Descrição de chapéu Coronavírus

Mesmo após aval da Anvisa, estudos sobre as vacinas continuam para sanar as dúvidas da agência

Anvisa levantou uma série de ressalvas aos imunizantes, como a falta de dados sobre a presença de anticorpos nos vaciados e de eficácia em idosos

São Carlos (SP) e Brasília

Tanto no caso da Coronavac, do Butantan quanto no da vacina da Fiocruz/Oxford, é importante destacar que a avaliação das imunizações não se encerra com a reunião da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deste domingo.

Os estudos continuam, com o acompanhamento dos pacientes para analisar a eficácia a longo prazo e o tempo de proteção conferido por cada vacina.

A aprovação do uso emergencial das vacinas veio com uma série de condicionantes. A principal delas é um termo de compromisso que deverá ser assinado pelo Instituto Butantan, relativo à vacina Coronavac, desenvolvida em parceria com a empresa chinesa Sinovac. A questão é que o Butantan não apresentou todos os dados previstos sobre a presença de anticorpos nas pessoas vacinadas.

O envio era exigido pela Anvisa desde sábado (9), quando foi finalizada a triagem inicial dos documentos que faziam parte do pedido.

"Fizemos reunião com o Butantan, colocamos importância desse dado e se comprometeram a apresentar. Na quarta apresentaram, mas não um dado quantitativo, que é o ponto mais importante pra gente", afirma. "Precisamos saber ao longo do tempo e a titulação, que é saber a quantidade de anticorpos. Se não tiver quantidade mínima de anticorpos, não garante que vão conseguir neutralizar o vírus", disse o gerente-geral de medicamentos da agência, Gustavo Mendes.

Segundo Mendes, os dados apresentados, que apresentavam apenas se houve geração de anticorpos ou não, não foram considerados adequados para avaliação. "Queremos o acompanhamento desses anticorpos, e quanto tempo duram esses anticorpos neutralizantes."

Idealmente, esses dados deveriam mostrar, de forma quantitativa, a presença dessas moléculas de defesa do organismo dos participantes do estudo no Brasil. Ou seja, deveria haver uma correlação clara entre a vacinação e a quantidade (ou título, como dizem os pesquisadores) de anticorpos capazes de neutralizar a ação do Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19.

Isso aconteceu no caso das fases 1 e 2 dos testes da Coronavac (realizadas com menos voluntários), nas quais foi possível fazer essa medição, mas a fase 3 dos testes, com o maior número de participantes, ainda não tem esses dados disponíveis, segundo a Anvisa. As informações repassadas por enquanto são qualitativas —ou seja, se as pessoas têm ou não os anticorpos no organismo—, mas ainda não quantitativas, estimando o nível exato de tais anticorpos. Também não está clara a mudança desses níveis ao longo do tempo dos estudos.

O Butantan deverá assinar o termo de compromisso para repassar tais informações à Anvisa e manter esse monitoramento conforme novos dados são recolhidos.

Ainda sobre a Coronavac, Mendes afirmou que os dados apresentados sobre a aplicação da vacina em idosos foram insuficientes para permitir "conclusões mais robustas". Segundo ele, apenas cinco idosos foram incluídos no estudo, sendo que três receberam placebo e outros dois foram efetivamente vacinados.

"A quantidade de idosos presentes no estudo era muito pequena e não permitiu que a gente tivesse um dado de eficácia e segurança da vacina [nesse grupo]", afirmou.

Uma questão que ainda precisa ser resolvida totalmente é a diferença de métodos entre o sistema de produção chinesa e os parâmetros ocidentais adotados pela Anvisa no que diz respeito ao controle de qualidade da vacina (presença de impurezas, contaminantes etc.)

A produção da Coronavac adota esses parâmetros com base na farmacopeia chinesa, que não é reconhecida pela decisão de 2009 da Anvisa que estabelece isso. Existe alguma comparabilidade em diversos parâmetros, mesmo assim, mas um dado que faltou foi a presença de DNA residual de células de primatas (usadas para cultivar o vírus) na vacina.

Mendes destacou que o Butantan se comprometeu a fazer o controle de qualidade de futuros lotes segundo parâmetros mais aceitos pela Anvisa. "A gente entende que isso resolveu nossa dúvida."

Tanto no caso da Coronavac quanto da vacina de Oxford/Fiocruz, esse tipo de monitoramento constante nos próximos meses é a principal exigência da Anvisa para confirmar que as vacinas são seguras e eficazes a médio e longo prazo.

No caso específico da vacina de Oxford, o mais "desafiador" da vacina de Oxford/Fiocruz foram as diversas mudanças no processo de fabricação conforme a escala da produção foi aumentando, segundo Gustavo Mendes.

Também restam algumas dúvidas sobre a pureza do produto e sobre sua estabilidade no longo prazo (por enquanto, sugere-se um prazo de seis meses).

Segundo ele, os resultados dos dados da vacina da AstraZeneca mostram uma "eficácia significativa", dentro dos intervalos mínimos que são sugeridos pelas organizações internacionais para classificar as imunizações. Como o laboratório já havia divulgado, a eficácia dessa vacina foi de 70,34%

Mendes ressaltou que a única exceção é o grupo dos idosos –com os dados apresentados, não é permitir um cálculo de eficácia significativa, assim como com a Coronavac.

Além disso, uma série de acasos durante o processo de testes clínicos afetou os resultados da vacina de Oxford.

Algumas pessoas receberam duas doses, outras uma dose e meia, por problemas de determinação da concentração do produto, e curiosamente as pessoas que receberam as doses totais menores tiveram uma resposta maior do sistema de defesa do organismo, aparentemente ficando mais protegidas.

Também houve atrasos na segunda dose para algumas pessoas, e os intervalos maiores entre doses também levaram a respostas mais altas do organismo.

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