Com série, Marie Kondo inspira mais pessoas a arrumarem a casa e vira até meme

Autora de livros best-sellers sobre organização bomba nas redes sociais e se torna alvo de culto e críticas

Mariana Versolato
São Paulo

O timing não poderia ser mais apropriado. Em 1º de janeiro, dia em que abundam planos de uma vida melhor, quem sabe mais saudável e organizada, a maga japonesa da arrumação Marie Kondo estava a postos para entrar na casa de milhões de pessoas no mundo com apenas alguns cliques.

A estreia da série da Netflix “Ordem na Casa” permitiu que Kondo expandisse ainda mais seu império. Em 2015 ela já havia sido eleita pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo e feito fama com seu método KonMari de manter apenas aquilo nos traz alegria, descrito em livros best-sellers. 

A expert japonesa Marie Kondo ensina americanos a se desfazerem de tralhas 
A expert japonesa Marie Kondo ensina americanos a se desfazerem de tralhas - Divulgação

Neste ano, porém, a coisa cresceu. Viralizou, deu origem a memes e até cartazes políticos, ganhou voz (baixa, fina, calma) e corpo (pequeno, com roupas claras em tom pastel) e inspirou ainda mais pessoas a se despedir de suas coisas e agradecê-las pelo tempo em que conviveram. 

Cartaz na Marcha das Mulheres em janeiro de 2019 nos EUA faz alusão ao método de arrumação de Marie Kondo e diz que Trump não traz alegria
Cartaz na Marcha das Mulheres em janeiro de 2019 nos EUA faz alusão ao método de arrumação de Marie Kondo e diz que Trump não traz alegria - Reprodução

As redes sociais foram inundadas de gente fazendo pilhas e pilhas de roupas na cama e enchendo sacos de lixo com itens dispensados. Um amigo virou influencer do outro.

A relações públicas Analu Moreira, 35, já era fã do método e o colocou em prática pela primeira vez há cerca de dois anos na casa que dividia com duas amigas. “A gente tinha até um altar com o livro dela. Uma delas ficou obcecada com a Marie e foi influenciando a gente. Virou meio que uma seita, chegava a ser engraçado”, conta.

Neste mês, ela propôs um bazar do desapego no trabalho. Os colegas levaram livros, roupas e itens de casa; alguns doaram as peças, outros as venderam. Agora já planejam uma segunda edição. “Está todo mundo motivado e assistindo à série. É aquela coisa de início de ano, todo mundo quer renovar as energias."

A relações públicas Analu Moreira, 35, que usou o método de organização da japonesa Marie Kondo e influenciou sua mãe a arrumar suas coisas também
A relações públicas Analu Moreira, 35, que usou o método de organização da japonesa Marie Kondo e influenciou sua mãe a arrumar suas coisas também - Bruno Santos/Folhapress

Até sua mãe, Bernardete do Rocio de Souza, 63, entrou na onda. “Agora só chamo minha filha de Analu Kondo. Ela começou a arrumar as coisas dela e me ligou toda empolgada, mandou até foto das gavetas arrumadas, algo inédito”, diz, rindo. "Depois começou a me falar que eu também deveria descartar o que não usava mais. Fiquei meio assim no começo. Para mim foi difícil porque a gente se apega às coisas, olha para uma blusinha e pensa que talvez volte a usá-la. Colocamos todas as roupas na cama e depois consegui arrumar as gavetas. Resumindo, no fim foi muito bom organizar tudo e liberar tanto espaço.”

Gavetas de roupas, a cozinha e a área de serviço da casa de Bernardete já foram “kondonizados”. Até um ventilador antigo recebeu tratamento especial. “Mandei uma mensagem para a minha filha dizendo que o método estava mesmo mexendo comigo. Me despedi do ventilador e agradeci pelo tempo que ele me refrescou. Eu e ela rimos muito.”

Para a funcionária pública Priscila Tamanaha, 30, falar com os objetos parecia algo estranho. “Não sentia alegria ao segurar as roupas, só me forcei a decidir se manteria cada item ou não. Estava indiferente até que olhei uma peça e pensei ‘ah, por essa tenho um carinho especial’. O mesmo aconteceu na hora de me desapegar de alguns objetos sentimentais. Agradeci e me desfiz, já que não me servia mais. A Marie diz que mais vale a pena lembrar do que manter uma peça que você não vai mais usar.”

Daniela Arrais, jornalista e sócia da empresa Contente, já tinha devorado os livros e, neste mês, assistiu à série compulsivamente. Diz que gostou do mantra de permanecer com o que te traz alegria. Por causa da estreia do programa na Netflix, fez posts sobre Marie Kondo no Instagram que influenciaram amigos e seguidores e geraram trocas de experiências numa espécie de rede da organização.

“Uma conhecida comentou num dos posts que só de pensar em arrumar ficava ansiosa porque é muito bagunceira, e eu disse que não precisava seguir tudo o que ela dizia 100%. Depois ela contou que viu metade do primeiro episódio e já tinha feito uma sacola de itens para doação”, conta.

