Descrição de chapéu Financial Times

Marie Kondo ensina a desapegar das coisas nos tempos da Covid-19

Quem melhor para nos ajudar a pôr ordem no caos da pandemia do que a própria superorganizadora?

Emma Jacobs
Financial Times

Marie Kondo quer deixar as coisas bem claras: "Muita gente me define como uma minimalista, que eu sou alguém que vai entrar na sua casa e jogar tudo fora. Mas isso está longe da verdade".

Mas com certeza Kondo fez carreira ensinando as pessoas a eliminar sua bagunça, certo? A ênfase está errada, insiste ela por meio de sua intérprete, Marie Iida, em uma videoconferência. O objetivo para as/os que seguem seu método de arrumação "KonMari" tem menos a ver com jogar coisas fora e mais com identificar o que dá felicidade ao proprietário(a) —ou, como diz seu slogan, "Espalhe alegria".

Mas, enquanto lares do mundo inteiro funcionam ao mesmo tempo como escritórios, escolas e creches, poucos encontrarão seu lugar feliz entre os laptops, emaranhado de cabos e novas impressoras que dominaram as mesas de cozinha.

Para alguns, uma tranquilidade no estilo Kondo parece um ideal impossível. No entanto, Kondo afirma que isso é mais importante que nunca. "Mais pessoas estão se organizando", diz ela, que acha muito banal a minha sugestão de que talvez isso corresponda a um desejo de controle, quando o mundo lá fora está enlouquecido. Trata-se de encontrar "felicidade, calma e paz", ela insiste.

"Estamos todos mergulhados numa ansiedade vaga e desarticulada neste momento", afirma. "E organizar-se oferece uma base sólida para fazer perguntas a si mesma: 'O que é importante para mim agora? Como eu quero viver?'"

A expert japonesa Marie Kondo ensina americanos a se desfazerem de tralhas 
A expert japonesa Marie Kondo ensina americanos a se desfazerem de tralhas  - Divulgação

Para ajudar as pessoas a decidir, Kondo acaba de lançar um curso online em dez episódios que, por US$ 39,99 (cerca de R$ 220), as conduz passo a passo por seu método de arrumação, ensinando desde técnicas de dobrar roupas a soluções de armazenamento. O sistema KonMari incentiva seus seguidores a ordenar por categoria, mais que por cômodos da casa, peneirando livros, artigos de toalete, lembranças sentimentais, segurando cada peça nas mãos para ver se ela provoca um arrepio de felicidade.

Em uma de suas videoaulas, ela cita o exemplo de uma mulher que, depois de rever seus livros, percebeu que aqueles sobre criação de filhos a deixavam feliz —e decidiu abandonar seu emprego para cuidar de crianças.

Foi seu livro de 2011, "A Mágica da Arrumação", que colocou Kondo sob a atenção internacional, quando ele foi traduzido para o inglês em 2014 e se tornou uma sensação editorial. O livro já foi lançado em 40 idiomas e vendeu mais de 10 milhões de exemplares.

Depois dele veio um guia ilustrado da arrumação ("Isso me traz alegria") e, no início deste ano, "Joy at Work" (Felicidade no trabalho). Ela fundou a KonMari Media e, no ano passado, com a série da Netflix "Ordem na Casa com Marie Kondo", tornou-se uma estrela da TV.

Seu sucesso chegou a provocar um livro anti-Kondo, "The Life-Changing Magic of Not Giving a F**k" (A mágica revolucionária de não se importar com nada, em baixo calão).

Kondo espera que seu curso online ajude as pessoas que têm dificuldade com seu ambiente doméstico. A pandemia exige que repensemos de maneira fundamental a utilização de nossas casas. "Realmente começa com uma conversa honesta com sua família [e] vocês precisam ter uma conversa honesta sobre [transformar] o espaço em seu local de trabalho", diz ela.

Uma coisa é morar numa casa luminosa como a dela, outra é dividir o espaço doméstico com vários colegas, todos trabalhando febrilmente. Ela é empática, afinal, "nenhuma casa no Japão é muito grande".
Para os que se sentem avassalados pela divisão imprecisa entre trabalho e casa, ela aconselha a, no final do dia, jogar a parafernália de trabalho em uma caixa que é guardada fora de vista.

O lockdown em Los Angeles, na casa onde ela mora com o marido e duas filhas, de três e cinco anos, foi "um pouco caótico", admite. Ela perdeu a paciência? "Foi apenas exaustão física."

Sua personalidade tranquila da TV não se sustenta 24 horas por dia, diz Kondo. "Nem sempre estou calma e comportada, de modo algum, especialmente quando estou exausta depois de um dia cheio de trabalho. Eu simplesmente digo: Vou dormir. Só isso."

Para seus fãs, Kondo é um anjo fascinante: pequenina, delicada e de fala suave. Para os críticos, é um símbolo do capitalismo tardio, o último de uma série de gurus da autoajuda que prometem felicidade com lições de vida para os que são ricos o suficiente para livrar-se de suas posses.

Kyle Chayka, autor de "The Longing for Less: Living with Minimalism" (O desejo de ter menos: vivendo com minimalismo), diz que Kondo dá às pessoas uma solução fácil para algo que as incomoda: "Descobrimos que os bens que acumulamos não são satisfatórios e não nos fazem felizes, não importa o quanto tenhamos. Eles se acumulam porque continuamos insatisfeitos. O problema é o capitalismo e o consumismo".

Kondo parece ter certa simpatia por essa opinião. Ela descreve sua popularidade como algo enraizado na "insatisfação no coração" das pessoas, que elas tentam preencher "comprando coisas".

O timing foi chave para a popularidade de Kondo, diz Roland Kelts, autor de "Japanamerica". "O que é alugado como um apartamento em Tóquio costumava ser considerado inabitável em Nova York ou Londres", diz ele.

Mas o aumento dos aluguéis e preços de casas nas cidades ocidentais colocou um prêmio sobre o espaço. "Você aprende rapidamente que se não se livrar do excesso de coisas desnecessárias, para manter seu pequeno espaço em ordem, você enlouquece."

Kondo, com sua deliciosa sinceridade, diz ele, consegue surfar uma onda de ideias japonesas vendidas ao Ocidente, como ikigai, ou "encontrar um motivo para sair da cama de manhã". Isso pode ser vendido como charmoso, diz ele, porque "o Japão não é mais uma ameaça econômica".

Embora ela resista a esta descrição, Kondo (3,8 milhões de seguidores no Instagram) é provavelmente a mais conhecida das "cleanfluencers" —um exército feminino de influenciadoras nas redes sociais dedicadas a arrumar e limpar, incluindo a britânica Mrs. Hinch (3,8 milhões de seguidores) e as americanas Clea Shearer e Joanna Teplin, amigas e sócias no Tennessee, que dirigem The Home Edit (4,1 milhões de seguidores mais um programa na Netflix).

Em um mundo de caos, são promessas de um bálsamo doméstico para nossas almas febris.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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