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The New York Times

Tiger Woods vive redenção tolerável após escândalos

Presença dele com Trump alimenta debate sobre seu papel como herói racial

Wesley Morris
Nova York | The New York Times

Em maio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu a Tiger Woods a Medalha Presidencial da Liberdade. A cerimônia aconteceu no Rose Garden da Casa Branca, duas semanas depois de uma vitória de Woods em um torneio do circuito Masters de golfe pela qual todos oraram desesperadamente.

A tarde estava serena, mas as pessoas mesmo assim reclamavam: sobre a idade de Woods (seus 43 anos o tornam jovem demais para o prêmio); sua presença continuada (ele continua jogando, afinal); a ética da coisa toda (ele é sócio do presidente nos negócios); e seu senso de moralidade (por que aceitar o prêmio do atual ocupante da Casa Branca?). 

O ponto alto da tarde foi a entrega da medalha. Quando chegou a hora de o presidente entregá-la ao premiado, Woods parecia esquisito, encolhido de forma incomum, como se em lugar de medalha estivesse recebendo um babador. A correia da medalha estava torcida, na parte frontal esquerda, como um cinto passado pela aba errada de uma capa de chuva ou vestido. Não foi um deslize catastrófico. Mas ver algo assim —um tropeço, uma mancada durante um momento que costuma ser encarado pelos premiados como uma experiência grandiosa— leva a pensar: Por que ninguém reparou no defeito e o consertou?

Donald Trump concede a Medalha Presidencial da Liberdade ao golfista Tiger Woods durante cerimônia em Washington
Donald Trump concede a Medalha Presidencial da Liberdade ao golfista Tiger Woods durante cerimônia em Washington - Saul Loeb - 7.mai.19/AFP

A família de Woods estava presente. A primeira dama também. Pode ser que ninguém tenha desenroscado o cordão da medalha porque o entusiasmo do momento era tamanho que tornou o defeito imperceptível.

Talvez ninguém tenha consertado o defeito porque esses pequenos solavancos capturam a ironia de ser Tiger Woods, agora. E um homem conhecido por usar o poder das roupas —especialmente camisetas polo vermelhas nas rodadas de domingo dos torneios— para intimidar oponentes e revelar uma vitória prenunciada, ultimamente parece indefeso contra os planos malignos que os acessórios de moda parecem ter contra ele. Eu sei: estamos falando só de roupas. Mas isso também permite vislumbres sobre o estado mental de alguém. 

Às vezes, como no caso da fita da medalha, o que uma pessoa está vestindo pode ter implicações ainda mais cósmicas. Ele conseguiu dar a volta por cima; você conseguiria?

Tiger Woods foi tão famoso por estar por baixo quanto por estar por cima, e por períodos semelhantes.

Viveu uma década como divorciado compulsivamente infiel e viciado em sexo e medicamentos, e com um problema na coluna difícil de tratar. Um atleta que um dia foi o epítome da disciplina havia se tornado uma imagem de escândalo. 

Patrocinadores o abandonaram. Os torcedores ficaram de queixo caído. E tudo parecia justo. Houve até mesmo momentos em que Woods parecia de alguma forma estar curtindo a justiça de sua punição. Momentos como o do dente perdido.

Quatro anos atrás, Woods viajou aos Alpes italianos para assistir à sua então namorada, Lindsey Vonn, sair de novo vitoriosa na Copa do Mundo do esqui. Ele havia acabado de marcar seu pior placar de todos os tempos no golfe, durante o Waste Management Phoenix Open, e parecia que as coisas não tinham como piorar para ele, em termos de celebridade, esportes e psicologia acidental.

Mas então ele viajou para a Itália e saiu de casa usando um gorro de lã e uma máscara protetora para o rosto na qual havia o desenho de uma caveira. Não um homem de neve, um elfo ou um Space Invader: uma caveira.

Ele o fez plenamente ciente de que um de seus dentes da frente tinha caído (aparentemente um câmera esbarrou em Woods e arrancou o dente). A imagem parecia engraçada e triste, talvez uma forma de autoironia; podia até ser interpretada, com alguma generosidade, como provocação. O maior golfista americano vivo transformado em vilão coadjuvante na série “Velozes e Furiosos”.

É possível que a volta por cima profissional de Woods também satisfaça a curiosidade que alguns de nós sentimos sobre o que representa uma redenção tolerável.

As transgressões de Woods não representam o tipo de ação que atraia grandes protestos do movimento #MeToo. Ele mesmo admitiu, em uma entrevista coletiva sórdida e desprovida de estilo, que era um mau marido, em 2010. Mas também um mau exemplo. 

