Pesquisas sobre sistema imune e relação com câncer vencem prêmio

Trabalhos sobre células T ganharam o Prêmio Octavio Frias de Oliveira; cerimônia será na quarta

São Paulo

Uma pesquisa que decifrou o papel de uma célula do sistema imunológico no câncer colorretal é a vencedora do 11º Prêmio Octavio Frias de Oliveira na categoria Pesquisa em Oncologia.

Na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia, o trabalho que propôs um jeito de baratear um dos tratamentos mais modernos contra a leucemia ficou em primeiro lugar.

A premiação é uma iniciativa do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), em parceria com o Grupo Folha. A láurea, que leva o nome do então publisher da Folha, morto em 2007, tem como objetivo incentivar e premiar a produção de conhecimento nacional na prevenção e combate ao câncer.

Segundo o médico Caio Abner Leite, 34, líder do estudo vencedor da categoria Pesquisa em Oncologia, a ideia do projeto era entender a relação entre as marcas deixadas por uma grande inflamação no organismo e o desenvolvimento de tumores no intestino.

Uma culpada pela conexão foi descoberta: a célula T regulatória (Treg), que pode virar alvo de modificações. Paradoxalmente, as células T são “soldadas” do sistema de defesa do organismo que têm entre suas atribuições naturais eliminar células cancerosas.

“Este trabalho abre perspectivas para a prevenção de câncer em quem tem doenças inflamatórias intestinais, seja com a manipulação, a indução ou a transferência dessas células. Sabemos que alguns imunoterápicos [classe mais moderna de fármacos anticâncer] podem aumentar ou reduzir a atividade da célula T.”

Caio Abner Leite, 34, médico e líder do estudo vencedor da categoria Pesquisa em Oncologia. O médico e seu grupo de pesquisa descobriram que as células conhecidas como linfócitos T reguladores (Treg) produzidos após uma infecção grave podem tanto inibir novos tumores colorretais quanto acelerar o desenvolvimento daqueles pré-existentes.
Caio Abner Leite, 34, médico e líder do estudo vencedor da categoria Pesquisa em Oncologia. O médico e seu grupo de pesquisa descobriram que as células conhecidas como linfócitos T reguladores (Treg) produzidos após uma infecção grave podem tanto inibir novos tumores colorretais quanto acelerar o desenvolvimento daqueles pré-existentes. - 30.jul.20 - Danilo Verpa/Folhapress

Para Leite, a láurea é a coroação dos sete anos investidos na realização do trabalho, feito inteiramente no país. “O prêmio traz um estímulo para pesquisadores que estão trabalhando na bancada ou em hospitais e mostra que é possível fazer pesquisa no Brasil e ter novas perspectivas.”

Ele iniciou sua pesquisa na Universidade Federal do Ceará e, após a morte de seu orientador, o oncologista clínico e professor de farmacologia Ronaldo Ribeiro, em 2015, terminou o trabalho na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e no A.C.Camargo Cancer Center.

Em segundo lugar na mesma categoria ficou outro trabalho da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, comandado por Wilson da Silva Júnior, que trata do uso de microRNAs contra o câncer de ovário; em terceiro, ficou a pesquisa de Mauro Solla-Penna, da UFRJ, que investigou o papel do hormônio serotonina no câncer de mama.

Já na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia a vencedora é a bióloga Luiza Abdo, que desenvolve seu trabalho no Inca (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro, e o grupo do qual ela faz parte. Sua missão era tentar achar meios de tornar mais barata uma terapia para tratar leucemias. Hoje, o procedimento pode custar até US$ 500 mil (R$ 2,6 milhões).

Nesse processo complexo, células T da corrente sanguínea são extraídas, transformadas e devolvidas para o organismo. Essas supercélulas passam a reconhecer as células cancerosas que se “escondiam” e a combatê-las.

Abdo explica que a estratégia envolveu mudar a maneira de alterar o DNA dessa célula, que antes contava com um vírus e vários dias de manipulação em laboratório. De acordo com o trabalho, seria possível fazer essa manipulação em apenas um dia com auxílio de sequências de DNA capazes de se replicarem e de se autoinserirem no genoma.

Luiza Macedo Abdo, bióloga vencedora na categoria Inovação Tecnológica em Oncologia. - 31.jul.20 - Zo Guimaraes/Folhapress

Com os vírus de escanteio e menos tempo de laboratório, o custo do procedimento poderia despencar, afirma a cientista. “A ideia agora é entender se essas células T funcionam da mesma maneira. Precisamos ainda buscar outras respostas, mas seria interessante fazer testes clínicos e democratizar essa terapia.”

