Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Ludmila vence abandono, morte de irmã e 'futebol por raiva' na Copa

Descoberta por ex-técnica da seleção, atacante não gostava de futebol

Klaus Richmond
Santos

A presença de Ludmila da Silva, 24, em campo pode até ter passado despercebida na estreia do Brasil na Copa do Mundo feminina da França, no Stade des Alpes, em Grenoble.

A atacante substituiu ninguém menos do que Cristiane, 34, minutos após a jogadora alcançar a trinca de gols na vitória da seleção sobre a Jamaica.

A estreia em um Mundial da promissora atacante, principal candidata a herdeira da veterana, significou mais até do que um gol para uma antiga menina rebelde que na adolescência “só jogava futebol para descarregar a raiva”.

Ludmila nasceu em Guarulhos e cresceu em um conjunto habitacional no bairro City Jaraguá, na zona norte de São Paulo. Com apenas um ano foi deixada pela mãe em um orfanato junto com a irmã Sheila, um ano mais velha.

“Minha mãe disse que não conseguia criar a gente, que meu pai era agressivo”, disse à Folha.

Ludmila disputa bola com jogadora da Austrália na Copa do Mundo da França
Ludmila disputa bola com jogadora da Austrália na Copa do Mundo da França - Jean-Paul Pelissier - 13.jun.19/Reuters

Com três anos, passou a morar com a tia Maria e uma casa cheia de primos. Eram 13 pessoas, ao todo, e muitas dificuldades. A escola em tempo integral virou o principal desafogo. Praticante de capoeira e fã de hip hop, não gostava sequer de assistir futebol.

“Passava pela sala e saía quando a TV estava ligada. Gostava de ir para a rua. Não tinha time, não gostava de futebol”, contou.

Logo depois, veio o interesse pelo atletismo. Corria os 100 m livres, 100 m com barreiras, revezamento 4 x 100 m. Tudo isso ao lado da irmã, companheira inseparável. Mas os conflitos internos pelo abandono ainda a incomodavam.

“Quando cheguei aos 15 anos queria mandar na minha vida. Larguei tudo, aí só sobrou jogar futebol na rua e jogar capoeira com minhas primas”.

A escolha que parecia ser a pior acabou levando Ludmila muito além de onde ela imaginou chegar. Sem pretensões, foi levada a um teste no Juventus. Com pouca intimidade com a bola logo falou a posição: “sou zagueira”. Mesmo com um futebol pouco atraente, a explosão acima da média devido aos anos de atletismo chamou atenção de Emily Lima, hoje no Santos.

Emily virou uma espécie mentora de Ludmila. Dava conselhos dentro de fora de campo para lapidar um diamante bruto. Intensificou trabalhos técnicos, mudou radicalmente o posicionamento da jogadora –que virou atacante– tentava acalmar a rebeldia do impulsivo talento.

 

A treinadora se assustou quando em certo momento foi comunicada de uma ausência de Ludmila a um treinamento porque ela precisaria comparecer a delegacia. A jogadora tinha apenas 15 anos. Havia machucado consideravelmente o rosto de uma menina na escola em uma briga.

“Eu era uma menina rebelde, não morava com minha mãe, e quando via as minhas colegas levando lanche e com a mamãe isso tocava muito em mim. Aí, eu brigava mesmo. Batia em meninas, batia em meninos”, confessou.

“A Emily sempre me passou tranquilidade, me mostrou que tinha potencial, me ensinou a ter responsabilidade, mas tem coisas que ela nem sabe. Ela me pedia para ir para casa, mas eu ia para a casa de amigas. Tinha vergonha de voltar para casa, falavam que não tinha educação”. 

Ludmila superou tudo isso para chegar longe. Passou por clubes tradicionais na modalidade como São José, Portuguesa, Santos e Rio Preto. Voltou ao São José de onde rumou para o maior voo da carreira, o Atlético de Madri. Foi a primeira brasileira contratada pelo clube espanhol.

Em meio à reviravolta da menina rebelde, veio o baque. A perda precoce da irmã para as drogas, há três anos. “Tudo o que me ofereciam eu dizia não. Infelizmente, minha irmã se relacionou com pessoas que estavam em um mau caminho. Isso a afastou de mim. Passamos a falar bem pouco, só por telefone”, contou.

A jogadora venceu mais esta dificuldade e perdoou a mãe, apesar da relação distante e quase inexistente, pelo abandono. Hoje, continua escutando atenta aos conselhos de Formiga, 41, que na França disputa a sua sétima Copa do Mundo.

“Ela me pede, principalmente, para ser mais tranquila. Sou muito agitada”, confessa aos risos.

Carregando toneladas de superações, Ludmila agora quer ganhar a Copa para honrar a geração de Marta e cia. E, após tantas barreiras, não há mais como duvidar dela.

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