Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Longe da elite, Série A tem 20% dos técnicos há mais de 1 ano no cargo

Nove de 20 equipes já trocaram de treinadores na atual edição do Brasileiro

Paulo Vinicius Coelho
Rio de Janeiro

O Campeonato Brasileiro parou no dia 13 de junho, para a disputa da Copa América, com um recorde: apenas duas mudanças de treinador em nove rodadas.

Um mês depois de a seleção de Tite comemorar o título continental, já houve mais sete trocas. No dia 5 de agosto, Luiz Felipe Scolari fez aniversário no comando do Palmeiras. Naquele dia, a Série A contava com o recorde de seis treinadores no mesmo clube há mais de 12 meses: Mano Menezes, Renato Gaúcho, Rogério Ceni, Tiago Nunes, Odair Hellmann e Luiz Felipe.

Agora, são quatro.

Mano Menezes pediu demissão na quarta-feira (7), depois de perder para o Internacional pela Copa do Brasil. Rogério Ceni deixou o Fortaleza para assumir seu lugar. Não se trata apenas de clubes sem planejamento, porque também há treinadores que optam por trocar de emprego.

Independentemente da culpa, há uma epidemia. Romildo Bolzan é presidente do Grêmio, time que mantém um técnico há mais tempo no futebol brasileiro: "A manutenção só nos trouxe benefícios. Mas tem a ver com a escolha. Renato tem identidade com o clube e isso traz entendimento da torcida", afirma. 

Entre os técnicos, a queixa é de que não há tempo para implementar estilo de jogo e de treinos. Em nenhum dos países com as maiores ligas, o ritmo de mudança é tão comum como no Brasil.

"Entendemos que era o momento e não poderíamos estender mais essa fase", afirmou Mano Menezes ao deixar o Cruzeiro.

A fala do técnico é muito parecida com a de muitos dirigentes ao justificar trocas no comando dos clubes. O prognóstico comum é de que chega uma hora em que mudar é a melhor solução.

"[Trocar o técnico] é uma das coisas que atrasa, sim. O clube acha que ao fazer as coisas de qualquer jeito vão ganhar", afirmou Fernando Diniz, demitido do Fluminense. 

No cargo há 21 meses, Odair Hellmann, do Internacional, é o treinador há mais tempo no comando do clube desde Rubens Minelli, que deixou a equipe em 1977. "Hoje é mais fácil perder um jogador e substituí-lo, porque a equipe conhece muito melhor a maneira de jogar", diz o atual técnico do time gaúcho.

Mano Menezes, ex-técnico do Cruzeiro que se demitiu em agosto
Mano Menezes, ex-técnico do Cruzeiro que se demitiu em agosto - Douglas Magno - 29.ago.2018/AFP

Em toda a trajetória dos pontos corridos com vinte clubes na elite, só no início de 2009 e no final de 2013 a Série A teve mais técnicos mantidos por um ano do que agora. Há dez temporadas, o Brasileiro começou com Mano Menezes (Corinthians), Renê Simões (Coritiba), Adílson Batista (Cruzeiro), Vanderlei Luxemburgo (Palmeiras), Muricy Ramalho (São Paulo).

Muricy foi demitido na sexta rodadas, Luxemburgo, na sétima e Renê Simões, na 18ª. Quando o Flamengo festejou o troféu, em dezembro de 2009, só dois dos 20 clubes tinham treinadores no cargo há um ano ou mais. O campeão, por exemplo, tinha começado a temporada com Cuca e terminou com Andrade.

No final da temporada 2013, quatro treinadores tinham 12 meses no cargo: Cuca (Atlético-MG), Oswaldo de Oliveira (Botafogo), Tite (Corinthians), Abel Braga (Fluminense). Marcelo Oliveira foi o campeão e estava havia 11 meses no Cruzeiro.

Dos 16 Brasileiros disputados por pontos corridos desde 2003, só quatro vezes o campeão trocou de técnico durante a campanha: Santos (2004), Corinthians (2005), Flamengo (2009), Palmeiras (2018).

O contraste com as ligas europeias chama atenção. Na Inglaterra, 13 dos 20 clubes não mudaram de treinador na última temporada. Na Espanha, houve onze mudanças em 38 rodadas. Mas 12 clubes não trocaram de técnico.

Na Argentina, 11 de 26 participantes mantiveram seu comando do início ao fim. Dos 15 que trocaram, três esperaram o final do contrato.

No Brasileiro de 2018, houve 29 mudanças em 38 rodadas. Dos 20 participantes, 17 trocaram. Só Grêmio, Internacional e Cruzeiro não mudaram.

Jorge Jesus foi técnico do Benfica por seis anos, entre 2009 e 2015. No mesmo período, ele ganhou três títulos nacionais pelo clube e perdeu outros três. Sua equipe atual, o Flamengo teve 13 técnicos e venceu um Brasileiro.

Questionado se acredita que o clube e a torcida do Flamengo podem ter o entendimento de que perder é parte do processo de fortalecimento de um time, Jesus é direto. "Neste momento, não acredito".

Em maio, o técnico campeão da Champions League, Jurgen Klopp, comentou a falta de continuidade dos treinadores no Brasil. 

"O que eu posso dizer é que o que os clubes brasileiros estão fazendo está muito errado. Se você está interessado em evolução no futebol, precisa saber que isso leva tempo. Se você não dá tempo aos jogadores, você não consegue nada", afirmou.

Contratado em 2015 pelo Liverpool, o alemão levou quatro anos para ser campeão. Em maio, levou o clube inglês ao título da Champions League. No ano anterior, chegou na final da competição, mas perdeu para o Real Madrid.

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