Descrição de chapéu Tóquio 2020

Com mulheres no topo, judô francês vai muito além de multicampeão

França estima ter 5.700 clubes espalhados pelo país e 600 mil praticantes

Daniel E. de Castro
Pindamonhangaba

Até para quem não acompanha o judô muito de perto, o nome de Teddy Riner não deve ser estranho. Duas vezes medalhista de ouro em Jogos Olímpicos, o peso pesado francês de 30 anos ganhou dez vezes o Campeonato Mundial e não perde uma luta desde 2010.

A francesa Clarisse Agbegnenou, 26, é menos conhecida, mas já faturou três ouros em Mundiais. Ela lidera o ranking internacional de sua categoria (63 kg), assim como as compatriotas Amandine Buchard, 23, no 52 kg, e Marie-Ève Gahié, 22, no 70 kg.

A presença de três francesas no topo não surpreende. Com exceção do Japão, que já ganhou 84 medalhas olímpicas no judô, nenhum país é tão vitorioso no esporte quanto a França, que soma 49 pódios.

Clarisse Agbegnenou (de branco) em luta contra a austríaca Hilde Drexler no Mundial de 2015
Clarisse Agbegnenou (de branco) em luta contra a austríaca Hilde Drexler no Mundial de 2015 - Jack Guez - 27.ago.15/AFP

Nesta sexta-feira (10) tem início o Grand Slam de Baku, no Azerbaijão, uma das competições que mais valem pontos no ciclo de Tóquio-2020. A janela de classificação para a Olimpíada vai até maio do ano que vem.

A expectativa do judô francês de um bom desempenho no Japão passa principalmente pelas mulheres. Hoje, nenhum homem está entre os dez melhores de suas categorias. Nem mesmo Riner, que só participa das competições mais importantes e preferiu se poupar no Mundial de 2018.

“Para nós do time francês, as meninas são as melhores. No time feminino, todas as categorias têm resultados, então acho que devem falar muito sobre nós, porque somos as mais fortes”, afirmou Agbegnenou à Folha em abril, quando a delegação francesa participou de treinamentos em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.

Os motivos para o país revelar tantos judocas vencedores são fáceis de entender. No ano passado, reportagem da TV americana CNN que classificou a França como “coração do judô” mostrou que cerca de 600 mil franceses, ou quase 1% da população, praticam regularmente o esporte.

“Quando disputamos o Grand Slam de Paris é uma competição muito diferente de todas as outras, pelo envolvimento da torcida e da comunidade em geral. É uma competição com muito mais calor do que no Japão”, afirma Mario Tsutsui, técnico da seleção brasileira feminina.

Na França, o judô não é considerado apenas uma modalidade esportiva, mas uma política educacional. Segundo o presidente da federação francesa, Jean-Luc Rouge, existem 5.700 clubes no país e 10% das crianças de oito anos são federadas, mais do que em qualquer outro esporte.

Amandine Buchard em luta contra a ucraniana Lyudmyla Piieva no Mundial de 2017
Amandine Buchard em luta contra a ucraniana Lyudmyla Piieva no Mundial de 2017 - Attila Kisbenedek - 29.ago.17/AFP

“É uma boa prática de educação para crianças e uma política para todos. Em todos os lugares existe um clube de judô, nas cidades pequenas e nas cidades grandes. Praticar judô é algo simples para uma criança na França”, diz o técnico da equipe olímpica feminina, Larbi Ben Boudaoud.

Buchard destaca, além da quantidade de judocas, a variedade de nacionalidades e culturas no país. “Quando você começa a treinar mais intensamente tem muita concorrência, porque muitas pessoas praticam judô. Isso nos faz mais fortes”, afirma.

Principal responsável por ajudar as atletas brasileiras a parar as rivais, o técnico Tsutsui considera a garra das francesas o maior diferencial delas no tatame. Mas isso, ele explica, não bastaria sem a oferta de talentos e o trabalho de detecção feito pelos europeus.

“No Brasil, precisamos trabalhar melhor as federações [estaduais], que são o campo. O que se produz ali vem para cá [seleção brasileira]. É isso que eles conseguem fazer muito bem. Lá tem muitos centros de treinamento, então eles conseguem canalizar os atletas em potencial”, diz.

Brasil abre disputa do Grand Slam de Baku com três medalhas

O Brasil fechou o  primeiro dia de disputas no Grand Slam de judô de Baku, no Azerbaijão, com três medalhas. O destaque foi para Rafaela Silva e Felipe Kitadai, que conquistaram o ouro em suas categorias de peso.

A carioca, campeã olímpica da categoria leve (até 57 kg) na Rio-2016, bateu na decisão da medalha de ouro a japonesa  Tsukasa Yoshida, atual campeã mundial. Foi a primeira vitória da brasileira sobre a adversária em quatro confrontos entre as duas.

Já Felipe Kitadai, bronze nos Jogos de Londres-2012, conquistou o ouro na categoria ligeiro (até 60 kg) vencendo por ippon o georgiano Temur Nozadze na final. Antes de chegar à decisão, ele passou pelo vice-campeão mundial em 2017 Orkhan Safarov, que lutava em casa. 

Na categoria meio-leve (até 52 kg), Larissa Pimenta, 20, conquistou seu primeiro bronze em Grand Slams ao bater a também brasileira Eleudis Valentim na repescagem.

Neste sábado (11), será a vez dos brasileiros Ketleyn Quadros (até 63kg), Ellen Santana (até 70kg), David Lima (até 73kg) e Eduardo Yudy Santos (até 81kg) irem para o tatame no Azerbaijão

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