Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Irmãos Moreira Salles financiam plano, mas não querem gerir Botafogo

João e Walter bancaram estudo para novo modelo de administração do clube

Muro da sede do Botafogo, na zona sul do Rio, com imagens de Didi e Garrincha, ídolos do clube

Muro da sede do Botafogo, na zona sul do Rio, com imagens de Didi e Garrincha, ídolos do clube Diego Baravelli/Folhapress

Catia Seabra Diego Garcia
Rio de Janeiro

Botafoguenses, os irmãos João e Walter Moreira Salles doaram ao time do coração um estudo para que seja implementado um novo modelo de gestão do clube, cujas dívidas ultrapassam a casa dos R$ 750 milhões.

Encomendado à consultoria EY, o projeto prevê a constituição de sociedade anônima exclusivamente destinada a administrar o futebol do Botafogo no período de 30 anos.

A iniciativa –anunciada há 15 dias– alimentou a expectativa de que os herdeiros do Unibanco, incorporado pelo Itaú, fossem gerir o clube.

À Folha, o documentarista João Moreira Salles descartou qualquer intenção de se tornar acionista do Botafogo.

"O que meu irmão e eu fizemos foi apenas contratar um estudo sobre a situação do clube, um diagnóstico dos problemas, seguido de indicações de possíveis saídas. Recebemos o trabalho e o passamos à diretoria do Botafogo".

 

Essa despretensão também está expressa em um bilhete encaminhado aos dirigentes.

"Nosso compromisso com o Botafogo cessa com a entrega do estudo. Não temos projetos políticos pessoais em relação ao Botafogo. Não seremos candidatos a nada, tampouco temos predileção para que o clube se torne isto ou aquilo –seja agremiação sem fins lucrativos, clube social, fundação ou empresa. Acima de tudo, não queremos ser donos do clube", escreveu João.

Na mensagem endereçada à diretoria, os irmãos Moreira Salles frisaram que "se essa possibilidade [de comandarem o clube] surgisse graças a mudanças no estatuto, nem assim nós a perseguiríamos".

Apesar disso, os dirigentes do clube apostam que a dupla venha a participar de um fundo de gestão e que a grife Moreira Salles sirva para atrair potenciais investidores. É o que diz o vice-presidente de futebol do Botafogo, o advogado Gustavo Noronha.

"A compra recente do nosso centro de treinamento só foi possível com a fundamental ajuda deles. Terem encomendado esse estudo e serem entusiastas do novo modelo empresta muita credibilidade ao projeto", afirmou.

"Estamos seguros de que, com adequada governança, o novo modelo será atrativo aos investidores e representará um marco, não só para o Botafogo, mas para o futebol brasileiro", acrescenta.

Na última quarta (7), o Botafogo completou dois meses de salários atrasados com seus funcionários. Os atletas não recebem direito de imagem (parcela do rendimento mensal) desde maio, um exemplo de como tem sido os últimos anos do time carioca.

O estudo doado pelos irmãos Moreira Salles pode dar o pontapé inicial para a recuperação do clube.

O sucesso do plano depende da constituição de um fundo em que os investidores "compram" a dívida dos credores. O clube deve aos Moreira Salles. Em 2018, eles emprestaram R$ 30 milhões para o CT.

João Moreira Salles durante workshop sobre documentários no auditório Folha, em 2019
João Moreira Salles durante workshop sobre documentários no auditório Folha, em 2019 - Zanone Fraissat/Folhapress

O projeto de agora visa criar uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) com duração de 30 anos para cuidar do futebol do clube. A nova empresa, uma sociedade anônima, levantaria recursos para arcar com as dívidas em curto prazo (cinco anos) do Botafogo, hoje em torno de R$ 350 milhões. Em longo prazo, outros R$ 400 milhões em 25 anos apenas para dívidas.

"O projeto fala em injeção no curto prazo de R$ 300 milhões, R$ 400 milhões para pagamento no ato de dívidas, todas as tributárias, cíveis, esportivas e fiscais remanescentes. Em 30 anos, o pagamento de toda dívida que vença depois de 2025, como o Profut e dívidas comuns. Entre 2036 a 2050, que se daria o final dos 30 anos de operação, o Botafogo receberia da SPE royalties livres para utilizar como quiser", disse Alexandre Rangel, sócio líder para a Indústria de Esportes da EY no Brasil.

A ideia para reestruturar o Botafogo baseia-se na criação dessa SPE composta por investidores que queiram operar de forma transitória no clube por um período de até 30 anos. Seriam responsáveis por bancar o futebol e outros esportes, e em troca, teriam direito de imagem dos distintivos do clube, transferência dos contratos dos atletas, transferência dos cadastros desportivos para disputar, como Botafogo, todas as categorias do futebol.

Nos primeiros cinco anos, o foco seria manter o Botafogo na primeira divisão, com aportes anuais de até R$ 30 milhões no primeiro triênio, suficientes para o clube brigar pelo meio da tabela do Brasileiro.

O cineasta Walter Salles durante entrevista à TV Folha, em 2012
O cineasta Walter Salles durante entrevista à TV Folha, em 2012 - Reprodução/TV Folha

"Não é o objetivo fazer contratações ou fazer um supertime, e sim uma recuperação financeira nesses cinco anos para que tenha menos riscos de ser rebaixado", disse Rangel.

Já são 19 nomes tratados como potenciais investidores do projeto. Apesar de realizarem aportes na sociedade anônima, eles não poderão opinar no futebol. O entendimento é que tem que ser uma gestão profissional, com profissionais contratados pelo clube.

O estudo vem sendo comentado diariamente nos bastidores do Botafogo. Presidente da Câmara dos Deputados e conselheiro do clube, Rodrigo Maia (DEM) vê com bons olhos a criação de uma sociedade anônima para cuidar apenas do futebol, mas ainda tem ressalvas.

"Tenho a preocupação de que os outros que tentaram construir um clube empresa quebraram, pois é quase impossível competir com clube associativo. Um tem incentivo e não paga imposto, o outro paga. Mas certamente Moreira Salles sabe fazer conta melhor que eu. Certamente eles fizeram a conta correta, graças a Deus é no meu clube, que de fato está inviabilizado", apontou Maia.

O projeto ainda precisa de aprovação entre os conselheiros. Na prática, o atual Botafogo passaria a cuidar apenas do social, enquanto a nova empresa que disputaria os torneios teria que ingressar no calendário apenas quando nenhum campeonato estivesse em disputa –portanto, apenas entre dezembro e janeiro.

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