Descrição de chapéu New York Times

Equipe 100% feminina desafia preconceito e o mar em prova de vela oceânica

Barco com mulheres disputa a Rolex Sydney Hobart entre Sydney (Austrália) e a Tasmânia

O barco Wild Oats XI na corrida Rolex Sydney Hobart, realizada entre Sydney (Austrália) e a Tasmânia
O barco Wild Oats XI na corrida Rolex Sydney Hobart, realizada entre Sydney (Austrália) e a Tasmânia - Carlo Borlenghi/Associated Press
Christopher Clarey

O procedimento é bem simples para o proprietário que deseje inscrever um barco na corrida Rolex Sydney Hobart. Basta preencher os formulários, cumprir os requisitos médicos e de segurança e pagar a taxa de inscrição. 

Quando Stacey Jackson começou a se interessar pela corrida deste ano, ela nem tinha um barco.

Mas tinha um plano, e a convicção de que era hora de uma equipe profissional de mulheres iatistas, com uma mensagem ecológica centrada na saúde do oceano, disputar a prova. Jackson e suas 12 colegas na equipe Ocean Respect Racing agora estão a bordo do Wild Oats X para um dos grandes espetáculos do iatismo: a corrida anual de 628 milhas marítimas (1.164 quilômetros) entre Sydney (Austrália) e a Tasmânia.

“Para enviar uma mensagem, você precisa de uma boa voz, e nada atrai mais atenção para um barco do que um conceito único para a tripulação”, disse Jackson, 35, a capitã da equipe Ocean Respect.

“Sou velha demais para competir com uma tripulação juvenil, e por isso decidi que era hora de voltarmos a ter uma tripulação completamente feminina, mas em nível diferente do que foi feito no passado”.

Encontrar 13 velejadoras profissionais para preencher todas as vagas da tripulação — capitã, proeira, navegadora— em uma corrida Sydney-Hobart no passado teria sido um grande desafio. Mas isso deixou de ser o caso, principalmente por conta da Volvo Ocean Race.

Por quase 10 anos - de 2005 a 2014 - mulheres não participaram da Volvo, a principal competição internacional de vela do planeta. Mas na edição 2014-2015, Jackson foi parte do Team SCA, uma tripulação feminina, e na edição 2017-2018 da Volvo, encerrada em junho, uma nova regra encorajando a admissão de mulheres levou 23 delas a participarem da prova.

Pela primeira vez, todas as tripulações incluíam mulheres, e Carolijn Brouwer, Marie Riou e Justine Mettraux - as três integrantes da equipe D ongfeng Race Team - se tornaram as primeiras mulheres a fazer parte da tripulação vencedora, nos 45 anos de história da prova.

Jackson, que era parte da equipe Vestas 11th Hour Racing, no passado se queixou do sexismo no esporte, e de não ser escolhida para postos por ser mulher. Mas durante as regatas da Volvo, se tornou claro para ela que agora existe um conjunto bastante grande de mulheres iatistas com forte experiência em provas offshore.

“Há muitas mulheres excelentes na categoria. Já velejei com algumas delas, queria velejar com outras, e ainda não tinha conseguido”, disse Jackson. “Mas vendo os barcos da Volvo, e todas as posições ocupadas por mulheres, percebi que se todas elas estivessem no mesmo barco, teríamos toda a capacitação necessária para cobrir todos os aspectos da competição no nível mais elevado. Assim, porque não reuni-las e disputar uma Hobart com elas? Muitas das tripulante seriam minha primeira escolha para a posição, e só por acaso são mulheres”.

A holandesa Brouwer, 45, radicada na Austrália, será a timoneira primária da Ocean Respect. Outras veteranas da Volvo na tripulação incluem Dee Caffari, Sophie Ciszek, Bianca Cook, Katie Pettibone, Keryn McMaster e a navegadora, Libby Greenhalgh.

Também há a australiana Vanessa Dudley, que estará fazendo sua 23ª Sydney-Hobart. Para Jackson, será a 12ª participação, mas a primeira como capitã, o que, ela diz, foi um grande ajuste.

“Eu gosto de fazer as coisas, e de ver tudo acontecer, mas não de ter as pessoas me vendo fazer com que as coisas aconteçam”, disse Jackson. “E as meninas brincam que sempre que falo publicamente, o tempo fica terrivelmente ruim. Chove torrencialmente”.

