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Sem leitos vagos, saúde de Bragança Paulista entra em colapso com mais jovens na UTI

Moradores relatam proliferação de coronavírus entre familiares e aglomerações em sítios

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Profissionais de saúde atendem paciente em UTI do Hospital Universitário São Francisco, em Bragança Paulista

Profissionais de saúde atendem paciente em UTI do Hospital Universitário São Francisco, em Bragança Paulista Eduardo Anizelli/Folhapress

Bragança Paulista

Não para de chegar gente na porta de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Bragança Paulista (a 87 km km da cidade de SP).

Uma auxiliar de enfermagem toda paramentada faz a triagem. Não há surpresa nos sintomas: tosse seca, falta de ar, dor de cabeça são comuns, uma vez que a unidade é voltada apenas para casos suspeitos de coronavírus.

Em um hospital particular da cidade, um papel sulfite avisa a quem chega: não há vagas nem na UTI nem na enfermaria. Em hospitais públicos, a situação é a mesma, e os pacientes graves com Covid-19 são transferidos para unidades de cidades vizinhas.

Bragança Paulista atingiu a situação que, desde o começo da pandemia, o estado vem tentando evitar: o colapso do sistema de saúde.

Segundo médicos ouvidos pela Folha, um contingente cada vez maior de pessoas abaixo dos 50 anos tem ajudado a lotar as UTIs.

Embora esteja na fase laranja no Plano São Paulo, a Prefeitura de Bragança, na gestão de Jesus Chedid (DEM), resolveu se adiantar ao estado e publicou um decreto que regride a cidade às restrições da fase vermelha.

Desde terça-feira (2), apenas serviços essenciais podem funcionar e aulas presenciais foram canceladas; bebidas alcoólicas tiveram venda proibida no fim de semana.

“Estamos hoje com as UTIs [para coronavírus] lotadas, 100% de ocupação dos 31 leitos. Estamos com as enfermarias de Covid do hospital de campanha, 100% dos 30 leitos do hospital de campanha lotados. Estamos com 11 pessoas aguardando por vagas de UTI e vagas de enfermaria, essas pessoas infelizmente terão que ser atendidas fora da nessa região”, disse a secretária da Saúde, Marina de Oliveira, em pronunciamento recente, em que definiu a situação como gravíssima.

Há meses, porém, o sistema de saúde da cidade vive no limite, afirmam profissionais da saúde de Bragança.

A reportagem entrou na UTI de um dos hospitais que atendem coronavírus na cidade. O Hospital Universitário São Francisco na Providência de Deus está com os 36 leitos de terapia intensiva ocupados.

Na unidade que atende o SUS (Sistema Único de Saúde) e é gerida pela Associação e Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus, pacientes intubados e inconscientes passam às vezes mais de um mês ocupando o espaço que foi transformado em UTI exclusiva para coronavírus. Familiares só têm notícias deles por telefone, em conversas diárias com os médicos, relatam funcionários da unidade.

Responsável por atender 11 cidades da região, a unidade praticamente dobrou sua UTI em 2020, criando 16 vagas em um espaço que estava reservado para virar um centro cirúrgico. Outras salas foram criadas para virar o isolamento dos pacientes com sintomas suspeitos.

Diretora clínica da unidade, a médica Maria Claudia Machado atendeu o primeiro caso de coronavírus da região, de um paciente vindo dos EUA. Na época, segundo ela, o perfil dos internados na UTI era o do grupo de risco da doença, praticamente todos idosos. “Agora, 30% dos internados são pessoas com menos de 50 anos”, diz ela.

Por enquanto, o hospital, único de alta complexidade na cidade, mantém cirurgias de doentes graves, como as oncológicas. Mas, segundo o diretor administrativo do hospital, Leandro Uliam, no caso de as medidas de isolamento adotadas não surtirem efeito, a unidade pode adotar sua própria fase vermelha. Aí, até essas cirurgias de casos graves podem ser suspensas, causando sérios riscos aos pacientes.

A situação vem se agravando muito rapidamente em Bragança. De acordo com o dados do governo estadual, a cidade registrou 145 mortes –43 delas, o equivalente a 30%, apenas nos dois primeiros meses deste ano.

Na UPA reservada apenas para os casos de coronavírus, enquanto funcionários da saúde relatam exaustão pelo trabalho na unidade lotada, pessoas com suspeita da doença dão sinal de que a situação não está perto de acabar. Segundo elas, suas famílias inteiras estão na mesma situação.

“Da minha família, tem eu, meu marido e dois filhos com sintomas. Ainda tem um funcionário do meu marido também”, diz Terezinha Carvalho, 51, que aguardava na manhã de terça a realização do teste da doença.

Apesar da situação grave na cidade, ela afirma que muitos continuam vivendo a vida normalmente, à base de automedicação, sem alterar a rotina.

O estudante Gabriel Damasceno, 16, responsabiliza pessoas de sua faixa etária pela gravidade da situação. “Pessoas mais velhas estão fazendo o certo, indo trabalhar. Mas adolescentes da minha idade continuam indo a festas lotadas. Só neste mês tem dois bailes funks marcados na cidade. Fecharam um na semana passada.”

Para escapar da fiscalização, os bailes têm acontecido em sítios escondidos, na zona rural da cidade. Em fevereiro, uma dessas festas flagradas pela polícia tinha cerca de 500 pessoas.

Sob fortes restrições ao menos até a próxima semana, comerciantes da cidade ouvidos pela reportagem não criticaram a decisão da prefeitura de antecipar a fase vermelha. No entanto, eles se sentem pagando pelos erros alheios.

“O problema não está no comércio, onde entram uma, duas, três pessoas, mas nas festas lotadas, nos bares cheios. Nos comércios, as pessoas seguem o protocolo, usam álcool em gel, máscara”, diz a comerciante Talita Souza, 33.

Na próxima segunda (8), a prefeitura se reunirá para avaliar se a quarentena mais restrita continua ou será interropida, com base nos dados de contaminação desta semana.

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