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Indígenas criam enfermaria de campanha para atender pacientes com Covid-19 em Manaus

Iniciativa é liderada pela auxiliar de enfermagem Vanda Ortega, primeira vacinada no Amazonas

Gabriel Veras
Manaus

A crise da falta de leitos e oxigênio em Manaus levou os moradores do Parque das Tribos, primeiro bairro indígena da capital amazonense, a criarem um espaço para o tratamento de indígenas infectados pelo novo coronavírus.

Batizada de Uapi (Unidade de Apoio Indígena), a iniciativa é liderada pela auxiliar de enfermagem Vanda Ortega, primeira vacinada contra a Covid-19 no Amazonas. Pelo espaço, inaugurado há três semanas, já passaram mais de 50 indígenas.

A Uapi funciona como uma enfermaria de campanha adaptada à cultura e aos costumes indígenas. No lugar de macas, os pacientes utilizam redes. A intenção, segundo Vanda, que é indígena da etnia witoto, é criar um ambiente mais acolhedor.

O tratamento também respeita a medicina tradicional indígena. Além de medicamentos que agem contra os efeitos da Covid-19, o uso de chás, ervas e folhas é disseminado.

A auxiliar de enfermagem Vanda Ortega, diante da enfermaria de campanha para pacientes indígenas de Covid-19, em Manaus - Marcio James-22.jan/AFP


Vanda explica que a Covid-19 se espalhou rápido pela comunidade. “Com o avanço do vírus, o quantitativo de pessoas doentes só foi aumentando”, detalhou.

A Uapi não recebe apoio da prefeitura de Manaus, nem do governo do Amazonas. Os insumos foram adquiridos por recursos dos próprios moradores do Parque das Tribos e por doações, e os profissionais de saúde atuam de forma voluntária.

A demanda por ações de saúde para indígenas em contexto urbano diante da pandemia é antiga. Em 11 de abril de 2020, o então ministro da Saúde Henrique Mandetta prometeu a instalação de um hospital de campanha indígena em Manaus.

Em respeito à cultura indígena, pacientes recebem tratamento em redes na enfermaria de campanha de Manaus - Tadeu Rocha

No mês seguinte, o Ministério da Saúde inaugurou uma ala com 53 leitos para atender indígenas no hospital de retaguarda estadual. Na época, lideranças locais classificaram a medida como insuficiente.

A Prefeitura de Manaus chegou a instalar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) Móvel no Parque das Tribos, mas comunitários denunciam a falta de medicamentos e de profissionais para atender a demanda.

O epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, defende a instalação de uma unidade específica para o atendimento de indígenas com Covid-19. “Levar esses pacientes para outros tipos de hospital é algo desaconselhado.”

Vanda lembra da dificuldade de indígenas que vivem em cidades no acesso à saúde. “Quando nós, indígenas, saímos de nosso território demarcado, o destino são as periferias das grandes cidades e toda aquela marginalidade e invisibilidade também perpassa os indígenas das cidades”, destaca.

O Parque das Tribos é um exemplo disso. Idealizado em 2014 pelo cacique Messias Kokama, morto em maio de 2020 vítima da Covid-19, a comunidade abriga cerca de 700 famílias indígenas, de 35 etnias diferentes.

Profissionais da saúde atuam de forma voluntária no atendimento de pacientes indígenas na enfermaria de campanha de Manaus - Tadeu Rocha


Miqueias Kokama, filho de Messias e atual cacique da comunidade, lembra que o bairro só começou a receber energia elétrica há dois anos. No local, muitas ruas sequer são asfaltadas.

O acesso à água potável também é precário. Semanalmente, um caminhão pipa abastece algumas ruas do bairro, mas não todas. Moradores se juntaram para construir um poço tubular, que, mesmo assim, não atende toda a demanda.

Miqueias conta que, sem saneamento básico, muitos indígenas não conseguem aderir às medidas de prevenção ao coronavírus. “As pessoas preferem usar a água para consumir, para beber do que para lavar as mãos”.

A análise do cacique é reforçada pela pesquisadora Fabiene Vinente, da Fiocruz Amazônia. “Na cidade, indígenas não têm estrutura, seja de saúde, saneamento básico, educação ou segurança.”

“[Por isso,] o impacto da pandemia sobre eles foi muito brutal, afinal, eles estão no meio da cidade e não isolados. [...] Mesmo assim, há uma vulnerabilidade em relação ao vírus”, disse.

Profissional de saúde coleta material para realizar exame de Covid-19 em enfermaria de campanha para pacientes indígenas, em Manaus - Marcio James - 21.jan/AFP
O reconhecimento da vulnerabilidade dos povos indígenas perante o novo coronavírus se comprova na inclusão de indígenas aldeados no grupo prioritário da vacinação contra a Covid-19. A medida não inclui, no entanto, indígenas em contexto urbano.

Para Vinente, a divisão entre indígenas aldeados e indígenas em contexto urbano não faz sentido. “A pandemia não respeita essas fronteiras [entre cidade e aldeia].”

Até esta quarta-feira (10), o Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena, que compila dados de todo o país, registrou 48.222 casos confirmados e 958 mortes de indígenas por Covid-19 –a maior parte, no Amazonas.

Em nota, a Secretaria de Saúde de Manaus afirmou que mantém a UBS Lindalva Damasceno, que fica a 4 km do Parque das Tribos, como unidade de referência para atenção primária às famílias indígenas da comunidade.

A pasta acrescenta que monitora a comunidade e articula, junto às lideranças , o fortalecimento das ações de saúde in loco. A nota, porém, não comenta a criação da Uapi.

Procurado, o governo do Amazonas disse que o atendimento de indígenas em contexto urbano acontece em UBSs e nos hospitais estaduais, “a exemplo do que acontece com os demais habitantes da cidade”.​
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