Descrição de chapéu Velocidade

Em Ímola, fãs mostram adoração por Senna nos 25 anos de sua morte

Cerca de 5 mil pessoas foram ao autódromo para um dia inteiro dedicado ao piloto

Lucas Ferraz
Ímola

O momento mais aguardado no autódromo de Ímola neste feriado de 1º de Maio era o relógio girar às 14h17, quando uma forte e longa salva de palmas tomou a Tamburello.

Naquela exata hora (na Itália), 25 anos atrás, o carro Williams de Ayrton Senna, em alta velocidade, passou direto na curva e se chocou contra o muro de concreto sem proteção, matando na hora o piloto de 34 anos.

Desde aquela fatídica tarde de domingo, a pista italiana se transformou num ponto de peregrinação que celebra a memória do brasileiro.

Nesta quarta, cerca de 5 mil pessoas foram ao autódromo para um dia inteiro dedicado a Senna, que era exaltado em tatuagens (muitas), bonés (a imensa maioria do falido Banco Nacional) e nas incontáveis bandeiras do Brasil hasteadas por alemães, ingleses, chineses, italianos e, claro, brasileiros.

As festividades começaram ainda pela manhã, com um concerto dedicado a ele e uma volta na pista de réplicas dos carros usados pelo piloto e que fizeram história na F-1 —como a Lotus preta e a McLaren branca e vermelha, equipe na qual ele conquistou seus três títulos mundiais.

À tarde a pista foi aberta ao público. Após as palmas, uma missa foi celebrada na Tamburello, que ainda está lá, embora com um traçado completamente diferente (e muito mais lento).

O padre que proferiu o sermão fez questão de ressaltar a personalidade, o olhar tenro e melancólico e o modo de Senna encarar a vida, aspectos que parecem encantar muito os italianos e que foram ressaltados nestes dias até em reportagens da TV.

“É a celebração do mito e do gênio, da mesma forma que celebramos um Da Vinci”, disse a italiana Nicoleta Mangiarotti, 52 anos, que viajou 250 km desde Pavia (outra cidade do norte da Itália) para acompanhar as homenagens.

Com quatro tatuagens com referências ao brasileiro, incluindo sua assinatura e uma adaptação da frase que está em sua lápide no cemitério do Morumbi (“nada pode me separar do amor de Deus”, que ela trocou pelo nome do piloto), Mangiarotti, que visitou o túmulo em São Paulo no ano passado, foi ao autódromo com o marido e as duas filhas, todos com camisas louvando o mito de Senna.

Bastante emocionado na Tamburello, Carlo Vismara, 68, foi a caráter, com o macacão usado pelo piloto na Williams e a primeira versão de seu icônico capacete verde-amarelo, ainda dos tempos da equipe Toleman (quando ele estreou na F-1, em 1984).

Carlo Vismara, 68, que também estava em Ímola no dia da morte de Senna
Carlo Vismara, 68, que também estava em Ímola no dia da morte de Senna - Lucas Ferraz/Folhapress

Nascido em Monza, atualmente a única cidade da Itália a receber a F-1, Vismara também estava em Ímola um quarto de século atrás. “Soubemos logo depois da batida que ele tinha morrido na pista, embora sua morte só tenha sido confirmada após a prova”, conta.

Do lado oposto da curva Tamburello, onde há um parque público criado ainda no século 19, há uma estátua de Ayrton Senna, inaugurada em 1997, que é outro ponto da constante peregrinação —mais visitado que a pista, que nem sempre está aberta ao público. A imagem é de um Senna triste, sentado com o olhar fixo no chão. A autoria é do escultor Stefano Pierotti, 55, também presente nesta quarta.

“Só fui conhecer Senna após sua morte, quando comecei a planejar a escultura. Apresentei a ideia à prefeitura de Ímola e à família, que aprovou. Aquele olhar melancólico é marcante”, disse Pierotti, que projetou outra escultura popular na Itália (mas que atrai muito menos fãs, conta): a do cantor Luciano Pavarotti, na cidade de Modena.

Sem receber GPs da F-1 desde 2006, o autódromo Dino e Enzo Ferrari possui um museu que, desde abril, tem uma exposição multimídia (que ficará aberta até novembro) dedicada ao piloto, com a exposição de alguns de seus carros (como o primeiro kart), objetos pessoais e que percorre momentos importantes de sua vida e carreira, como a destreza para pilotar na chuva, a histórica vitória no GP de Interlagos em 1991 e a rivalidade com o francês Alain Prost.

A morte do brasileiro marcou profundamente Ímola, uma cidade de 70 mil habitantes que foi criada durante o Império Romano. Conforme ressaltaram as autoridades locais presentes na festa, a ideia é reforçar ainda mais a presença do brasileiro —um painel do artista brasileiro Kobra será pintado no autódromo ainda este ano.

Mas também há marcas imateriais, conforme ressaltam os moradores de Ímola, citando a humildade e simplicidade de Senna. Uma das histórias relembradas envolve um jovem paraplégico da cidade —de nome Massimo, já falecido— que era sempre visitado por Ayrton Senna no hospital quando o brasileiro passava pela cidade.

A adoração dos italianos pelo piloto chamou a atenção dos brasileiros presentes no autódromo, conforme comentavam cinco amigos de Santa Catarina que moram na região de Verona.

A fama precede sua morte. E Senna fez por merecer: dos 20 GPs que disputou na Itália, ele foi pole em 13 (oito deles em Ímola, inclusive em 1994). Era uma pista que ele conhecia bem. “Vendo daqui ele fica ainda maior”, disse Robson Matiola, um dos amigos catarinenses.

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