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Coronavírus

A volta à escola precisa contemplar uma utopia do corpo

Depois de meses sem atividade física, as crianças deveriam regressar às aulas em espaços abertos

André Trindade

Psicoterapeuta e educador, é autor de “Gestos de Cuidado, Gestos de Amor” e “Mapas do Corpo” (Summus Editorial)

A arquitetura modernista foi profundamente influenciada pelas pandemias na Europa, no final do século 19 , início do século 20 e pela tuberculose.

Surgiram as “escolas a céu aberto”. Os espaços passaram a ser concebidos com grandes janelas de vidro para a captação da luz do sol, paredes retráteis para facilitar a circulação do ar em escolas, hospitais e ambientes públicos. Áreas externas foram valorizadas.

O corpo ganhou papel central na circulação dos espaços, agora mais livres, menos ocupados pelo mobiliário.

Escola a céu aberto na Holanda, por volta de 1935, em foto de autor desconhecido; imagem em preto e branco mostra alunos em carteiras ao ar livre, cercados de árvores, com um professor
Escola a céu aberto na Holanda, por volta de 1935, em foto de autor desconhecido - Arquivo Municipal de Amsterdam

Como o corpo das nossas crianças e adolescentes está sendo considerado nesse momento crucial de retorno às aulas presenciais?

O isolamento social induziu a um isolamento em relação ao próprio corpo. As crianças e os jovens ficaram privados de se movimentar por quase seis meses e ainda não sabemos por quanto tempo mais essa situação vai se estender.

Correr, saltar, escalar, nadar, andar de bicicleta, praticar esportes e brincar livremente foram “apartados” de seu cotidiano. Também foram privados das entradas e saídas das escolas e dos recreios nos quais seus corpos aprendiam a se relacionar com outros corpos em movimento.

Permaneceram quase esse tempo todo encerrados em casa. O ensino a distância e a pressão no sentido de que os alunos não perdessem a “produtividade” e o “conteúdo” levaram esses jovens a permanecer cerca de oito horas por dia diante de telas, sendo a maior parte desse tempo dedicadas a aulas e tarefas e outra ao entretenimento e à comunicação em redes sociais.

Parece que nos esquecemos das recomendações da Organização Mundial da Saúde em relação à necessária restrição do tempo de uso das telas. Um absurdo a que assistimos calados. Mesmo que esse seja o único recurso possível nesses tempos de pandemia, ainda assim deveriam ser menos horas.

Não devemos nos esquecer de que o corpo se desenvolve a partir de sua utilização. Os pulmões de um alpinista se desenvolvem de forma diferente daqueles que assistem o alpinismo através das telas. O mesmo ocorre com os ossos que, em crianças e adolescentes, podem crescer vários centímetros no período de seis meses. E a postura? Crescer com o corpo desorganizado pode ser muito prejudicial.

Nossos filhos permaneceram deitados em suas camas, jogados em sofás, mal sentados em cadeiras inadequadas ou até mesmo no chão, utilizando, muitas vezes, telas mínimas de celulares para acompanhar os estudos. O reflexo postural se dissolveu. Na volta, quem conseguirá permanecer sentado, assistindo aulas? Penso que irão cair das cadeiras, se trombar com os outros, tropeçar, sofrer quedas e acidentes.

Podemos afirmar que a criança aprende com o corpo, aprende fazendo, experimentando, errando, acertando, buscando soluções para os diversos desafios a partir da experiência prática. Os estudos da neurociência cada vez mais se aproximam do corpo em movimento. O cérebro deixa de ser entendido como uma estrutura circunscrita apenas à caixa craniana e se expande por todo o corpo. As habilidades de atenção, concentração e planejamento vêm sendo cada vez mais associadas à organização corporal.

Como diremos para uma criança manter o distanciamento de um metro e meio de outra? Esse é um conceito abstrato que deve ser apreendido a partir da experiência do corpo.

Aqui minha utopia (uma utopia ao alcance das “mãos”): as escolas deveriam atender à urgência do corpo. As aulas deveriam se iniciar em espaços abertos, nas quadras esportivas, nos pátios com base no modelo das “escolas à céu aberto”. O corpo teria papel central, com jogos espaciais, com a movimentação em grupo, aprendendo o distanciamento e as novas regras de convivência, o uso de máscaras, a higienização das mãos.

Convocaria os professores de educação física, dança, teatro, música, consciência corporal. Contaria histórias ao ar livre, ouviria o que as crianças têm a dizer sobre suas experiências de confinamento. Daria lugar para a expressão corporal e as emoções. Muitas crianças estão assustadas e tensas com o retorno e precisam falar disso.

Esportes competitivos e conteúdos viriam em segundo lugar. As crianças precisam brincar juntas e reativar a motricidade. Em seguida, deveríamos aproveitar esse momento para ensiná-las sobre a postura sentada tão utilizada na escola.

Ou será que iremos fixá-las, “engessadas” em cadeiras, separadas por placas acrílicas e ensinar a elas conteúdos para os quais ainda não estão motivadas?

Muitas famílias me perguntam como podem promover essa preparação. Respondo de forma simples: caminhando diariamente com seus filhos.

Helle Heckmann, educadora dinamarquesa, dirigiu por muitos anos um jardim da infância em Copenhague. Essa senhora saía diariamente, com seus alunos com menos de seis anos, para caminhadas de três ou quatro quilômetros, mesmo sob temperaturas abaixo de dez graus centígrados.

Ao caminhar, uma criança estimula o reflexo postural, a coordenação motora, a noção de espaço, de tempo, a noção do próprio eixo, o domínio do corpo, da matéria, vence a passividade, faz escolhas, planeja suas ações e se desvia de obstáculos. Além dos ganhos orgânicos, respiratórios, circulatórios e musculares.

Diante de uma situação tão crítica, o que nos alivia é saber da imensa capacidade de regeneração e resiliência das crianças. Se soubermos criar condições e oferecer estímulos para que isso aconteça, a recuperação será efetiva. Que as escolas e as famílias estejam atentas à importância do corpo nesse retorno.

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