Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Meninas menores de 11 anos têm só um time para jogar futebol no país

Única equipe com estrutura para categoria sub-11 feminino fica em São Paulo

Treino do time sub-11 no Centro Olímpico, em São Paulo

Treino do time sub-11 no Centro Olímpico, em São Paulo Danilo Verpa/Folhapress

Alex Sabino
São Paulo

Penélope, 10, deveria brincar com bonecas. Deveria, mas não brincou. Preferia arrancar as cabeças delas e usá-las como bolas. Chutava-as de um lado para o outro na sua casa no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo. 

A menina ganhava bolas de presente, mas sua mãe as furava. "Ela dizia para o meu avô que futebol de mulheres era coisa de sapatão", afirma.

Penépole venceu pelo cansaço e pelo talento. Treina duas vezes por semana com o elenco sub-11 do COTP (Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa), mantido pela Prefeitura de São Paulo. É o único clube (sem contar escolinhas) a ter time competitivo para crianças dessa idade.

 

A história de Penélope é a mesma de outras garotas que estão nas equipes do COTP. Ainda é possível ouvir relatos quanto à necessidade de superar a contrariedade de pais e olhares tortos de amigos. Mas há famílias que abraçam desde cedo o sonho das filhas.

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"Eu não tenho nenhuma amiga na minha rua que joga futebol. Só eu. Jogo com os meninos mesmo e, quando montam os times, eu nunca sou a última a ser escolhida. Sou melhor que alguns deles."

O início de visibilidade ao futebol feminino fez com que aumentasse a procura por vagas no Centro Olímpico. As crianças não pagam nada para treinar e fazer parte dos times. E é um espaço exclusivo.

"Não temos times masculinos. As meninas vêm para cá e têm os campos só para elas. Entram aqui com 8 ou 9 anos e podem ficar até o sub-17", diz Rodrigo Coelho, coordenador do Centro e técnico do sub-15.

Em todas as categorias, são cerca de cem jogadoras. Eram mais até 2018. O COTP tinha parceria com o São Paulo na categoria sub-17. O time do Morumbi resolveu montar elenco próprio e levou as jogadores do Centro Olímpico para o Morumbi. Quando as equipes foram criadas, em 2011, eram 20 atletas. 

"Vamos remontar este time sub-17", afirma Coelho, enquanto observa as crianças entre 9 e 11 anos entrarem no campo de piso artificial.

Os treinos envolvem controle de bola, troca de passes, um contra um em tentativa de dribles, chutes ao gol. A diferença é na hora dos jogos. Como é o único clube com meninas da idade, eles são obrigados a inscrevê-las em torneios masculinos. Ou contra garotas mais velhas. "Claro que há diferença. São poucas crianças de 11 anos que podem enfrentar de igual para igual outra de 13. Mas paciência... Se não for assim, elas não têm como jogar", afirma a treinadora Thaís Cavalcanti.

Esta é a mesma equipe em que treinava uma semana por mês Natália, 9. Ela se tornou conhecida por ser a primeira garota convidada para atuar pelas categorias de base de um clube profissional ao lado de meninos. Está no Avaí.

Elas não são registradas na Federação Paulista porque o COTP não é filiado à entidade.

"Melhorou, né? Acho ótimo que as pessoas vejam o futebol feminino. Se seguir assim, pode chegar perto da visibilidade que tem o masculino", afirma Ana, 10, goleira. Ela lamenta não poder ver jogos pela TV porque não estão em nenhuma emissora. Isso deverá mudar com a Copa do Mundo, que começa no próximo dia 7.

A história de Ana é a mesma de outros atletas da posição de qualquer sexo. Começou no ataque, passou para a zaga. Foi recuando, recuando, recuando, até se encontrar em campo com as luvas nas mãos. "Foi onde me senti mais confortável", completa.

A técnica Thaís Cavalcanti (de vermelho) e as jogadoras da categoria sub-11 do Centro Olímpico
A técnica Thaís Cavalcanti (de vermelho) e as jogadoras da categoria sub-11 do Centro Olímpico - Danilo Verpa/Folhapress

Ser a última linha da defesa se transformou em um refúgio, o mesmo relato de tantos goleiros profissionais, como Weverton, o seu preferido. Ela torce pelo Palmeiras, clube em que atua seu ídolo.

É a mesma tecla que as meninas, treinadores e treinadoras reforçam. A diferença entre o futebol masculino e o feminino é o gênero das atletas.

"É desafiador porque elas são crianças que gostam de futebol, e a gente nota que algumas têm potencial para irem adiante. Mas são jovens e perdem a atenção de forma rápida. A gente tem de fazer um treino que seja lúdico, mas que também ajude a desenvolver a técnica", afirma Thaís.

É mais fácil dizer do que fazer. Quando ela vai conversar com as meninas, estas falam por cima da treinadora ou não prestam atenção. A instrução tem de ser repetida duas ou três vezes. Mas as jogadoras se divertem, no fim.

Poderia ser mais difícil se os pais acompanhassem de perto. Isso não é mais permitido. Foi, mas as orientações da família se sobrepunham às da técnica, e a preocupação com cada queda em campo e os gritos atrapalhavam. Os pais que são superprotetores no masculino e pensam que os filhos são os melhores atletas do mundo são os mesmos do feminino. "Por isso a gente decidiu que durante os treinos os pais ficam lá", diz Rodrigo Coelho, apontando para a arquibancada da pista de atletismo, a mais de 100 m de distância.

Por ser o único time competitivo da categoria, o Centro Olímpico recebe telefonemas de interessados de outros estados em busca de vagas. O sub-11 tem duas crianças de Curitiba e uma do Rio. 

"Vieram aqui duas meninas dos EUA. Tivemos outra de Brasília que jogava muito bem. Mas elas não tinham como ficar em São Paulo. Faz algumas semanas tivemos uma do Nordeste, que também era muito boa e os pais estão tentando se organizar para se mudar para cá", relata Thaís.

Pode ser frustrante descobrir um talento e não poder trabalhar com ele por causa da situação financeira. E, se a família troca de cidade e estado só para que a filha possa tentar a vida como jogadora, é porque veem nela uma esperança de um futuro melhor. 

Acontece o mesmo com garotos que são chamados de "joias" na base dos clubes.

E surgem decepções porque não são todas as crianças interessadas que poderão estar nos times do COTP. O clube realiza peneiras na última sexta-feira de cada mês. É preciso passar por esse primeiro teste e, se chamada, ser aprovada após uma semana de treinos com as outras meninas.

Foi assim que Penélope teve êxito. Com fita rosa na cabeça e capacidade de correr sem parar, ela convenceu a todos de que o futebol estava no sangue. Fez até a mãe mudar de ideia. "Ela tinha preconceito, mas hoje me apoia bastante."

Tanto é verdade que a menina não precisa mais arrancar cabeças de bonecas. No última Dia das Crianças, sua mãe lhe deu uma bola.

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