Descrição de chapéu The New York Times

Selfie supera autógrafo e vira rotina na seleção feminina dos EUA

Campeãs do mundo atendem a filas de pedidos ao fim de suas partidas

Andrew Keh
Nova York | The New York Times

As selfies estão superando os autógrafos como objetos de coleção esportiva, e as jogadoras da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, que interagem com a torcida tão intensamente quanto qualquer time do planeta, estão se tornando cada vez melhores na arte da selfie.

O futebol moderno exige uma coleção de talentos cada vez mais variados. As jogadoras de todas as posições agora precisam ter um bom toque de bola, capacidade pulmonar para arrancadas explosivas e —se você integra a seleção feminina de futebol dos Estados Unidos—, talento para tirar rapidamente dezenas de selfies bem enquadradas.

Quem fica depois das partidas da atual excursão da seleção para celebrar sua vitória na Copa do Mundo da França não terá dificuldade para testemunhar uma das cenas que resumem o século 21.

A cerca que separa as arquibancadas do gramado estará lotada de pessoas à espera da sessão de selfies daquela noite. Os torcedores passam seus celulares para as jogadoras em campo, e elas assumem a responsabilidade de registrar uma foto que o torcedor guardará com carinho.

O ritual se tornou uma experiência comum em dias de jogo, para atletas de diversos esportes, e as imagens registradas pelos atletas vão parar no Instagram e Twitter. Mas as mulheres da seleção americana de futebol estão entre os praticantes de selfies mais ativos e entusiásticos do mundo do esporte, em parte, dizem, por causa da abordagem carinhosa e próxima do time quanto às interações com torcedores. Cada torcedor feliz, elas compreendem, representa mais um bloco para a construção de seu esporte.

"Nos dois últimos anos, a presença cresceu muito", disse a zagueira Abby Dahlkemper, sobre as pessoas que solicitam selfies depois das partidas. "Para a geração mais jovem, é isso que eles fazem, uma selfie, uma conversa no Snapchat, a captura de um momento ou lembrança".

No passado, todos esses torcedores estariam pedindo autógrafos. Alguns ainda o fazem, e os membros da equipe de apoio da seleção garantem que as jogadoras tenham canetas à mão depois do apito final para facilitar atender a esses pedidos.

Mas as selfies terminaram por suplantar os autógrafos como lembrança mais procurada, na maior parte dos encontros com celebridades. Taylor Swift ajudou a sinalizar o final de uma era, alguns anos atrás, ao declarar que os autógrafos eram "obsoletos".

"Não me pedem um autógrafo desde que inventaram o iPhone com câmera frontal", escreveu Swift em um artigo de opinião para o The Wall Street Journal. "A única lembrança que essa 'garotada de hoje em dia' quer é uma selfie".

Essa mudança, alertam as jogadoras da seleção americana, não deixa de causar dificuldades. Pergunte a qualquer uma delas sobre as complicações de atender a uma fila de pessoas em busca de selfies no pós-jogo, por exemplo, e talvez você ouça a questão da perspectiva fotográfica discutida com uma ponta de arrependimento.

"Não é legal, porque o ângulo não ajuda", disse a meio-campista Rosie Lavelle, uma das estrelas reveladas na Copa do Mundo. "As pessoas estão mais acima e o celular está embaixo, e assim a foto nunca sai boa". Ela suspira. "Mas a foto não é para mim, e por isso tudo bem".

A zagueira Emily Sonnett aponta que as selfies podem demorar mais que os autógrafos, especialmente quando o torcedor é que enquadra a foto. Os segundos perdidos aqui e ali logo se acumulam, quando a torcida é grande.

Essa é uma razão para que a fila da selfie tenha adquirido sua forma atual nos jogos da seleção feminina americana, com as jogadoras, a bem da eficiência, muitas vezes estendendo as mãos para apanhar os celulares dos torcedores, e se encarregando elas mesmas de registrar as fotos.

