Remanescente de fracassos, Fernandinho encanta Tite e Guardiola

De volta à seleção, volante busca superar eliminações nas Copas de 2014 e 2018

Diego Garcia Marcos Guedes
Teresópolis (RJ)

Há um ano, no momento em que Fernandinho alimentava a esperança de fazer uma grande Copa do Mundo em 2018 e apagar a frustração vivida em 2014, o volante disse uma frase que poderia ser repetida agora.

“É a partir da frustração que você tem a chance de dar a volta por cima, de tentar de novo”, afirmou. Não deu certo na Rússia, e hoje o atleta de 34 anos vive a expectativa de conseguir fazer isso na Copa América, disputada no Brasil a partir de 14 de junho.

“As pancadas da vida vão fazendo com que a gente amadureça”, ele afirmou recentemente. “Muito feliz, muito contente, muito orgulhoso de estar retornando à seleção”. A volta não parecia provável após duas edições do Mundial nas quais ele ficou marcado pela eliminação do Brasil.

Fernandinho durante treino da Seleção Brasileira na Granja Comary, em Teresópolis (RJ) - Lucas Figueiredo 30.mai.19/CBF

Em 2014, foi um dos responsáveis pelo sistema defensivo frouxo na derrota por 7 a 1 para a Alemanha e entregou de bandeja o quarto gol. Em 2018, no revés por 2 a 1 diante da Bélgica, fez um gol contra e foi facilmente driblado no segundo gol do adversário, sem nem tentar fazer a falta.

Apesar da queda nas quartas de final, Tite permaneceu no comando da seleção. E só não chamou Fernandinho logo após a Copa do Mundo da Rússia porque o atleta não quis. Sofrendo ameaças contra si e seus familiares na internet, o paranaense pediu ao treinador para ficar longe da camisa amarela, decisão revertida posteriormente.

“O primeiro atleta que eu tive vontade de convocar foi o Fernandinho. O número um. Ele é um jogador extraordinário, joga muito”, afirmou o técnico no fim do ano passado, antes de promover o retorno dele. “A seleção brasileira tem muito orgulho de ter um atleta com essa dignidade e competência profissional.”

 

Na conversa entre o comandante e o comandado, ficou acertado que ele voltaria ao grupo nos amistosos de março. Não foi possível, por causa de uma contusão no joelho, mas o jogador apareceu na convocação para a Copa América, na semana passada, o que gerou questionamentos.

Tite resolveu bancar Fernandinho, apesar das críticas e da idade do volante, que terá 37 anos na próxima Copa do Mundo. Além do “jogador extraordinário” que vê, o técnico enxerga nele também um líder, alguém com uma personalidade suficientemente forte para lidar com as marcas negativas que o acompanham.

“Vai ter o risco da crítica? É da vida, e ele está maduro”, afirmou o gaúcho, apenas um dos membros da comissão técnica verde-amarela cheios de elogios ao atleta.

“Visitamos o Fernandinho na Inglaterra e vimos como ele tem voz no vestiário do Manchester”, disse o preparador físico Fábio Mahseredjian.

 

O prestígio do camisa 25 é realmente considerável no Manchester City, clube que defende desde a temporada 2013/2014 do futebol europeu. Seu treinador no time, Pep Guardiola, vê nele uma peça indispensável e chegou a atribuir, no fim do ano passado, uma sequência de resultados ruins à ausência do jogador brasileiro.

“A maioria das coisas que alcançamos foi graças a esse cara”, disse o espanhol, duas vezes campeão inglês com o paranaense no meio-campo.

“Por todos os anos em que estivemos juntos, ele foi incrível. É um jogador incrível. Poucos jogadores podem fazer o que ele faz”, acrescentou, entusiasmado com a capacidade que o paranaense tem de marcar e também participar das ações ofensivas.

São elogios que Fernandinho aceita com a mesma tranquilidade que demonstra diante das críticas recebidas.

Todos que são próximos dele, de familiares a companheiros de equipe, costumam descrevê-lo com adjetivos que vão na linha de sereno, calmo, paciente e centrado.

“Desde criança, com 10 ou 11 anos de idade, ele já tinha essa forma. Era sério, sabe?”, disse sua mãe, Ane Machado, em entrevista à TV Globo concedida no ano passado.

Foi assim, com serenidade e seriedade, que Fernandinho construiu sua carreira na Europa. Após um bom início no Atlhetico-PR, ele passou oito anos no Shakhtar Donetsk, onde venceu seis vezes o Campeonato Ucraniano, antes de ganhar espaço na prestigiada liga inglesa, na qual está há seis temporadas.

Na seleção, porém, sua única glória foi vencer o Mundial sub-20 disputado em 2003 e no qual fez o gol do título contra a Espanha, após cruzamento de Daniel Alves.

Ele chegou à equipe principal pela primeira vez em 2011 e se tornou figura constante nas convocações de 2014 a 2018, mas, embora tenha feito bons jogos entre os 49 que acumula na seleção, não tem como fugir dos desastres que foram suas atuações nas eliminações em 2014 e 2018.

Ainda assim, Tite mostrou que acredita nele. Bastante questionado por não convocar o mais jovem Fabinho, 25, do Liverpool, o comandante deu de ombros para o histórico em Copas e para os 34 anos do meio-campista do City.

“É o mesmo que fez o gol do título sub-20. É o mesmo Fernandinho”, assegurou o treinador, concedendo a ele uma nova chance de dar a volta por cima a partir da frustração.

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