Descrição de chapéu New York Times

Mudanças são aprovadas e Copa Davis terá novo formato a partir de 2019

Alterações criam uma fase final com sede fixa e 18 países participantes

Ben Rothenberg
Orlando

A proposta da Federação Internacional de Tênis   (ITF) para reformular radicalmente a Copa Davis, torneio que existe desde 1900, foi ratificada nesta quinta (16) em sua assembleia anual, depois de meses de debate.

As mudanças foram aprovadas por 71% dos votos, o que supera a maioria de dois terços necessária, e entrarão em vigor no ano que vem.

Em lugar de partidas espalhadas ao longo do ano e realizadas em diversos locais do mundo, as rodadas finais da nova competição serão realizadas em uma semana, em novembro, com 18 equipes reunidas em um local neutro.

Os países serão divididos em seis grupos, onde todos jogarão entre si antes da disputa da fase eliminatória.

Dos 18 finalistas, 12 serão definidos através de uma fase de qualificação envolvendo 24 países, que será realizada em fevereiro. Também participarão da fase final os quatro semifinalistas da edição 2018 da Davis e mais dois convidados.

Os seis vencedores do grupo, além de dois segundos colocados com os melhores desempenhos, baseados nos sets vencidos e nos jogos vencidos, irão se classificar para as quartas de final.

As equipes classificadas em 17º e 18º serão imediatamente relegadas aos Zonais, enquanto as 12 equipes colocadas de 16º a 5º participarão do evento classificatório do ano seguinte.

A proposta, capitaneada por David Haggerty, o presidente da ITF, tinha o lastro de uma promessa de US$ 3 bilhões (R$ 11,6 bilhões) em investimento em prazo de 25 anos, da parte do grupo europeu de investimento Kosmos, que tem como um dos acionistas o zagueiro Gerard Piqué, do Barcelona.

Piqué, do Barcelona, comemora mudanças na Copa Davis de tênis com David Haggarty
O zagueiro Piqué, do Barcelona e principal acionista do grupo Kosmos de investimento, comemora com David Haggarty (à direita), presidente da Federação Internacional de Tênis, as mudanças na Copa Davis - Gregg Newton/AFP

De acordo com a ITF, a premiação da competição será aumentada para pelo menos US$ 20 milhões (R$ 77,4 milhões). Além disso seriam investidos mais de US$ 15 milhões (R$ 58,1 milhões) na realização da fase final do torneio.

Haggerty e outros dirigentes do tênis acreditavam que a Copa Davis precisasse de uma reforma, porque os maiores astros do esporte não costumam participar regularmente da competição e o evento não gera interesse internacional ou receita suficientes.

As federações responsáveis pelos torneios do Grand Slam se dividiram sobre a proposta: França e os Estados Unidos votaram a favor da proposta, e Austrália e Reino Unido votaram contra.

Esses quatro países detêm maior poder na ITF, porque cada um recebe 12 votos, no sistema ponderado adotado pela organização.

Muitos países não haviam tomado sua decisão até o dia anterior ou mesmo as horas anteriores à votação da quinta-feira. A Lawn Tennis Association, que comanda o tênis no Reino Unido, anunciou sua oposição à proposta na tarde da quarta-feira (15).

A decisão gerou um racha entre a federação e o All England Club, que organiza o torneio de Wimbledon e havia expressado aprovação à proposta.

A votação, como todos os debates e apresentações que a antecederam, foi realizada sob sigilo durante a assembleia anual da ITF, realizada no hotel Ritz-Carlton de Orlando.

Equipe da França ergue o troféu da Copa Davis de 2017, após derrotar a Bélgica por 3 a 2 na decisão, realizada na cidade de Lille (FRA)
Equipe da França ergue o troféu da Copa Davis de 2017, após derrotar a Bélgica por 3 a 2 na decisão, realizada na cidade de Lille (FRA) - Christophe Ena - 26.nov.2017/Associated Press

Ainda que os votos individuais dos países não devam ser revelados, era possível detectar tendências, em entrevistas com os líderes das diversas federações.

As federações da África e da América pareciam preparadas para votar unanimemente em favor da medida.

A Europa, acompanhada pela Austrália, ancorava a oposição à reforma. O voto contrário do Reino Unido foi acompanhado pela Alemanha, o único país excetuado o grupo do Grand Slam a deter o máximo de 12 votos.

Também houve resistência na Europa Central e Meridional, com a Croácia, Eslováquia, Grécia, Hungria, Polônia, República Tcheca e Sérvia demonstrando oposição à proposta.

Mais que geográficas, porém, as divisões eram econômicas. Federações menores, como a do Brasil, expressaram interesse na infusão de dinheiro prometida pelo acordo com o Kosmos, na esperança de que isso as ajude a desenvolver talentos no esporte.

Larry Ellison, o magnata americano do software que adquiriu o BNP Paribas Open de Indian Wells, Califórnia, e o transformou em um dos melhores torneios do mundo, também favorece a ideia. Ele prometeu investir no novo projeto da Copa Davis, com o objetivo de realizar as finais do torneio em Indian Wells em 2021.

Mas a resistência é forte, e as emoções estão descontroladas, especialmente na Austrália, cujo sucesso serial na Copa Davis no passado serviu como caminho para elevar o perfil internacional do país.

"A maioria de nós concorda em que a Copa Davis precisa de reformas, para garantir que os melhores jogadores queiram participar", disse Wally Masur, antigo jogador e capitão da equipe australiana na Copa Davis.

"Mas a reforma radical proposta dizimará 100 anos de tradições do tênis, que ajudaram muito a desenvolver o jogo masculino ao longo do tempo", afirmou.

A mudança na Davis surge em meio a uma disputa com a ATP Tour, que está negociando com o Kosmos e planeja retomar a Copa do Mundo por Equipes.

O evento da ATP, se implementado em janeiro de 2020, concorreria diretamente e ameaçaria a existência da Copa Davis reformulada, especialmente se a participação na Copa Mundial por Equipes valer pontos no ranking da ATP, sem que a Copa Davis faça o mesmo.

É improvável que as duas competições por equipes possam prosperar, em longo prazo. O que o esporte precisa é de cooperação: um grande torneio com apoio unificado, e não uma Copa Davis e uma Copa do Mundo por Equipes com formatos semelhantes e jogadas a seis semanas de distância uma da outra.

A falta de apoio claro entre os jogadores torna a reforma da Copa Davis ainda mais arriscada, ainda que Haggerty tenha declarado que os patrocinadores existentes estão exigindo mudanças.

"Existem jogadores que apoiam a ideia", ele disse, mencionando Novak Djokovic e Rafael Nadal. "E creio que assim que isso for aprovado, veremos ainda mais apoio".

Entenda o que muda na nova Copa Davis

Datas - O calendário previa quatro semanas para as fases principais do torneio. Agora serão duas. Em fevereiro, será disputada a fase eliminatória, em vários países. A fase final, em novembro, terá sede única

Formato - A semana final terá uma fase de grupos, com as 18 finalistas divididas em seis chaves. Em cada confronto, serão três jogos em melhor de três sets, em vez de cinco jogos em melhor de cinco sets

Convite - Dois países serão convidados para a fase final da competição. Os critérios para a escolha desses participantes não foram divulgados

Dinheiro - O Kosmos investirá US$ 3 bilhões (R$ 11,7 bilhões) no evento por prazo de 25 anos. Segundo a ITF, a verba servirá para aumentar a premiação e expandir o esporte em mais países

The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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