Facebook tirou Champions da Globo, mas não se vê como rival

Com torneio europeu e Libertadores, rede social investiu em esporte no Brasil

Bruno Rodrigues
São Paulo

Na última temporada da Champions League, 24 milhões de pessoas na América Latina assistiram ao torneio pelo Facebook Watch, plataforma de transmissões da rede social. Segundo a Globo, os 11 jogos que a emissora transmitiu da temporada 2017/2018, a última em que teve os direitos do torneio, alcançaram 116,6 milhões de pessoas no Brasil.

O número de espectadores que acompanharam o torneio via Facebook é uma mostra de que o comportamento de quem consome eventos esportivos está mudando.

O mesmo vale para a Copa Libertadores, que no Brasil tem o Facebook como transmissor exclusivo dos jogos às quintas-feiras. No confronto entre Flamengo e San José (BOL), pela fase de grupos, mais de um milhão de pessoas chegaram a estar conectadas em determinados momentos do jogo.

 

Para efeito de comparação, no duelo entre o time rubro-negro e o Peñarol (URU), também pela Libertadores, a Globo atingiu 36 pontos de audiência no Rio de Janeiro. Segundo medição do Ibope, no Rio e região metropolitana, cada ponto de audiência equivale a 44 mil residências ou 116,9 mil telespectadores. Ou seja, o jogo alcançou pouco mais de 4 milhões de telespectadores.

A Globo afirma que na data do jogo citado (Flamengo x Peñarol), 8 de maio, as transmissões dos jogos da Libertadores na emissora em todo o Brasil atingiram 43 milhões de pessoas. 

A aparição do Facebook como novo agente mexeu com o mercado de direitos de transmissão. Mas a plataforma não se vê como uma concorrente dos atores mais tradicionais e já estabelecidos do meio, como a televisão.

"Eu vejo a gente muito como parceiro, que pode inclusive ajudar a dar distribuição, a fazer com que os direitos dos detentores, digamos, tradicionais, tenham mais valor, tenham outras formas de distribuição", diz Leonardo Lenz Cesar, responsável pelas parcerias esportivas do Facebook para a América Latina, em entrevista à Folha.

Leonardo Lenz Cesar, chefe de parcerias esportivas do Facebook para a América Latina
Leonardo Lenz Cesar, chefe de parcerias esportivas do Facebook para a América Latina - Facebook/Divulgação

Sem participação da Globo –que transmitiu o torneio de 2009 a 2018– na licitação, o Facebook garantiu os direitos de TV aberta da Champions League para as três temporadas de 2018 a 2021. No Brasil, a transmissão é feita em parceria com o Esporte Interativo, marca da qual Leonardo Lenz é um dos fundadores –ele está no Facebook desde agosto de 2018.

São 66 partidas do torneio europeu por temporada, incluindo semifinais e a final. Quarenta e um desses jogos são exclusivos no Facebook Watch.

Já para a Libertadores, no mercado brasileiro, a plataforma tem exclusividade dos jogos às quintas-feiras. Globo, na TV aberta, e SporTV e Fox Sports, na TV fechada, transmitem a competição às terças e quartas.

Nos jogos do torneio sul-americano, a empresa foi alvo de críticas de consumidores em razão de quedas na transmissão. Lenz admite as dificuldades encontradas no Brasil. Ele argumenta que como o Facebook não tem controle sobre toda a cadeia de distribuição, problemas acabam acontecendo. 

"Temos nós, tem a entrega das empresas de telefonia, tem o device [dispositivo] que o cara tem, tem a região que ele mora. Uma cadeia muito complexa", justifica Lenz.

Transmissão da Libertadores é o produto que provavelmente gere maior volume de reclamações. Qual é o problema e como melhorar a experiência de assistir ao jogo? É uma questão complexa porque, na verdade, você tem uma mudança de comportamento. Todo processo de mudança é um processo complexo. Nem todo mundo está acostumado, você tem que mudar o hábito. Você tem uma cadeia de distribuição e entrega que é complexa, que a gente não controla 100%. E a gente vem trabalhando profundamente com as empresas de telecomunicação do Brasil para tentar entender que tipo de coisa que podemos fazer em conjunto para otimizar essa entrega de conteúdo. Reclamação vai sempre ter, é difícil. 