O barco Wild Oats XI na corrida Rolex Sydney Hobart, realizada entre Sydney (Austrália) e a Tasmânia
O barco Wild Oats XI na corrida Rolex Sydney Hobart, realizada entre Sydney (Austrália) e a Tasmânia - Carlo Borlenghi/Associated Press

Isso aconteceu na cerimônia de lançamento da equipe (apesar do começo ensolarado), e voltou a acontecer quando a equipe apresentou suas metas de sustentabilidade no Cruising Yacht Club of Australia, a organização que comanda a Australia Hobart Race.

Talvez ela devesse evitar discursos no barco durante a prova, infame por seu clima sempre imprevisível.
“Com certeza”, disse Jackson, rindo. “As meninas dizem que é minha culpa”.

Com sol ou chuva, dois benfeitores tornaram possível o projeto de Jackson. Os primeiros foram a família Oatley, sua antiga empregadora e uma das dinastias do iatismo na Austrália. O Wild Oats XI, seu iate supermaxi, cruzou a linha de chegada em primeiro lugar por oito vezes na Sydney-Hobard, um recorde, e foi por duas vezes o campeão geral da prova, considerados os handicaps.

Mas a família também é dona de outros iates de primeira linha, entre os quais o minimaxi Wild Oats X, de 66 pés. Era esse o barco que Jackson cobiçava, e quando ela enviou um email a Sandy Oatley apresentando seu projeto, em maio, ele e a família logo concordaram em emprestar o iate a Jackson a custo zero, para a Sydney-Hobart. Também lhe ofereceram um atracadouro em Sydney e o uso de sua oficina e de parte de sua equipe de terra.

Isso tornou o projeto economicamente visível. Isso, se Jackson conseguisse um grande patrocinador para cobrir o resto do orçamento, incluindo seguros, acomodações e os salários da tripulação (o pagamento diário de velejadores profissionais pode variar de US$ 500 a US$ 2,5 mil).

Foi aí que entrou a 11th Hour Racing, uma organização internacional sediada em Newport, Rhode Island, que promove a sustentabilidade e a saúde do oceano por meio de parcerias com equipes de iatismo e com empresas marítimas. A organização foi um dos principais patrocinadores da equipe de Jackson, a Vestas 11th Hour Racing, na última Volvo. A equipe também tinha por foco a sustentabilidade e a educação ambiental.

“Para ser completamente honesta, a última corrida me abriu os olhos, em termos do que aprendi sobre a situação do planeta e a poluição do oceano por plástico e sua situação de saúde”, disse Jackson. “O que realizamos na competição foi maravilhoso, mas eu sabia que chegaria ao fim, e queria encontrar uma maneira de continuar aquele trabalho”.

“Na Austrália, minha sensação é de que estamos um pouco atrasados. Muita gente ainda compra café para viagem em embalagem plástica, ou compra uma garrafa de água no supermercado, em lugar de carregar uma garrafa pessoal. Acho que podemos ajudar a difundir essa mensagem. Temos de começar pequeno e trabalhar para crescer”, disse Jackson.

Na corrida, Jackson comandará a tripulação e a equipe de terra durante a largada, assim como durante todas as manobras que requerem toda a tripulação em alto mar. Logo que o barco estiver em alto mar, Jackson tomará todas as decisões finais sobre rotas, com Greenhalgh, fará turnos de quatro horas ao leme e no controle das velas, e assumirá o controle quando surgirem questões importantes.

Como costuma acontecer em provas offshore, dormir será difícil. “Na última, eu dormi por quatro ou cinco horas em um período de 48 horas”, ela diz.

Mas diferentemente da Volvo, onde algumas das pernas oceânicas mais longas podem demorar quase um mês, a corrida Sydney-Hobart é uma prova de velocidade que pode requerer não mais de duas noites no mar.

“A maioria de nós está acostumada a etapas de 20 a 30 dias, e por isso dois dias é bem fácil”, disse Jackson.

Dar a largada para a prova em companhia de 12 mulheres desse calibre foi um caminho árduo, porém. Quanto tempo vai demorar para que uma equipe de elite com tripulação 100% feminina deixe de ser um fato notável?

“Vai demorar, em minha opinião”, disse Jackson. “Gosto de pensar que, para as filhas de algumas de nossas tripulantes, que estão com seis ou sete anos e começando agora na Optis, as coisas talvez sejam diferentes quando elas começarem a velejar em barcos grandes. Talvez a essa altura as coisas tenham mudado”.
 

The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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