'Tento buscar forças', diz prefeito que chorou ao vivo após perder pai e irmão para Covid

À frente da administração em Mongaguá, no litoral paulista, ele afirma que chegou a questionar os planos de Deus

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Santos

O prefeito de Mongaguá, Márcio Melo Gomes (Republicanos), 43, no litoral sul paulista, conta que quase desabou na tarde desta quarta-feira (31) ao receber uma mensagem inesperada do filho mais novo, de 14 anos, por meio de um aplicativo de celular.

O prefeito de Mongaguá (SP), Márcio Melo Gomes, chora em live ao falar das mortes de pai e irmão, vítimas da Covid-19 - Reprodução Prefeitura da Estância Balneária de Mongaguá no Facebook

“Suas falas estão rodando o Brasil e tenho certeza que salvando muitas vidas. Só estou te falando isso para te alertar e para você pedir desculpas para Deus, ok?”, disse.

O político confessa que chegou a “questionar os planos de Deus” após as perdas recentes do irmão Givaldo Melo Gomes Júnior, 33, e do pai Givaldo Alves Gomes, 64. Ambos faleceram em decorrência de complicações da Covid-19 na última semana.

Conhecido popularmente como Cabeça – mesmo apelido do pai e do irmão, por conta da origem nordestina da família –, viu a repercussão do desabafo emocionado durante a transmissão ao vivo da prefeitura do município na última terça-feira (30) como uma missão religiosa de convencimento às pessoas no combate à doença.

O litoral paulista está inserido desde o último dia 23 em um lockdown, com duração até o próximo dia 4.
“As feridas não estão cicatrizadas [pausa para chorar], mas acredito numa missão espiritual de Deus nisso tudo”, disse à Folha.

“Estou destruído, tentando buscar forças, mas me apego na minha fé. Tenho um tio padre, duas tias freiras e há dez anos vou todos os meses para Aparecida [do Norte]. No último, estive com o meu pai, que nunca tinha ido lá. Foi um propósito de Deus tudo isso”, completa.

Durante a transmissão, o político subiu o tom para criticar a falta de consciência de parte da população, principalmente pelo pedido recorrente de moradores pela reabertura do comércio.

“Quero dizer para cada um de vocês que, como eu queria hoje, com a minha família inteira sendo do comércio [...] sair dessa live e escutar do meu pai e do meu irmão assim: 'Eu quebrei, o meu comércio quebrou'. Sabe por quê? Porque nós já quebramos, e com a vida nós conseguimos dar a volta por cima", explicou.

"Infelizmente, por essa doença, eles perderam a vida. E não há nada mais precioso que a vida de vocês, mas principalmente, a vida de quem vocês amam", completou na sequência.

Cabeça conta ter trabalhado ainda criança com o pai em uma pousada em Peruíbe, município vizinho, mas ficou marcado por uma vida em um açougue da cidade. O irmão que perdeu era dono de um restaurante, mas, mesmo assim, não refutou dizer que o comércio precisa parar.

“Não existem mais vagas em hospitais, não estão vendo? Eu tinha quatro respiradores quando assumi e hoje temos 20, todos em uso. Não fiz isso para aparecer. Trocaria aquele momento para tê-los novamente do meu lado”, explica.

Com cerca de 56 mil habitantes, Mongaguá registrou, desde o início da pandemia, 88 óbitos de moradores. Assim como Peruíbe, o município não possui leitos de UTI e tem os 24 destinados a enfermaria todos ocupados, sendo três deles com pessoas intubadas de forma improvisada pela saturação de vagas nos hospitais referência.

A medida padrão adotada é a de transferir pacientes em estado mais grave para hospitais da região. O pai de Márcio Melo Gomes estava internado no Hospital Regional Jorge Rossmann, em Itanhaém, enquanto o irmão na Santa Casa de Misericórdia de Santos, em leito particular.

Ele conta que precisou esconder do irmão, na UTI, o falecimento do pai na segunda-feira (22) anterior por preocupação de um choque emocional que pudesse trazer prejuízos à sua saúde.

“Quando o meu pai faleceu havia um buraco dentro de nós. O meu irmão estava internado, mas consciente, e não queríamos prejudicá-lo emocionalmente. Vivemos um luto, mas sem poder por para fora. A perda do meu irmão foi muito difícil de assimilar”.

Em caso de recuperação, o político conta que aceitou uma promessa de caminhar a pé até Aparecida do Norte, mas lamenta não ter conseguido cumprir. O propósito foi sugerido por amigo pessoal e vereador da cidade.

No litoral sul, das nove cidades, três delas estão com ocupação máxima dos leitos de UTI em hospitais públicos e particulares: São Vicente, Praia Grande e Bertioga, de acordo com os últimos boletins divulgados pelas prefeituras, nesta quarta-feira (31).

Em Santos, a taxa geral de ocupação dos leitos de UTIs está em 87% entre os 412 disponíveis, sendo 88% na rede pública e 85% na privada. A cidade registrou queda de apenas 1,9% nas internações de UTI nas últimas 24 horas, diminuindo de 364 para 357 pessoas. Hoje, dez novos óbitos foram confirmados, cinco mulheres e cinco homens.

Guarujá tem taxa em UTIs semelhante, de 88%, sendo que a enfermaria chegou a 100%. Cubatão, que tinha 100% de suas UTIs ocupadas registrou uma diminuição para 94,4%.

Mais cedo, o governo estadual anunciou ter liberado o primeiro lote de cilindros de oxigênio, com 3.000 equipamentos destinados a municípios do interior, além outros do litoral norte e sul paulista.

Com índice de isolamento abaixo de 70% em todas as cidades da região estima-se que seja anunciada pelos prefeitos a prorrogação do período de lockdown aderida pelo Condesb, conselho das nove cidades do litoral sul.

Entre as medidas, estão a proibição de circulação nas ruas após as 20 horas, além do fechamento de comércios essenciais como supermercados e padarias aos finais de semana. Com as novas restrições, somente farmácias e hospitais, incluindo veterinários, podem funcionar normalmente.

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