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Único e rico, Athletic Bilbao vive risco de queda no Espanhol

Clube só permite jogadores bascos na equipe e nunca foi rebaixado

O atacante Iñaki Williams, do Athletic Bilbao, durante jogo do Espanhol contra o Atlético de Madri
O atacante Iñaki Williams, do Athletic Bilbao, durante jogo do Espanhol contra o Atlético de Madri - Juan Medina/Reuters
Bilbao

A janela de transferências de meio de temporada europeia está aberta, este mês. Para os times que estão lutando contra o rebaixamento e a potencial ruína financeira, ela representa uma última, e vital, oportunidade de fortalecer uma defesa esburacada ou reforçar um ataque que não marca gols, antes da segunda metade da temporada.

Entre esses clubes está o Athletic Bilbao, que ocupa o 17º posto na classificação da La Liga, a liga espanhola de 20 clubes, e já está em seu segundo treinador na temporada.

Financeiramente, o Athletic Bilbao, uma potência centenária na costa norte da Espanha, tem pouco em comum com os clubes que se veem em posição igualmente complicada.

O clube tem um ótimo caixa, com cerca de 200 milhões de euros (cerca de R$ 967 milhões) em reservas, e tem acesso a 90 milhões de euros (R$ 382 milhões) adicionais que, se usados para atrair talentos no mercado mundial do futebol, provavelmente fariam muito por levá-lo a subir na classificação da liga e escapar ao perigo.

Mas ao contrário de quase todos os demais clubes que estão no mercado, o Athletic Bilbao não pode gastar esse dinheiro contratando quem quiser.

O clube é passadista. A tradição dita que ele só pode escalar atletas nascidos no País Basco - um território que abarca sete províncias e se estende do norte da Espanha à França -, ou que tenham se mudado para a região na juventude e aprendido a jogar futebol lá.

Essa pureza sempre foi motivo de orgulho para o clube criado 121 anos atrás. O Athletic Bilbao sempre celebrou o fato de que jamais foi rebaixado da primeira divisão espanhola - um feito de que compartilha só com o Real Madrid e o Barcelona. Mas está apenas uma posição acima da zona de rebaixamento, agora, e sua pureza cria dificuldades evidentes para o recrutamento.

Recentemente, essa norma tem colocado o clube em uma armadilha financeira, fazendo dele uma espécie de unicórnio em um esporte no qual quase todos os clubes estão desesperados por dinheiro. O Athletic Bilbao, com os cofres repletos e poucas opções de contratação, se tornou o pobre time rico do futebol.

"Não precisamos do dinheiro, na verdade", disse Josu Urrutia, 50, um corpulento meio-campista aposentado do Athletic Bilbao em entrevista no mês passado, pouco antes de concluir seu mandato de sete anos como presidente do clube.

O substituto de Urrutia, Aitor Elizegi, ainda que critique algumas das decisões de seu predecessor, confirmou rapidamente que o compromisso do time para com um elenco exclusivamente basco não seria abandonado.

O Athletic Bilbao pode atribuir seus problemas atuais ao sucesso que teve no passado recente. Nos últimos oito anos, a equipe disputou seis vezes a Europa League, a segunda maior competição do futebol europeu (chegando a uma final), e uma edição da Champions League. Em 2012 e 2015, chegou à final da Copa da Espanha.

O sucesso desses times formados basicamente por talento local rapidamente despertou o interesse de clubes maiores, na Espanha e no exterior, e criou a necessidade de tomar decisões sérias sobre os jovens talentos que o clube cria constantemente. Nos casos em que o comando do clube tinha parecer, qualquer contato para uma transferência multimilionária recebia um não como resposta.

O Athletic Bilbao, ao menos sob o comando de Urrutia, se recusava a negociar, não importa o preço oferecido. Os jogadores só podiam sair com o pagamento pleno da multa rescisória, e a esperança da direção do Athletic Bilbao era de que isso nunca acontecesse.

Urrutia, sentado em um austero escritório repleto de mobília laqueada, no pavimento térreo de uma mansão construída em 1900 e legada ao clube por uma das famílias históricas da cidade, descreveu como o clube perdeu o zagueiro Javi Martínez para o gigante alemão Bayern de Munique, no primeiro ano de sua presidência, em 2011.

Isso aconteceu depois de ele ignorar contatos de Jupp Heynckes, treinador do Bayern e também treinador de Urrutia, um médio-volante duro e chegado a um carrinho, em suas duas passagens pelo Athletic Bilbao, e dos dois principais dirigentes do clube alemão, Karl Heinz Rummenigge e Uli Hoeness.

"Jupp disse que eles viam Javi como um jogador de futuro, mas que 40 milhões (R$ 102 milhões à época) era demais; estavam preparados para pagar 22 milhões ou 23 milhões (aproximadamente R$ milhões)", disse Urrutia. "E respondemos que estava ótimo, porque assim não precisávamos nos preocupar com isso".

Por fim, o Bayern terminou pagando os 40 milhões de euros por Martinez, a maior quantia paga até então por uma transferência no futebol alemão.

Depois disso, o clube perdeu outros jogadores da mesma maneira. O médio-volante Ander Herrera foi contratado pelo Manchester United em 2014. O zagueiro Aymeric Laporte se tornou a contratação mais cara do Manchester City, ao chegar ao clube por 65 milhões de euros (cerca de R$ 254 milhões em janeiro de 2018). Mais recentemente, o Chelsea fez de Kepa Arrizabalaga o goleiro mais caro do mundo ao pagar os 80 milhões de euros (cerca de R$ 345 milhões) de sua multa rescisória para contratá-lo.