“Todos têm bons motivos para me criticar”, ele disse, lendo um texto preparado. A vergonha e o desconforto eram audíveis em sua voz. Bastava olhar a camisa azul, disforme e grande demais, que ele usou naquele dia: ela também parecia não querer estar lá.

Por isso, o renascimento do atleta este ano —ele está jogando mais uma vez no Aberto dos Estados Unidos, que está em curso em Pebble Beach, Califórnia— parecia muito mais salubre, dada a gravidade dos  problemas morais e éticos que Woods teve de enfrentar.

Tiger Woods disputa o Aberto de Pebble Beach, na Califórnia
Tiger Woods disputa o Aberto de Pebble Beach, na Califórnia - Ross Kinnaird/Getty Images/AFP

Se uma pessoa comum tinha algum motivo para se identificar com Woods, era o quanto seu problema parecia comum, ainda que o esforço que ele precisou empreender para se recuperar pareça ter tido dimensões quase bíblicas.

Sabe-se lá. Ele conseguiu dar a volta por cima. Você conseguiria?

Também pode ser que Tiger Woods, com sua relevância readquirida, prometa o que sua versão infalível anterior um dia representou: o sonho de integração em um esporte que, nos Estados Unidos, está fadado a se manter em larga medida branco; uma prova, dirigida a pessoas como a minha avó, de excelência negra. 

Woods foi um herói racial persistente antes de sua queda. Sua presença na cerimônia ao lado do presidente, no mês passado, confirma o quanto ele continua a sê-lo, ainda que discretamente, ao ressurgir.

Na era Trump, a visita dos esportistas campeões à Casa Branca resultou em rachas em algumas equipes. Os jogadores brancos do Boston Red Sox aceitaram um convite recusado pela maioria dos colegas não brancos. Em seu auge, Woods raramente cedia a pressões, nem como golfista e nem como filho de uma mãe tailandesa e pai negro; ele tampouco queria concretizar a tirada final em um quadro do “Chappelle’s Show” no qual pessoas negras e pessoas asiáticas brigam para determinar quem o escolheria primeiro em um draft racial.

Quando Woods estava por baixo e as coisas pareciam muito desfavoráveis, me apanhei imaginando a quem ele se voltaria, em termos culturais. Será que escreveria um artigo introspectivo para o The Players’ Tribune sobre a solidão de ser um atleta negro na PGA Tour? Ou optaria por ser fofinho, caçando apoio, afeto e “likes”? Quantas visitas a “Ellen” ele teria de fazer? Quem poderia lhe dizer como chegar à Vila Sésamo?

Mas ele não se tornou carente ou sentimental. Parecia curtir seu eu bizarro meio macabro. A ideia dele de se comunicar com a criançada, por exemplo, foi um tuíte de 2016 que o mostrava sem camisa e de óculos escuros, com um cavanhaque tingido de loiro, uma peruca branca sob um boné de beisebol e um olhar vagamente ameaçador.

Ele descreveu o “look” como “Mack Daddy Santa”. (Na verdade, era uma zombaria ainda maior quanto ao lado gângster da cultura negra. O título deveria ter sido “Tyga Woods”.) Woods disse que as crianças adoraram a brincadeira. Ele tinha por fim assumido um perfil racial —como brincadeira. Mas era um sinal de vida, mais um sinal de que, se Woods não conseguisse voltar a ser um excelente golfista, poderia se tornar um excelente cafajeste.

Woods já falou sobre querer se identificar apenas como ele mesmo, como se o desejo de algumas pessoas de vê-lo como um novo Muhammad Ali só reforçasse a percepção de que ele sempre foi tão apolítico e racialmente agnóstico quanto O.J. Simpson.

Posteriormente, essa estrada da independência racial o conduziu a Donald Trump. A iconoclastia implosiva de Kanye West veio acompanhada por visitas à Trump Tower e à Casa Branca. E, como Woods, West preparou um visual combinado para as visitas, pintando os cabelos de loiro presidencial.

O alinhamento de Woods não veio acompanhado pela insensatez, desordem ou blasfêmia histórica que caracterizaram as ações de West. Ele não precisou declamar, declarar ou denegar. Como portador da Medalha Presidencial da Liberdade (e de um novo paletó verde), Woods será capaz de manter um silêncio político liso. Talvez ele tenha conquistado o perdão. Mas o dente perdido, o tuíte de Natal, a correia torta da medalha parecem estar todos dizendo: “Nós não esquecemos”.

Tradução de Paulo Migliacci

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