Esporte venezuelano expõe país em crise e com divisões

Autoridades do futebol local temem nova onda de protestos em campo

São Paulo

Em meio ao alvoroço político pelo qual passa a Venezuela, a liga nacional de futebol do país deu seu pontapé inicial no último fim de semana. E já com problemas.

A partida entre Carabobo e Atlético Venezuela, que deveria ter sido realizada no domingo (27), foi suspensa porque os atleticanos não conseguiram chegar a Guanare, cidade onde o Carabobo mandaria o jogo. O Atlético alegou problemas logísticos. 

Mas essa é a explicação oficial em um futebol que, quase em sua totalidade, é controlado por braços do poder ligados a Nicolás Maduro.

O vice-presidente da federação, Pedro Infante, é também o ministro dos Esportes do país, por exemplo.
O Zamora Fútbol Club, quatro vezes campeão, a última no passado, é presidido pelo irmão caçula do ex-presidente Hugo Chávez (1954-2013), Adelis. A equipe representa a cidade de Barinas, berço do clã Chávez. Quando Hugo assumiu o poder em 1999, seu pai, que também se chama Hugo, era o governador do estado.

Vários clubes da primeira divisão venezuelana são presididos por empresários ligados à iniciativa privada, que se aproveitam da relação estreita com o governo para conseguir alguns benefícios, entre eles a compra de dólares. 

Donos de empresas que patrocinam os clubes, esses dirigentes conseguiam boas cotações na moeda americana,  para depois lucrar no mercado paralelo. Isso até outubro do ano passado, quando a equipe econômica de Maduro anunciou a proibição do dólar em operações cambiais como resposta a sanções impostas pelo governo americano.

O único clube que não tem ligação com o governo e se mantém com dinheiro próprio é o Caracas FC, time mais vitorioso do país, com 11 títulos nacionais e 14 participações na Libertadores.

Em maio de 2017, durante onda de protestos na capital venezuelana, o Caracas recebeu o Cerro Porteño (PAR) pela Copa Sul-Americana.

Assim que o árbitro apitou o início da partida, os atletas da casa ficaram parados, num simbólico minuto de silêncio pelas vítimas da repressão do Estado, e foram respeitados pelos colegas paraguaios, que tocaram a bola como se fosse um treino até que se completasse a manifestação.

Autoridades do futebol local não falam abertamente, mas, com a auto declaração de Juan Guaidó como presidente interino do país, eles temem uma nova profusão de manifestações esportivas, como as que ocorreram na sétima rodada do campeonato de 2014, ano que também ficou marcado por grandes protestos de oposição a Nicolás Maduro.

Na ocasião, atletas não entraram em campo, forçando os clubes a escalar equipes repletas de juvenis.

O jogo entre Carabobo e Estudiantes de Mérida, que deveria ter sido disputado na última semana de fevereiro daquele ano, precisou ser suspenso em razão de manifestações nas imediações do estádio Misael Delgado, em Valencia, pela morte de uma mulher.

Na semana anterior, o Deportivo Táchira perdera por WO para o Atlético El Vígia após não conseguir deixar seu estádio, em Táchira, onde aconteciam fortes protestos.

Já em 2019, durante o Sul-Americano sub-20, que está sendo disputado no Chile, jogadores da seleção da Venezuela foram flagrados pela mídia chilena cantando, antes de entrar em campo para enfrentar a Bolívia, uma música contra Maduro, cuja letra dizia basicamente “e vai cair, e vai cair”. 

Venezuelanos comemoram gol na vitória sobre o Brasil por 2 a 0 pelo Sul-Americano sub-20 na sexta (1º)
Venezuelanos comemoram gol na vitória sobre o Brasil por 2 a 0 pelo Sul-Americano sub-20 na sexta (1º) - Claudio Reyes/AFP

“Na Copa América de 2007, foram construídos estádios e ganhamos em infraestrutura. Dos anos 2000 para cá, gerou-se uma mudança de pensamento do jogador venezuelano, que acreditou em suas condições. Os técnicos também aumentaram sua capacitação. Mas isso graças a eles mesmos. A Federação Venezuelana de Futebol nunca permitiu isso”, diz à Folha o técnico Richard Páez, 66, que atualmente está sem clube.

Páez, que é pai de um ex-atleta da seleção local, Ricardo, foi uma das poucas pessoas procuradas pela reportagem que não pediram para ter a identidade preservada.

Dos dois jornalistas que contribuíram com a reportagem, uma já vive há algum tempo na Cidade do México e o outro está de saída para a Argentina.

“O país atravessa uma crise política, econômica e lhe digo que até moral. E não é só no futebol. No beisebol também não há a motivação ou um ambiente para o desenvolvimento normal das atividades”, afirma Páez.

O beisebol, principal esporte nacional, também viu as tensões políticas chegarem aos gramados. Antes do segundo jogo da final do campeonato local, atletas do Leones del Caracas avisaram que não queriam entrar em campo, em solidariedade aos protestos que tomaram conta do país na semana passada.

Duas horas depois, porém, a equipe foi a campo e enfrentou o Cardenales de Lara, que exigia a participação dos rivais e mais tarde foi campeão.

A atitude dos Cardenales recebeu críticas. Isso porque, em dezembro de 2018, o time perdeu dois atletas, Luis Valbuena e José Castillo, vítimas do crime na Venezuela. Eles estavam em um veículo que capotou na estrada Lara-Yaracuy depois de uma partida.

Segundo investigações da polícia de Yacauy, um objeto foi colocado deliberadamente na pista para que o carro colidisse com ele e capotasse. Depois do episódio, os criminosos ainda roubaram os pertences de Valbuena e Castillo.

Em comunicado veiculado na cadeia nacional de rádio e TV da Venezuela, Maduro admitiu ter realizado intervenção junto ao ministro do Esporte, Pedro Infante, para que os jogadores do Leones del Caracas disputassem a partida.

O que o mandatário não conseguiu impedir foi a CBPC (Confederação de Beisebol Profissional do Caribe) retirar a Série do Caribe, tradicional torneio que reúne campeões nacionais da América Latina, de sua sede original, que seria a cidade de Barquisimeto, na Venezuela.

Por conta das tensões político-sociais vividas no país, a confederação transferiu a competição para o Panamá.

Para enfurecer ainda mais as autoridades venezuelanas, a Major League Baseball, liga dos EUA, recomendou que atletas e profissionais não viajassem para a Venezuela.

“[A decisão da CBPC] Obedece às pressões geradas pela Major League Baseball como uma ação que se soma ao golpe de Estado contra nossa pátria, dirigido no governo dos Estados Unidos para derrubar um governo legítimo e constitucional”, afirmou o ministro Infante.

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