Em outros países da América Latina, Fox Sports e Facebook negociaram a cessão dos direitos que cada um tinha para a Libertadores. Por que isso não aconteceu no Brasil? Na América Latina, você pode escolher qualquer jogo, porque todos os jogos eram da Fox. Aqui você tem Fox, tem SporTV, tem Globo, você tem três players além de nós na mesa. Não necessariamente a troca fazia sentido para nós. Não estamos desesperados por direitos. Mas tem que ser uma coisa que faça sentido. Em outros países da América Latina, fez todo o sentido, porque eu entregava os direitos de um jogo que era muito bom e pegava o de um outro jogo que era tão bom ou melhor. Aqui a gente não conseguiu uma equação que fizesse sentido, então não avançamos.

O Facebook se vê como parceiro ou como concorrente no mercado de transmissões? A gente se vê muito mais como parceiros. Eu não posso falar sempre ou nunca, mas nossa missão com o Facebook Watch é garantir que conteúdo de primeira linha esteja presente. A gente não tem uma adoração por jogos exclusivos. Quando você tem, por exemplo, um negócio por assinatura, que é pago, você precisa ter um nível de exclusividade absurdo para fazer o cara [comprar]. Não temos isso. Eu vejo a gente muito como parceiro, que pode inclusive ajudar a dar distribuição, a fazer com que os direitos dos detentores, digamos, tradicionais, tenham mais valor, tenham outras formas de distribuição.

Facebook transmite 66 jogos da Champions League para o Brasil, 41 deles de forma exclusiva
Facebook transmite 66 jogos da Champions League para o Brasil, 41 deles de forma exclusiva - Carl Recine/Reuters

Ter uma equipe de transmissão do Facebook, então, não é um plano? Não vejo a gente fazendo isso. Vamos fazer várias parcerias com grupos de mídia. Naturalmente, não vamos abrir mão de conteúdo de primeira linha que a gente quer que tenha no Watch. Se para isso tivermos que comprar, vamos comprar.

A movimentação recente pela aquisição dos direitos do Campeonato Brasileiro tirou a Globo de uma zona de conforto. De repente, ela viu outros agentes brigando pela mesma fatia. O que ela e as TVs precisam fazer para não ficar para trás nesse processo? Tem que perguntar para elas o que elas precisam fazer. No final é um movimento que, ao que me parece, todo mundo está tranquilo. Acho que não tem ninguém apavorado. Tem uma mudança radical acontecendo, e todo mundo está tendo que se adaptar.

Campeonato Brasileiro é um produto que vocês querem trazer para o Facebook? A próxima janela do Brasileiro está muito distante ainda. Tem seis anos aí pela frente, é muito tempo. A gente está super focado no que tem hoje. Temos a Champions e a Libertadores, direitos absolutamente relevantes. Conseguimos fazer o que queremos, como testar modelos, buscar formas diferentes de as pessoas assistirem. Isso [Brasileiro] está bem longe do meu horizonte de planejamento. O mundo do Facebook muda muito rápido. A cada seis meses as coisas mudam bastante.

Principais direitos esportivos do Facebook

Mercado latino-americano: Champions League e Copa Libertadores (com exclusividade nos jogos às quintas-feiras para o Brasil);

Mercado americano: Liga mexicana de futebol, Major League Baseball, (seis jogos por temporada da principal liga de beisebol da América do Norte), Mundial de Surfe da WSL, melhores momentos de jogos da NBA;

Mercado asiático: Campeonato Espanhol (Índia, Afeganistão, Bangladesh, Butão, Nepal, Maldivas, Sri Lanka e Paquistão). Só na Índia, são 270 milhões de usuários no Facebook;

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