É falso que a Austrália tenha controlado a Covid-19 com ivermectina

Médica engana ao afirmar, em vídeo, que o governo do país distribuiu a droga para a população

São Paulo

É falso que o governo da Austrália recomendou a toda população que tomasse a ivermectina como medida preventiva contra a Covid-19 e que, depois disso, o número de casos no país caiu. A afirmação foi feita em um vídeo viral pela médica Cecília Pimenta. O único tratamento contra a doença aprovado pelo governo do país foi o remdesivir, que só deve ser prescrito para pacientes graves. Antes disso, a Austrália adotou medidas como distanciamento social, higienização das mãos, restrição de viagens e lockdown. A Universidade de Monash, que lidera a pesquisa australiana sobre o uso da ivermectina para tratar o novo coronavírus, afirmou ao Comprova que nem sequer iniciou o teste em humanos. Atualmente, a Austrália enfrenta uma segunda onda de infecções.

No vídeo, verificado pelo Comprova, Pimenta também afirma, erroneamente, que a eficácia do medicamento foi reconhecida pela agência sanitária dos Estados Unidos, a FDA (Food And Drug Administration) –o órgão orientou os pacientes com Covid-19 a não tomar ivermectina. A médica também diz que o uso da droga foi responsável por controlar a pandemia na Etiópia, o que já havia sido desmentido pelo Comprova. Por fim, afirma que o remédio já é considerado uma “vacina” contra o novo coronavírus. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), porém, não reconhece a eficácia da droga no tratamento da doença.

O Comprova conseguiu falar com Cecília Pimenta e a questionou sobre as fontes das informações que cita no vídeo. Por WhatsApp, ela sugeriu que o Comprova pesquisasse na internet artigos sobre o uso da ivermectina no tratamento da Covid-19.

Ciclista passa por soldados e policiais; ao fundo, rio
Ciclista passa por policiais e soldados em Melbourne, após anúncio de novas restrições para combater a pandemia - William West/AFP

Pandemia no país

A Austrália identificou o primeiro caso da Covid-19 em 25 de janeiro, um homem vindo da província de Wuhan. Seis dias depois, o governo determinou que todos os estrangeiros vindos da China passassem por um período de quarentena em outro país antes de serem autorizados a entrar em território nacional. Em fevereiro, as restrições foram ampliadas para a entrada de estrangeiros vindo de outras nações.

No início de março, os australianos registraram a primeira morte pela doença e os primeiros casos de transmissão comunitária do novo coronavírus. A partir daí, medidas mais enérgicas foram adotadas, como o fechamento de fronteiras e de serviços não essenciais.

O afrouxamento gradual dessas medidas teve início em maio. Mas, em junho, os australianos passaram a lidar com uma segunda onda de infecções e o governo teve que adotar o lockdown em Melbourne, onde o comércio voltará a ser fechado a partir desta sexta-feira, 6 de agosto. O retorno das sessões presenciais do Parlamento federal, que ocorreria agora em agosto, também foi adiado.

Atualmente, o governo australiano mantém restrições de viagem, obrigação de quarentena para pessoas que chegam ao país e orienta os cidadãos a manter medidas de higiene e isolamento em casos de sintomas. Governos locais podem impor barreiras sanitárias. A Austrália também restringiu a venda de hidroxicloroquina e de medicamentos essenciais, como analgésicos, anticoagulantes e antidepressivos, para garantir o suprimento para pessoas que precisam dessas substâncias. Até esta quarta-feira (5), a Austrália tinha registrado 19.445 casos da Covid-19 e 257 mortes pela doença, segundo dados da Johns Hopkins University.

Verificação

Em sua terceira fase, o Comprova verifica informações sobre as políticas públicas do governo federal e a pandemia da Covid-19 que tenham viralizado nas redes sociais. É o caso da vídeo da médica Cecília Pimenta, que teve 11,3 mil visualizações no YouTube e 10,4 mil compartilhamentos no Facebook. A verificação se torna ainda mais importante quando se trata de medicações e tratamentos para o novo coronavírus, porque esses conteúdos podem induzir as pessoas a automedicação e expô-las a riscos de contaminação, por acreditarem que há uma cura comprovada e barata para a doença.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edição para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a Covid-19 disponíveis no dia 5 de agosto de 2020.

A investigação desse conteúdo foi feita por Jornal do Commercio e GaúchaZH e publicada na quarta-feira (5) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, UOL, A Gazeta, Nexo, SBT e Estadão.

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