças se encaixaram: Mara se mudaria para o santuário no Brasil em março.

"E, claro, começou a Covid-19", disse Sciolla.

A Argentina impôs um dos bloqueios mais rígidos da América Latina, e o plano original teve de ser descartado. Mas a janela para as autorizações duramente conquistadas para transferir Mara estava se fechando rapidamente. Sciolla, que tem uma grande foto da elefante pendurada em seu apartamento, descobriu-se defendendo uma estranha tese ao telefone com uma série de funcionários públicos.

"Eu sei que vocês estão lidando com uma crise", disse ele. "Mas precisamos transferir este elefante."

Ele ficou comovido com a disposição dos funcionários a tornar isso possível.

E assim Mara, depois de uma vida longa e complicada, se viu em um caixote, em uma pandemia, esperando na fronteira fechada entre os países. Apenas quatro humanos foram autorizados a cruzar com ela e fazer a jornada final até o santuário. Mas assim que o pequeno grupo passou em segurança pela fronteira Sciolla começou a sentir certo alívio, como ele disse, de "todas as pressões que você sente quando está a milhares de quilômetros de casa com um elefante".

Houve uma última barreira —mover o elefante exausto para um caminhão que enfrentaria os últimos 40 quilômetros de estrada esburacada—, e finalmente a caixa chegou ao espaço aberto, com capim e árvores. Sciolla ficou emocionado ao se lembrar.

"Tudo valeu a pena quando você via aquele animal que passou a maior parte da vida de uma forma inatural conectar-se com sua essência e o que ela é", disse ele. "Para ela, demorou muito."

Mara rapidamente se relacionou com outro elefante asiático chamado Rana. A conexão deles foi tão instantânea e intensa que algumas pessoas presentes se perguntaram se eles se conheceram na infância --Rana poderia ser uma das três trazidas de Hamburgo tantos anos atrás?

Veira duvidava, mas achou comovente assistir a vídeos de Mara explorando sua nova casa décadas depois de quando viajavam juntos.

"É maravilhoso vê-la em um lugar onde ela deveria estar o tempo todo", disse ele.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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