Itália é bicho-papão inesperado de grupo do Brasil na Copa feminina

Seleção europeia surpreende em seu retorno ao Mundial após 20 anos

Lucas Neves
Valenciennes (França)

De volta a uma Copa do Mundo após 20 anos, a Itália que a seleção brasileira encara nesta terça (18) por uma vaga nas oitavas de final não se contentou com o papel coadjuvante que a ausência de duas décadas em tese lhe reservaria.

Chega à última rodada no primeiro lugar de seu grupo, com duas vitórias (incluindo uma de virada sobre a favorita Austrália), o segundo melhor ataque do campeonato (7 gols, o mesmo que Suécia e França, e atrás só da máquina americana, que tem 16) e a vaga no mata-mata já garantida.

O feito chama ainda mais a atenção quando se considera que o time europeu disputa apenas seu terceiro Mundial –o Brasil participou de todas as oito edições e foi determinante para a eliminação da Itália na última aparição do país, em 1999 (vitória de 2 a 0 na fase de grupos).

Italianas Aurora Galli e Daniela Sabatin comemoram vitória sobre a Jamaica na Copa do Mundo
Italianas Aurora Galli e Daniela Sabatin comemoram vitória sobre a Jamaica na Copa do Mundo - Christian Hartmann/Reuters

O futebol feminino ganhou os gramados italianos pela primeira vez nos anos 1930, com a criação de um time de mulheres em Milão. Uma federação específica seria criada quase 40 anos depois.

Nas décadas de 1970 e 1980, a seleção nacional ganhou quatro vezes (em seis edições) o chamado Mundialito, embrião da Copa, disputada a partir de 1991.

Entre a queda no Mundial de 1999 e a classificação para o campeonato de agora, a modalidade amargou um sono profundo em uma das nações protagonistas do mundo boleiro.

A falta de investimento em clubes locais e na liga eram obstáculos à formação de um elenco feminino competitivo.

Até que, em 2015, os times da primeira divisão do campeonato masculino foram obrigados a criar equipes de mulheres. O efeito foi sentido nas eliminatórias para a França: as italianas ganharam 7 de seus 8 jogos.

Desgostoso com a Azzurra depois do fiasco dos homens, ausentes da Copa da Rússia no ano passado, o torcedor encontrou um bálsamo no desempenho da formação feminina, que terá seu duelo com o Brasil transmitido no horário nobre do maior canal de TV do país.

Em março, as mulheres da Juventus receberam a Fiorentina diante de quase 40 mil pagantes.

Um dos trunfos da campanha que levou a Itália ao Mundial da França foi a consistência da defesa: a seleção sofreu apenas quatro gols em oito jogos, dois deles no último compromisso –quando já estava classificada.

“A Itália sempre teve defesas muito fortes, faz parte da história do futebol lá”, disse o técnico brasileiro, Vadão. “São times com muita rigidez tática. As atacantes combatem, todas combatem.”

Para a meia Thaisa, que atua no Milan, “o coração delas” é justamente o meio de campo. Os quatro gols das meias Bonansea e Galli (em sete totais da Itália) dão estofo a esse diagnóstico.

Mas o conjunto europeu também tem seu quinhão de fragilidades. A liga italiana ainda tem poucas jogadoras estrangeiras (sobretudo na comparação com as ligas espanhola e francesa), o que dá pouca cancha às atletas nacionais.

Há quem coloque em questão ainda o preparo físico das italianas, muitas delas iniciadas no esporte de alto rendimento já na casa dos 20 anos de idade.

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