"As crianças se viram para trás e pedem que seus pais tirem a foto, e os pais se atrapalham com a câmera", disse a meio-campista Sam Mewis, "e por isso é mais rápido e fácil, e você consegue atender mais gente, se apanhar o celular e tirar a selfie diretamente".

Algumas interações são mais tranquilas. Outras se complicam antes mesmo de começar.

"Se a pessoa não tem um iPhone, não sei o que fazer", disse Mewis. "E às vezes a pessoa simplesmente lhe entrega o celular e você tem que pedir que ela coloque o código de desbloqueio.

"Tento não derrubar o aparelho", diz Dahlkemper.

 

As principais jogadoras da seleção americana são reconhecidas até mesmo por suas colegas de equipe como algumas das melhores operadoras de câmeras frontais.

Depois de um amistoso preparatório para a Copa do Mundo, este ano em Alicante, na Espanha, uma enorme multidão de torcedores se formou nas fileiras de arquibancada próximas do gramado. E o que veio a seguir foi uma aula prática de como administrar uma fila de selfies.

Alex Morgan foi para a esquerda, Carli Lloyd para a direita, e as duas caminharam ao longo da arquibancada, de costas para a grade. Os torcedores estendiam seus telefones para dentro do campo, esperando que uma das jogadoras os apanhasse.

A destreza exibida pelas atletas era elogiável. A tarefa exigia tanta compostura e coordenação quanto qualquer manobra de futebol: sorriso, clique, passe, sorriso, clique, passe, rapidinho, vezes sem conta, até que cada torcedor tivesse uma foto.

"Você precisa ouvir os gritos dos torcedores quando eles conhecem alguém como Alex ou Carli", disse Mewis. "É um dia feliz para essas pessoas".

As jogadoras passam por isso, em parte, porque muitas delas estiveram do outro lado da barreira um dia. Mewis, quando jovem, adorava uma foto autografada da atacante Cindy Parlow. ("Eu mantive aquela foto emoldurada comigo por tempo demais, até bem depois dos 20 anos", ela disse.) Sonnett ainda tem um frisbee autografado por Hope Solo, Marta, Lloyd e diversas outras estrelas do futebol.

Quer em partidas dos Estados Unidos, quer em outros lugares nos quais as principais jogadoras do planeta se enfrentem, as atletas sabem que servem como embaixadoras espirituais do futebol feminino,
"Jogar nessa seleção tem um certo peso, em termos de nossa presença pública", disse a zagueira Becky Sauerbrunn, "e a oportunidade de inspirar pessoas é uma das benções de estar nesse time".

Mas há preocupações pragmáticas, por trás dessa abertura.

"Dar aos torcedores uma boa experiência é grande parte de como tornaremos esse esporte mais lucrativo e continuaremos a expandi-lo", disse Mewis. "Alguns dos torcedores podem ter 10 anos agora, mas continuarão a torcer quando adultos, e serão eles que comprarão os ingressos e gastarão dinheiro em coisas como camisas dos times".

Ser parte da seleção significa interagir com os torcedores, portanto, e hoje em dia isso significa tirar selfies.

Sonnett, que se dá nota "oito, no máximo", em sua habilidade com a câmera do iPhone, tem três dicas rápidas para qualquer atleta que pretenda tirar uma selfie no estádio: primeira, faça o possível para elevar o ângulo (em alguns casos, isso é uma causa perdida). Segundo, evite a luz solar direta, ou a foto mostrará só um clarão. Terceiro, se você não sabe bem de quem é o celular que está segurando, estenda bem o braço na direção de todo o grupo, para aumentar a probabilidade de que o dono do aparelho esteja no quadro.

Mesmo assim, não é uma ciência exata, especialmente  quando outras pessoas estão esperando. "Você precisa dizer às pessoas que a foto ficou boa o bastante", disse Sonnett.

Tradução de Paulo Migliacci

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