Abdo diz que o prêmio é um incentivo para continuar os estudos. “A pesquisa no Brasil é feita por bolsistas, e o emprego formal só vem depois dos 30. Pós-graduandos passam por muitos altos e baixos e questionam se o esforço vale a pena. Confesso que eu estava nessa fase. Às vezes você precisa desse tipo de incentivo. E se não fosse por cada um dos envolvidos do grupo esse trabalho não teria existido.”

Nessa categoria, o segundo lugar é ocupado pelo trabalho de Adriana Leandra Santoro e colaboradores, que mapearam a composição do câncer de mama. Uma pesquisa do Icesp, de Marina Alessandra Pereira e colegas, sobre marcadores de câncer gástrico, ficou em terceiro lugar.

Ao todo 32 trabalhos foram examinados pela comissão julgadora, formada por representantes do próprio Icesp, da Faculdade de Medicina da USP, do Hospital das Clínicas da USP, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), da Academia Nacional de Medicina, da Academia Brasileira de Ciências, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Fundação Oncocentro de São Paulo e da Folha. Cada vencedor receberá R$ 20 mil, além de um certificado.

Em decorrência da pandemia de Covid-19, a cerimônia de premiação deste ano não acontecerá na sede da Faculdade de Medicina da USP, como estava inicialmente previsto. No dia 5 de agosto, às 17h, haverá uma cerimônia virtual no Ao Vivo em Casa, série de lives da Folha, que será transmitida no site do jornal e em seu canal de YouTube. O evento será comandado pela jornalista Cláudia Collucci.

A pandemia também alterou a pesquisa e rotina nos laboratórios de pesquisa. O grupo de Abdo, por exemplo, passou a se dedicar a atividades como divulgação científica e bioinformática. A bióloga também se voluntariou para fazer diagnóstico de Covid-19 nos laboratórios do Inca.

Bióloga leva prêmio Personalidade de Destaque

A bióloga e pesquisadora Anamaria Aranha Camargo, 48, diretora do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, é a Personalidade de Destaque em Oncologia da 11ª edição do Prêmio Octávio Frias de Oliveira.

A escolha foi feita pela comissão julgadora do prêmio, presidida pelo médico e professor da USP Ivan Cecconello. Segundo ele, a escolha pelo nome de Camargo se deu por seus estudos interdisciplinares entre as áreas médica e de biologia molecular.

“Ela mostrou que certas alterações genéticas das células tumorais podem mudar tanto a forma de fazer diagnóstico quanto o prognóstico dos pacientes. É algo que orienta melhor o uso de quimioterapia ou de drogas biológicas, que são caríssimas”, diz ele.

A bióloga e pesquisadora Anamaria Aranha Camargo,48, vencedora do prêmio Personalidade de Destaque em Oncologia Octavio Frias de Oliveira. - 28.jul.20 - Zanone Fraissat/Folhapress

Camargo busca entender o que faz alguns tumores serem identificados e combatidos pelo sistema imunológico e outros ficarem camuflados e escondidos do sistema imune. Uma das respostas é a carga mutacional: tumores que acumulam muitas mudanças no DNA tendem a ser mais reconhecidos pelas defesas do organismo. Mas como saber que esse é o caso? A solução era cara: sequenciar todo o exoma do ser humano, ou seja, toda a parte do DNA responsável principalmente pela produção de proteínas. O time da cientista encontrou uma alternativa mais simples: olhar para apenas alguns genes.

Além da contribuição para a oncologia, a bióloga teve participação fundamental em um dos mais importantes capítulos da ciência biológica nacional: o sequenciamento, no final da década de 1990, do genoma da Xylella fastidiosa, uma bactéria responsável por muitas perdas na agricultura.

“É uma alegria ganhar esse prêmio, que já reconheceu pessoas que admiro muito, como o professor [Ricardo] Brentani [1937-2011] e a [cirurgiã] Angelita Gama, com quem colaborei bastante em pesquisas translacionais na época em que trabalhei no Hospital Oswaldo Cruz”, diz Camargo. “Somos poucos pesquisadores considerando o tamanho do país. E infelizmente temos investido pouco em ciência”, diz a cientista.

11º PRÊMIO OCTAVIO FRIAS DE OLIVEIRA
5 de agosto, às 17h, no Ao Vivo em Casa, série de lives da Folha; também no canal do jornal no YouTube

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