Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Grêmio pede para torcida não chamar os rivais de macacos

Clube reúne organizadas e diz que irá punir atos racistas de seus torcedores

Paula Sperb
Porto Alegre

A menina negra que era levada pelo pai ao estádio Olímpico, em Porto Alegre, vibrava com as vitórias do Grêmio na década de 1990, período em que o clube levantou uma sucessão de taças. Os títulos não são as únicas lembranças das idas ao campo de futebol. 

“Lembro da torcida gremista cantando ‘chora macaco imundo’”, diz Carla Castro, 37. “Eu era criança e não entendia o que era racismo. Com o passar do tempo, me dei conta que era grave, fiquei dez anos sem ir a estádio.” 

“Temos que parar com isso. Essa palavra carrega um conceito universal da infâmia para ofender uma pessoa negra”, diz Nestor Hein, diretor jurídico do Grêmio. “Mesmo que digam que não é racista, abolir o termo significa respeito a novos tempos, a novas demandas da sociedade.” 

Torcida do Grêmio no jogo com o Brasil de Pelotas, pelo Campeonato Gaúcho de 2018
Torcida do Grêmio no jogo com o Brasil de Pelotas, pelo Campeonato Gaúcho de 2018 - Lucas Uebel/Grêmio FBPA/Divulgação

O dirigente se reuniu com as torcidas organizadas do clube e informou que elas deveriam proibir entre os seus integrantes o uso da palavra em cantos e gritos de guerra. “Se essa questão persistir, vai haver punição, suspensão e terão até que desocupar o lugar em que ficam [na Arena]. Vamos punir severamente.” 

Neste sábado (20), às 19h, com transmissão por pay-per-view, Internacional e Grêmio se enfrentam no Beira-Rio, pelo Campeonato Brasileiro. Os dois clubes se uniram ao Observatório da Discriminação Racial no Futebol para divulgar uma campanha contra o racismo no clássico. 

Uma das torcidas com músicas em que o rival é chamado de macaco, a Geral do Grêmio diz não ser racista. Alega que os cânticos surgiram em referência a supostas imitações de seguidores do Internacional, que foi fundado em 1909, seis anos após o Grêmio. Outra versão apresentada pela torcida é que a origem do termo para o rival surgiu porque os torcedores do Inter se penduravam em árvores para ver as partidas.

“Ainda assim, para mim não é desculpa. Detesto esse cântico”, diz Léo Gerchmann, autor do livro “Somos azuis, pretos e brancos”, que conta a história da participação dos negros no time.

“Em lugar nenhum do mundo se discute se é racismo ou folclore [usar o termo macaco]. Infelizmente, a própria imprensa esportiva acaba tratando como folclore no Rio Grande do Sul e dificulta o combate ao preconceito”, diz Marcelo Carvalho, do Observatório da Discriminação Racial. 

O Observatório registrou 25 casos de racismo em campos de futebol no Brasil até 18 de julho deste ano. O Rio Grande do Sul é o estado com mais ocorrências (8). 

Não é possível determinar quando surgem os cânticos gremistas com o termo macaco. Além do “chora macaco imundo” há versos com “macaco cagalhão” e “chiqueiro da macacada”. Uma pesquisa de 2012 da Universidade Federal Fluminense, do historiador Francisco Rodrigues, mostra que o termo se popularizou após a criação da torcida Geral do Grêmio, na década de 2000. 

Para o historiador José Antônio dos Santos, autor de “Liga da canela preta: a história do negro no futebol”, o termo macaco é racista por expressar uma ideia de inferioridade dos negros. “Os macacos representam, em relação aos humanos, seres que estariam no início da cadeia evolutiva, portanto, seriam inferiores”, disse. 

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