Pandemia ajuda a aprimorar práticas médicas e marcos regulatórios

Para debatedores, soluções geradas no enfrentamento da Covid-19 terão efeitos colaterais benéficos

J. Marcelo Alves
São Paulo

A pandemia de Covid-19 trouxe vários desafios para a medicina, em especial o atendimento a doenças graves como o câncer. No entanto, também está sendo uma experiência importante para aprimorar as práticas médicas, os sistemas de saúde e os marcos regulatórios.

Estas foram as conclusões do painel "Pós-coronavírus: como ficará a atenção oncológica", parte do sétimo Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, realizado virtualmente.

Segundo Clarissa Mathias, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia, o novo paradigma é tentar o equilíbrio entre o medo da Covid-19 e as consequências de não se tratar o câncer da maneira e no tempo adequados.

Além de agravar desafios antigos do sistema de saúde, a pandemia trouxe novos. O maior foi a necessidade de agilizar tomadas de decisão frente a um panorama novo e em constante mutação, segundo Ana Cristina Pinho Mendes Pereira, diretora-geral do Instituto Nacional de Câncer.

Agora, conforme a pandemia arrefece, o problema é garantir assistência a todos os pacientes que ficaram afastados do sistema de saúde por medo de pegar a Covid-19 ou por sobrecarga das instituições de saúde.

Estudos no Brasil e no exterior indicam que, em abril deste ano, cerca de 70% das cirurgias oncológicas foram adiadas por conta da pandemia. O número de novos diagnósticos também caiu em dezenas de milhares no Brasil, o que é um grande problema em uma doença cujo diagnóstico precoce é fundamental.

Instituições de saúde também terão de se adequar para a detecção contínua de pacientes positivos ou suspeitos de terem o novo coronavírus. "A Covid-19 veio para ficar, por enquanto. Independente do pico da pandemia, teremos de aprender a conviver com pacientes chegando [contaminados] ou se contaminando", afirmou Pereira.

Um fator de atraso em pesquisas clínicas oncológicas foi a priorização das pesquisas em Covid-19.

"Embora não tenhamos parado nenhuma análise dos demais processos, incluindo os de medicamentos oncológicos, a análise foi um pouco mais lenta pois são os mesmos técnicos e a todo momento precisava tirar o técnico de uma análise de uma outra classe terapêutica para ele poder fazer análise de um protocolo clínico para Covid-19", segundo Claudiosvam Martins Alves de Sousa, especialista em regulação de vigilância sanitária da Anvisa.

Por outro lado, as soluções geradas no enfrentamento da Covid-19 terão efeitos colaterais benéficos. Além de um legado de equipamentos novos e práticas médicas mais ágeis e eficientes, pode haver melhora nos procedimentos regulatórios. Agências reguladoras descobriram margens para aprimorar suas práticas de aprovação de medicamentos e terapias.

Por exemplo, estabeleceu-se um prazo de 72 horas da chegada do processo formal requisitando aprovação de uma pesquisa clínica até uma resposta da agência.

Para isso, houve modificações de procedimentos, como flexibilização e digitalização da comunicação –e-mail, videoconferência– entre os proponentes da pesquisa e a Anvisa. Segundo Sousa, modificações assim podem vir a ser adotadas no pós-pandemia.

Segundo Mathias, os planos de manejo para crise durante a pandemia, envolvendo comunicação, regras para priorização de tratamentos, proteção de pacientes e profissionais de saúde, assim como apoio psicológico também serão uma experiência que podem refletir positivamente na prática médica.

O debate foi moderado por Mara Fernandes, diretora de ações estratégicas do Hospital do Câncer de Londrina (PR) e vice-presidente da Associação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Combate ao Câncer.

O Congresso Todos Juntos Contra o Câncer segue até sexta-feira (25), e as inscrições ainda podem ser feitas por meio do site oficial.

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