Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Cristiane chutou bonecas e peitou CBF antes de marcar três gols na Copa

Atacante também sofreu depressão e chegou a anunciar aposentadoria da seleção

Lucas Neves
Grenoble (França)

Depois de marcar os três gols da vitória do Brasil sobre a Jamaica, na estreia de ambas na Copa do Mundo da França, a atacante Cristiane, 34, desbancou ninguém menos do que Rafael Nadal.

Cerca de duas horas após o fim do jogo em Grenoble, no fim da tarde deste domingo (9, hora do almoço no Brasil), o nome da centroavante era mais citado no Twitter do que o do tenista espanhol, que acabara de conquistar seu 12º título de Roland Garros, a 580 km dali, em Paris. O placar marcava 271 mil menções a ela, contra 215 mil a ele.

A atacante Cristiane comemora um de seus três gols na vitória brasileira sobre a Jamaica, na Copa do Mundo feminina de futebol
A atacante Cristiane comemora um de seus três gols na vitória brasileira sobre a Jamaica, na Copa do Mundo feminina de futebol - Jeff Pachoud/AFP

Em seu quinto Mundial, a paulista se tornou também a atleta mais velha (independentemente do gênero) a marcar três vezes em um mesmo jogo do torneio. Nesse caso, o oponente "derrubado" foi o atacante português Cristiano Ronaldo, que tinha 33 anos e 4 meses ao fazer a trinca de gols do empate em 3 a 3 com a Espanha, no ano passado, na Rússia.

Cristiane há tempos não toma conhecimento da competição masculina quando se trata de recordes ou marcas assombrosas. Considerados tanto homens quanto mulheres, ninguém balançou as redes em Olimpíadas tanto quanto ela: foram 14 gols em quatro edições.

Na seleção, contando os três deste domingo em Grenoble, a atacante já anotou 86 gols, deixando Pelé no retrovisor (77) e só atrás da colega Marta (110), que desfalcou a equipe no primeiro confronto por causa de uma lesão na coxa esquerda.

Tais estatísticas dão ainda mais força ao seu pleito de muitos anos por mais respeito ao futebol feminino, sobretudo pelo lado da gestão e do planejamento –ou seja, o que cabe à CBF.

De personalidade confrontadora, a atleta chegou a anunciar sua aposentadoria da seleção quando Emily Lima, a primeira mulher a treinar o time, foi demitida pela confederação, em setembro de 2017, menos de um ano depois de assumir o comando do grupo.

 

Era a gota d'água para Cristiane, àquela altura já muito desgostosa do tratamento menos nobre reservado às mulheres na comparação com os homens –o descompasso incluía valores de diárias e premiações, uniformes, entre outras reivindicações.

Ela acabaria se reintegrando ao grupo em abril de 2018, depois de conversar com o técnico Vadão, voltando a tempo de ajudar o Brasil a conquistar seu sétimo título da Copa América.

Seria sua última aparição pela equipe até o regresso marcante deste domingo –mas o afastamento aqui ocorreu por causa de uma sequência de lesões, a última delas no músculo sóleo, na região da panturrilha.

Também foi por causa de uma contusão que, três anos atrás, ela sucumbiu à depressão. A morte da avó na casa de quem ela havia sido criada, o fim de um relacionamento e o desempenho decepcionante do Brasil na Olimpíada do Rio (quarto lugar) contribuíram para desestabilizá-la.

"Explodiu tudo de uma vez", disse ela, em entrevista recente à Folha, sobre a fase conturbada em 2016.

É por isso que, após o confronto com a Jamaica, quando marcou de cabeça, de "empurrãozinho" e de falta, ela falava em recomeço, volta por cima e "vitória pessoal muito grande".

Cristiane é abraçada por Tamires após seu terceiro gol na vitória sobre a Jamaica
Cristiane é abraçada por Tamires após seu terceiro gol na vitória sobre a Jamaica - Denis Balibouse/Reuters

Entre altos e baixos de uma carreira que a levou a Alemanha, Rússia, EUA, França, Suécia, China e, agora, de volta a(o) São Paulo, Cristiane parece ter preservado a obstinação da guria que, na infância em Osasco, arrancava cabeças de bonecas para fazer de bola ("podiam vir com o melhor brinquedo, mas eu não queria", contou na mesma entrevista à Folha).

Na rua, jogava com os meninos –um deles lhe servia de sentinela para avisar quando a mãe dela despontasse no horizonte, mas o pé preto fatalmente entregaria a traquinagem (a menina havia sido incumbida de fazer a louça, àquela altura intocada).

Muito aplaudida ao sair de campo logo depois do gol de falta, Cristiane disse ao fim do jogo estar "feliz demais por representar todas as meninas que estão acompanhando a Copa no Brasil e sonhando com isso [jogar futebol e defender a seleção]".

"Sempre confiei muito nela", afirmou Vadão, também após o jogo. "Esperamos ela até o último momento. Em Portugal [onde a equipe fez uma aclimatação de 15 dias antes de seguir para a França], foi poupada duas ou três vezes. Dentro da área, é uma das maiores do mundo."

Essencial para a apresentação de gala da centroavante foi a parceria com Andressa Alves, que deu passes para dois dos gols de Cristiane e ainda criou oportunidades com Debinha. O pênalti perdido pela jogadora do Barcelona no primeiro tempo empalidece no cômputo geral.

Liderada pelo fenômeno Khadija Shaw (19 gols nas eliminatórias da Concacaf), que levou perigo repetidas vezes ao gol de Bárbara, a Jamaica (53ª no ranking da Fifa) não se acovardou diante do Brasil, mas mostrou mais agilidade e força física do que capacidade de armação.

Próximos jogos da seleção no Mundial

Brasil x Austrália - quinta-feira (13), às 13h (de Brasília), em Montpellier
Brasil x Itália - terça-feira (18), às 16h (de Brasília), em Valenciennes

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