Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Capa de jornal francês sobre Copa feminina gera acusação de misoginia

Publicação satírica Charlie Hebdo tem desenho de vulva com uma bola de futebol

Lucas Neves
Montpellier (França)

A capa do jornal satírico francês Charlie Hebdo desta semana causou celeuma na mídia e nas redes sociais do país-sede da Copa do Mundo feminina de futebol.

O desenho na primeira página do número que circula desde quarta (12) mostra uma vulva em primeiro plano. Na região do clitóris, há uma bola de futebol.

A legenda diz “Copa do Mundo feminina: vamos ter que engolir durante um mês”. O verbo usado, “bouffer”, tem duplo sentido: é usado na França também como equivalente chulo de “transar”.

Muitos internautas e comentaristas de programas de TV viram no cartum, além de mau gosto, misoginia.

Torcida francesa em partida da Copa do Mundo contra a Noruega
Torcida francesa em partida da Copa do Mundo contra a Noruega - Eric Gaillard/Reuters

“As mulheres, essas vaginas sobre patas”, escreveu a historiadora e jornalista Mona Chollet em publicação em uma rede social na qual reproduziu a imagem.

A ativista feminista Fatima Benomar disse que o desenho “reduz as mulheres ao seu entrepernas” e dá à equipe do Charlie uma aura subversiva quando, na verdade, “eles nos impõem mais uma vez a sexualização gratuita das esportistas, que já ouvem todo dia comentários libidinosos”.

Outras pessoas avaliam que o cartum se insere em uma tradição longeva do semanal de crítica ao futebol, visto na redação como instrumento de alienação das massas.

A capa do jornal satírico francês Charlie Hebdo desta semana
A capa do jornal satírico francês Charlie Hebdo desta semana - Reprodução

Nessa linha, em 1998, ano em que a França acolheu (e ganhou) a Copa do Mundo masculina, o jornal publicou uma edição especial com a seguinte manchete: “O horror futebolístico”.

Ao longo das páginas, atacava-se a instrumentalização política do esporte, o hooliganismo, a corrupção e o doping, entre outras mazelas.

Outras capas do Charlie tiveram como alvo jogadores acusados de fazer sexo com menores de idade; o técnico da seleção francesa na Copa de 2010, quando o país foi eliminado já na primeira fase (“Obrigado!”, estampava o título sobre a caricatura de Raymond Domenech); e o atacante campeão em 2018 Antoine Griezmann, retratado com as formas de um vibrador diante de um casal de torcedores embevecidos.

No editorial do número atual, o desenhista Riss escreve: “Sempre criticamos duramente este esporte tentacular, presente todos os dias na mídia para nos distrair de coisas mais essenciais. Não há razão para que, com o futebol feminino, que nos é vendido agora como um novo sabão em pó, a posição do Charlie Hebdo seja diferente”.

Na sequência, critica a hipermercantilização da modalidade e lembra a falta de sensibilidade da Fifa e dos comitês organizadores de Copas masculinas a contextos regionais (a ditadura argentina em 1978 e as condições de trabalho dos operários nos canteiros dos estádios do Qatar, sede em 2022).

E dispara: “O futebol feminino também precisará contribuir para o emburrecimento das multidões para ser levado a sério e considerado equivalente ao masculino? [...] É triste ver que a ambição do futebol feminino é ficar tão estúpido, vulgar e cínico quanto o masculino.”

Célebre pelo teor ácido de seus desenhos e textos e pela defesa intransigente da laicidade, o Charlie foi alvo, em janeiro de 2015, de um atentado terrorista.

Os irmãos Chérif e Saïd Kouachi invadiram a sede do jornal durante uma reunião da equipe e mataram a tiros 11 pessoas. Uma 12ª morreria nos arredores do prédio, durante a fuga dos criminosos.

O ataque foi reivindicado dias depois por um braço da Al Qaeda no Iêmen.

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