Times brasileiros trocam visibilidade do Fifa por exclusividade com o PES

Dinheiro define escolha de clubes nos games mais populares de futebol

Alberto Nogueira Luciano Trindade
São Paulo

Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi? Pelé ou Maradona? As discussões em torno de quem é ou foi melhor são comuns no meio futebolístico, tanto nas mesas redondas da TV quanto nas dos bares da vida.

Nos gramados virtuais, o papo não é diferente. Entra ano e sai ano, gamers discutem qual é o melhor jogo de futebol entre Fifa e Pro Evolution Soccer. Os clubes brasileiros preferem o segundo.

Gamers disputam partida de Pro Evolution Soccer em um campeonato na Alemanha
Gamers disputam partida de Pro Evolution Soccer em um campeonato na Alemanha - Wolfgang Rattay - 22.ago.2018/Reuters

Recentemente, Corinthians, Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Vasco fecharam acordo de exclusividade para estar na edição 2019 de PES, da japonesa Konami. Ou seja, não estarão em Fifa 19, da americana Eletronic Arts.

Os demais times da Série A do Brasileiro também se juntarão às equipes exclusivas no game, mas nada impede de estarem presentes no outro jogo, caso cheguem a um acordo com a produtora.

O campeonato nacional é mais uma exclusividade do jogo, lançado em 28 de agosto. Porém, tudo isso não significa que o PES está em vantagem em relação ao rival, que sairá ainda em setembro.

No quesito ligas exclusivas, Fifa 19 traz a principal competição mundial de clubes, a Liga dos Campeões, e a Liga Europa, ambas privilégio do concorrente até a edição de 2018, lançada no ano passado.

O jogo da EA tem ainda licenças de importantes ligas nacionais, como os campeonatos Alemão, Francês, Italiano, Espanhol e Inglês.

Já a produtora de PES tem apostado em campeonatos de segundo e até de terceiro escalão mundial para cativar uma parcela de consumidores de mercados, talvez subestimados pela concorrência.

A exclusividade dos campeonatos Brasileiro e Russo, além da Superliga Argentina —inclusa também no Fifa— e do Campeonato Chileno, por exemplo, explicam a estratégia.

"Hoje a gente está na frente em alguns polos e a América do Sul é um deles. Atualmente, a gente vende mais do que eles (Fifa) em alguns países daqui", diz à Folha Andrés Bronzoni, gerente de marca do PES, sem divulgar cópias vendidas e faturamento.

Segundo o site americano VG Chatz, especializado em monitorar vendas de games, os números globais de ambas as franquias em sua versão 2018--lançadas em setembro de 2017-- são díspares.

Do lançamento até abril deste ano, Fifa 18 vendeu cerca de 16 milhões de cópias (físicas e digitais) na soma das plataformas Playstation 3 e 4, Xbox One e 360, Switch e PC.

PES 18 não chegou a um milhão de unidades vendidas no mesmo período(cerca de 900 mil cópias) --o game não fora lançado para Switch.

Mesmo com esse abismo, Corinthians, Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Vasco preferiram fazer acordos de exclusividade com um game que, de acordo com seus números de vendas, poderá não ser bom canal para internacionalizar suas marcas.

Roberto Trinas, diretor de marketing do Palmeiras, disse que o clube foi procurado pela Eletronic Arts para estar no próximo Fifa, mas afirmou que a empresa foi "tímida em suas ações e esforços".

O executivo do clube alviverde reconhece a presença consolidada de Fifa em todos os mercados, mas afirma que o interesse e o plano da Konami para a parceria foram fundamentais para a renovação do acordo por mais dois anos.

No ano passado, o time anunciou a contratação do meia Lucas Lima com um modelo virtual do atleta em PES 2018, em campo no também digitalizado Allianz Parque. O estádio, inclusive, estará na próxima edição do jogo, assim como o antigo Palestra Itália.

Trinas não falou em valores do acordo por questões de confidencialidade.

A Folha apurou que o arquirrival Corinthians recusou R$ 700 mil para estar em Fifa 19 —sem exclusividade— para fechar contrato de R$ 4 milhões com a Konami.

Na equipe de Parque São Jorge, no entanto, há também a exposição da marca PES na barra da camisa, algo que não é possível no Palmeiras em razão do patrocínio com a Crefisa.

"Fizemos negociação com preços de Tóquio para a Konami. Cobramos o metro quadrado mais caro", afirmou Luis Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians, em entrevista coletiva, sem confirmar os valores do negócio.

Os times brasileiros exclusivos de PES 2019 terão seus jogadores representados no game com seus nomes reais.

Contudo, as outras equipes podem ter alguns atletas genéricos, assim como também existem times internacionais fictícios no jogo. Isso aconteceu, por exemplo, com o Real Madrid em edições passadas, chamado de "Md White".

A questão do uso de nome e imagem reais dos jogadores no Brasil costuma ser um problema para as duas produtoras de jogos. "Aqui é o único país onde você é obrigado a fazer licenciamento com cada jogador", explica Bronzoni.

"Na maioria dos países, esse pagamento é feito à Fifpro [sindicato internacional de jogadores]. Ela negocia um acordo com os fabricantes e repassa os valores para as associações nacionais. Estas efetuam o pagamento. Mas isso não se aplica ao Brasil", conta o advogado Joaquín Mina.

Com isso, mais de 150 ações na Justiça foram movidas por jogadores, clientes de Mina. A maioria delas contra a EA --70 sentenças deram ganho de causa. O ex-jogador Paulo Baier e o goleiro Vanderlei, do Santos, estão nesta lista.

Procuradas, tanto Konami quanto EA não se manifestaram sobre o assunto.

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