Daniela diz que, para ela, a faxina da casa virou uma faxina mental. “Uma faxina no juízo”, brinca. Até lista de músicas boas para ouvir durante a arrumação ela fez.

Cristiane Belfiore, consultora e palestrante em organização pessoal, vê diferenças culturais no método KonMari e no trabalho de personal  organizers do Brasil. 

"Na série, percebo que ela faz mais uma consultoria e a própria família é quem arruma a casa. Aqui o profissional faz a arrumação, em geral junto com a pessoa. Ela traz esse novo olhar sobre a casa, de reverência, de sentir a roupa e pensar no item que te traz alegria. Se você fizer isso no Brasil provavelmente vão rir de você, mas quem é mais esotérico pode até gostar. O importante para nós é perceber que cada família é de um jeito e ver o que faz sentido para cada uma", diz.

Mas, o método em si, que trabalha o desapego e a arrumação de cada coisa no seu lugar, não é revolucionário.

Além de pessoas, a série inspirou críticas também. A maioria delas se dedica ao desapego de Kondo por livros e fotos e à manutenção de uma casa tão limpa e ajeitada que pode ficar parecendo um quarto de hotel.

“Tenho muitos livros que eu amo e já pensei se preciso de todos eles, mas entendo que a biblioteca é também sua visão de mundo. Nessa parte ela não mexe”, diz Daniela. “Uma amiga tem trauma da Marie Kondo porque leu o livro dela, jogou um monte de coisa fora e depois se arrependeu.”

As fotos de Priscila também ficaram de fora da arrumação. “Isso de descartar as fotos que são parecidas é demais para mim”, diz.

Analu ouviu do pai que ela pertence a uma geração sem memória, que não vai contar história. "Hoje leio os livros e compartilho com os outros para que mais gente tenha acesso ao conteúdo. Claro que tenho alguns de coração, como um Machado de Assis que era do meu pai, e esses, sim, eu guardo.”

A responsabilidade feminina pelos cuidados com a casa também chamou atenção de quem viu a série.

"Tem mulheres ali que dizem se sentir culpadas porque a casa não está perfeita. A série deixa claro o quanto do trabalho doméstico recai sobre elas e como a casa é um organismo vivo que precisa de todo mundo para funcionar bem”, diz Dani. “Adoraria que uma segunda temporada falasse mais a fundo sobre isso, porque muitas mulheres podem se identificar. Quando uma coisa vira hit, como a série, gera a oportunidade de discussões."

Segundo dados do IBGE, as mulheres brasileiras ainda ganham menos e consomem mais tempo do que os homens com os cuidados da casa e de familiares.

Elas dedicaram 73% mais tempo a cuidados de pessoas ou afazeres domésticos do que homens em 2016. Foram 18,1 horas semanais para as mulheres e 10,5 horas para os homens. 

Os dados do IBGE, com base na pesquisa nacional Pnad Contínua, mostram que a desigualdade no gasto de tempo para tais atividades é maior no Nordeste, onde a dedicação das mulheres é 80% superior à dos homens, chegando a 19 horas semanais. A comparação também se agrava no recorte por raça e idade. São 18,6 horas semanais dedicadas por mulheres pretas ou pardas em 2016. Entre as brasileiras acima de 50 anos, a dedicação supera as 19,2 horas.

A mágica da arrumação

Os mandamentos de Marie Kondo para organizar a vida

  1. Arrume tudo de uma vez só

    Livrar-se de toda a bagunça quando iniciar a maratona de arrumação é essencial para evitar que tudo volte a ficar desorganizado

  2. Separe por categorias, não por cômodos

    Se você guarda objetos do mesmo tipo em lugares diferentes e arruma um cômodo de cada vez, nunca terá uma dimensão real da quantidade de itens iguais que possui, diz Kondo

  3. Antes de organizar, descarte

    O primeiro passo é jogar fora tudo aquilo de que não precisa. Só quando isso estiver feito, a arrumação começa

  4. Comece por itens de menor importância

    Objetos que guardam valor sentimental ficam por último, pois são mais difíceis de descartar. A ordem sugerida pela autora é: roupas, livros, papelada, itens variados e, por fim, itens de apego emocional, incluindo presentes e lembranças

  5. “Isso me traz alegria?”

    Na hora de decidir o que será descartado, é importante pegar cada objeto nas mãos. Nesse processo, avalie se cada um deles traz alegria para a sua vida. A utilidade de cada item, como acessórios de escritório ou livros, também conta

  6. Agradeça

    Antes de descartar um item, agradeça a ele pelo papel cumprido em sua vida

  7. Não há necessidade de itens especiais para a organização

    Kondo afirma que tudo o que alguém precisa para arrumar a casa ou o escritório já existe no ambiente: basicamente, gavetas e caixas

  8. Dobre do jeito certo

    Na hora de guardar roupas, o objetivo deve ser deixar cada peça no formato de um retângulo liso --isso economiza espaço. Além disso, de acordo com a autora, o ato de dobrar obriga as pessoas a manusear cada peça, transferindo energia para as roupas

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