Todas essas transações, apesar dos altos valores, frustraram Urrutia. Ele gostaria de que todos os jogadores do Athletic Bilbao compartilhassem de seus valores. Urrutia foi formado nas categorias de base do clube e jamais vestiu outra camisa, em duas décadas de carreira. Ele disse que o clube tenta estimular a lealdade dos atletas desde o momento em que começa sua formação.

Os dirigentes do Athletic Bilbao não hesitam em manipular o sentimento de culpa dos jogadores, e lembram a eles de que a política de só contratar bascos foi o motivo para que pudessem ter uma carreira profissional - o clube poderia ter escolhido outros jogadores, jogadores melhores, se decidisse contratar no mercado internacional.

"É como se você deixasse a empresa da família, criada por seu avô", disse Urrutia.

Urrutia e outros explicam que, se jogadores que vieram antes da safra atual tivessem decidido sair, o clube poderia ter sido forçado a mudar sua missão. E caso isso tivesse acontecido, os jogadores bascos não teriam tido sua oportunidade. Eles dizem que os jogadores deveriam viver esses valores.

O dinheiro tem um papel, igualmente. O Athletic Bilbao agora paga salários que estão entre os mais altos da Espanha, bem acima dos clubes de padrão semelhante, disse Urrutia. Ele disse que o salário anual médio de um jogador titular é de quatro milhões de euros.

Quando precisa substituir um jogador que deixe o clube, a preferência é sempre por atletas formadas em sua escola, Lezama, uma instalação de primeira linha a 10 quilômetros de Bilbao, a maior cidade da região basca. Em cada uma das cinco últimas temporadas, pelo menos dois jogadores de Lezama foram promovido ao time principal.

"Nós lhes damos oportunidades no time principal mesmo quando ainda são muito jovens, porque precisamos deles", disse Urrutia.

O centroavante Aritz Aduriz nasceu em San Sebástian, no País Basco, e é um dos ídolos recentes do clube de Bilbao
O centroavante Aritz Aduriz nasceu em San Sebastián, no País Basco, e é um dos ídolos recentes do clube de Bilbao - Josep Lago - 4.mar.2015/AFP

Alguns jogadores muito comprometidos com a filosofia do clube, como o meio-campista Iker Muniain, 26, tiveram ofertas de outras equipes mas as rejeitaram. Pouco antes do Natal, Muniain, um meia ofensivo que joga pelo clube há mais de uma década, assinou um novo contrato e solicitou que este não incluísse uma cláusula de multa rescisória.

"Fico feliz por fazê-lo", ele disse. "Tivemos casos em que colegas saíram e as pessoas ficaram tristes e comovidas. Essa é uma maneira de eu demonstrar minha lealdade ao clube".

Ocasionalmente, o Athletic Bilbao precisa recorrer ao mercado de transferências. Suas escolhas se limitam a jogadores nascidos na região basca ou que tenham sido formados lá. Isso permite que os vendedores tirem vantagem das limitações do clube.

Nesta temporada, o clube concordou em pagar um máximo de 24 milhões de euros (R$ 101 milhões) ao Paris Saint-Germain pelo zagueiro Yuri Berchiche, transferido do Real Sociedad ao time francês por apenas oito milhões de euros, um ano antes.

"Eles sabem, e tentam nos explorar, porque estão cientes de que não temos assim tantas escolhas", disse Urrutia. "O mercado de transferências não nos oferece grande escolha".

O Athletic Bilbao consegue bancar essas contratações porque apenas quatro clubes na Espanha receberam cotas de televisão mais altas, na última temporada; por enquanto, a distribuição do dinheiro da TV é determinada pela frequência com que os jogos de um clube são exibidos. Mas um novo modelo de distribuição, que pretende diminuir as desigualdades entre os clubes, vai reduzir a distância.

No passado, um time grande podia receber até 12 vezes mais dinheiro que os demais. Agora o diferencial cairá para 350%.

Ainda que a mudança seja vista como em geral positiva, atinge o Athletic Bilbao desproporcionalmente, porque agora times muito menores podem buscar talentos internacionais aos quais não teriam acesso antes, e assim reforçam suas equipes, enquanto o Bilbao continua firme com sua regra de só escalar jogadores locais, e com outras excentricidades que o tornam único.

A sede do clube tem pouca semelhança com as de outros times. Não há brasões chamativos, telões de vídeo mostrando lances famosos, lojas oferecendo produtos com a marca do clube. Como o Athletic Bilbao, a sede é passadista.

Há marcos pequenos e discretos, como o quadro modernista que enfeita uma sala de recepção no térreo da sede. O quadro mostra uma grande inundação que varreu a cidade. A única estrutura visível é um arco que se assemelha ao do antigo estádio do Athletic Bilbao, transferido cuidadosamente para seu centro de treinamento. É um símbolo, dizem dirigentes do clube, de que o passado do clube sempre será parte de seu presente e futuro, quer esteja em risco de rebaixamento, quer esteja disputando títulos.

"Conhecemos o desafio: é um desafio solitário", disse Urrutia. "É uma viagem repleta de dificuldades. Pode haver um tsunami, mas no fim acreditamos de verdade na força de nosso barco, e queremos prosseguir".

The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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