Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Jogadoras no Brasil vivem jornada tripla por sonho no futebol

Thaís Oliveira e Cássia Silva se dividem entre esporte, faculdade e trabalho

São Paulo

O Corinthians goleia o Juventus por 4 a 0, na Rua Javari, e segue firme na liderança de seu grupo no Campeonato Paulista feminino. A equipe corintiana é uma das potências da modalidade. Conquistou Campeonato Brasileiro em 2018.

Do lado juventino, Thaís Oliveira, 20, e Cássia Silva, 24, lamentam a goleada sofrida, mas não há muito tempo para pensar sobre o jogo e o que levou à derrota. No dia seguinte, uma segunda-feira, a dupla precisa encarar uma jornada tripla. Isso porque o futebol, ao contrário do desejo delas, ainda não serve como única fonte de sustento.

Thaís acorda todos os dias às 5h da manhã e sai do Jardim Santa Terezinha, em Diadema, para estar às 8h na faculdade. Ela cursa Educação Física. Ao meio-dia, já está na sede social do Juventus para treinar com o time. O gramado lá é sintético, ao contrário da Javari, que tem grama natural, mas onde elas apenas fazem jogos oficiais.

Esta é só a metade da jornada diária da atleta.

A atacante depois segue para a academia, almoça às 15h e às 17h vai para o trabalho. São 20h30 quando ela deixa o serviço para ir para casa, chegando geralmente às 22h.

“Eu acredito que, para mim, o mais pesado seja passar duas horas indo para qualquer lugar de ônibus. Metrô lotado. Aí a gente vai jogar duas horas de jogo pegado, intenso. Você volta destruída, acaba chegando em casa tarde. Tem que acordar 5h para ir para a faculdade. Tempo de descanso não tem”, diz Thaís, que aceitou o convite da Folha para acompanhar sua rotina em um dia de jogo.

No domingo em que o Juventus enfrentou o Corinthians, a jogadora precisou almoçar no metrô enquanto se dirigia à Rua Javari.

“Como o horário do jogo é 15h, complica um pouco, aí vou ter que comer no vagão. Se deixar para comer só quando eu chegar no estádio, não faço a digestão e fica um pouco pesado na hora do jogo”, afirma.

Thaís tem uma história muito comum às atletas. Na infância, sofreu preconceito por querer jogar bola com os meninos na rua. “No caminho, até chegar na rua, já ouvia ‘Maria macho!’ e ‘Essa aí vai virar sapatão’”, conta.


Jogadoras Cássia Silva, 24, e Thaís Oliveira, 20, do Juventus
Jogadoras Cássia Silva, 24, e Thaís Oliveira, 20, do Juventus - Danilo Verpa

Aos 20 anos, a jogadora sonha com condições melhores e espera, um dia, poder viver somente do futebol.
“Poder viver da modalidade é o sonho de qualquer atleta. Você treina, descansa, se alimenta e está recuperada para o treino seguinte”, completa.

Sua colega de equipe, a meio-campista Cássia Silva, 24, é outra que compartilha do mesmo sonho.
Assim como Thaís, Cássia recebeu a reportagem da Folha para seguir seu dia de trabalho. Também aluna de Educação Física, a atleta estuda pela manhã e segue para o treino no Juventus.

Depois do treinamento, a meia segue para o Corinthians, onde trabalha como professora no departamento de natação recreativa. De lá, volta para casa, e no dia seguinte retoma a jornada tripla.

Em razão da correria e da falta de perspectivas mais sólidas no futebol feminino, Cássia conta que por pouco não abandonou a modalidade.

“Já pensei em desistir, sim. Porque a gente pensa: ‘Será que não seria mais fácil largar o futebol e viver só do meu trabalho?’. Mas não dá para largar. É o que eu amo fazer, eu me sinto bem treinando, me sinto bem competindo”, diz.

A jogadora nunca sofreu preconceito dentro de casa por querer seguir a carreira no futebol, mas afirma que seus pais sempre mostraram preocupação com a questão financeira. Por isso, hoje, Cássia estuda e trabalha, além de jogar pelo Juventus, que só oferece uma ajuda de custo às atletas.

Diante da realidade atual, ela sabe que seu futuro está no emprego e nos livros de Educação Física, mas ainda mantém o desejo de, um dia, poder dizer que é apenas jogadora de futebol.

“Hoje em dia, no futebol [feminino], está surgindo uma esperança. Com os clubes abrindo mais equipes, traz uma esperança de um futuro melhor para o futebol feminino. Se não for para mim, que seja para a próxima geração, que consigam ter uma carteira registrada, um salário suficiente para que elas não tenham que trabalhar em mais de um lugar”, completa.

O Juventus disputa a primeira divisão do Paulista feminino. O clube não está em nenhuma divisão do Brasileiro. Em 2019, a CBF organizou a série A (com 16 times) e a B (com 36) do torneio nacional.
 

Bruno Rodrigues, Isabella Faria , Luiz Cosenzo e Jasmin Endo
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