Descrição de chapéu The New York Times

Jogadoras dos EUA deveriam ganhar mais que homens, diz New York Times

Para o jornal, mesmo igualdade não refletiria superioridade da seleção feminina

Nova York | The New York Times

O jornal americano The New York Times publicou um editorial nesta segunda-feira (8) em que defende pagamentos maiores à seleção feminina de futebol dos EUA em comparação ao que recebe o time masculino do país.

As americanas conquistaram no domingo (7) o tetracampeonato na Copa do Mundo e o segundo título de forma consecutiva. "É embaraçoso que a federação não tenha resolvido essa injustiça, permitindo que a alegria da celebração pela vitória do domingo seja maculada pela realidade do tratamento injusto", diz o texto.

Leia na íntegra a opinião do The New York Times:

Paguem logo as mulheres

É difícil compreender o argumento de que a seleção de futebol feminino dos Estados Unidos deveria receber o mesmo pagamento que a seleção masculina.

As mulheres são muito melhores. Deveriam receber mais.

No domingo, as 23 mulheres selecionadas para representar os Estados Unidos na Copa do Mundo de 2019 venceram a Holanda e concluíram um percurso dominante que as levou ao título. É o segundo título consecutivo dos Estados Unidos no torneio quadrienal.

Durante a comemoração, torcedores gritavam "salário igual", destacando o fato de que a Federação de Futebol dos Estados Unidos, que emprega os integrantes da seleção masculina e da seleção feminina de futebol, há muito tempo paga mais aos homens. Megan Rapinoe, artilheira e escolhida como melhor jogadora da copa, usou seu momento de triunfo para apelar que a federação "coloque as coisas no caminho certo para o futuro", dando um aumento às jogadoras da seleção feminina.

Rapinoe e suas companheiras também recorreram à Justiça, abrindo processo contra a federação em março por discriminação de gênero. As queixas vão além do pagamento. Segundo o processo, a federação também investe menos nas instalações de treinamento, arranjos de viagem e tratamento médico da seleção feminina.

É embaraçoso que a federação não tenha resolvido essa injustiça, permitindo que a alegria da celebração pela vitória do domingo seja maculada pela realidade do tratamento injusto.

Comparações salariais são complicadas porque as seleções masculina e feminina têm contratos negociados em separado. As integrantes da seleção feminina recebem salários da Federação de Futebol dos Estados Unidos para jogar pela National Women's Soccer League e remuneração adicional por jogarem na seleção. Os homens só recebem remuneração por jogarem na seleção.

Nos termos do atual contrato da seleção feminina, que entrou em vigor em abril de 2017, mulheres e homens receberiam pagamentos iguais se as duas seleções jogassem 20 partidas —e perdessem todas elas. Mas a cada vitória, a disparidade de remuneração dos homens cresceria.

As mulheres podem faturar mais em um dado ano, como deve acontecer este ano. Mas isso só acontece porque suas realizações são muito superiores. Em termos de uma escala de sucesso comparável, as mulheres ganham menos.

Boa parte do debate sobre a disparidade de remuneração gira em torno da receita. Os dirigentes argumentam que a seleção masculina deveria simplesmente ser encarada como um negócio de maior sucesso.

Mas mesmo sob esse critério, é possível argumentar que as mulheres estão sendo prejudicadas. Não se sabe, por exemplo, como a Federação de Futebol dos Estados Unidos trata os patrocínios que cobrem ambas as equipes.

As jogadoras americanas Julie Ertz (à esq.), Megan Rapinoe (centro) e Alex Morgan comemoram o título mundial na chegada ao país
As jogadoras americanas Julie Ertz (à esq.), Megan Rapinoe (centro) e Alex Morgan comemoram o título mundial na chegada ao país - Eduardo Munoz/Reuters

De qualquer forma, é errado usar a receita como referencial.

A Federação de Futebol dos Estados Unidos é uma organização sem fins lucrativos, isenta de tributação porque serve a um propósito social: "Tornar o futebol, em todas as suas formas, um esporte proeminente nos Estados Unidos".

Deveria ser evidente para as pessoas que dirigem a federação que a seleção feminina está cumprindo essa missão no mínimo tão bem quanto a masculina.

A seleção feminina de futebol, como outras equipes e seleções nacionais, também representa os Estados Unidos. As mulheres que usam as cores do país são embaixadoras na cena internacional. O desempenho delas influencia as percepções sobre os Estados Unidos. Milhões de pessoas em todo o mundo assistiram no domingo a uma equipe de mulheres fortes e talentosas, disputando a partida com muita determinação e espírito esportivo, e depois comemorando livremente.

Ao tratar essas mulheres como cidadãs de segunda classe, a federação afirma alguma coisa sobre o país. E tem a oportunidade de fazer afirmação muito diferente se retificar a situação.

Atletas devem receber a mesma recompensa pelas mesmas realizações, e não importa o gênero.

Jogadoras dos EUA comemoram o título em Lyon, na França
Jogadoras dos EUA comemoram o título em Lyon, na França - Philippe Desmazes/AFP

A Copa do Mundo representa um desafio especial porque boa parte do dinheiro vem da Fifa, a organização internacional que monta o torneio e distribui os proventos dos direitos de transmissão e dos contratos de patrocínio às federações nacionais. E o dinheiro envolvido em uma Copa do Mundo masculina é maior do que o dinheiro envolvido em uma Copa do Mundo de futebol feminino.

Na seleção americana, as jogadoras receberam uma premiação de US$ 37,5 mil (R$ 142,5 mil) por chegarem à Copa do Mundo de 2019, enquanto os homens teriam recebido US$ 68,75 mil (R$ 261 mil) caso tivessem levado os Estados Unidos à Copa do Mundo masculina de 2018.

A Fifa também deveria ser responsabilizada pela falta de avanço quanto à igualdade entre os gêneros. Mas não há necessidade de esperar. A Federação de Futebol dos Estados Unidos estaria enviando uma mensagem forte ao equalizar esses pagamentos.

E a seleção masculina quer ajudar. Em 2017, a Noruega concordou em instituir pagamentos iguais para as seleções masculina e feminina. Para tornar possível a ideia, a seleção masculina concordou em dividir sua receita de patrocínio. Admiravelmente, os atletas concordaram em receber menos por um questão de princípio. O sindicato que representa os jogadores da seleção masculina americana endossou o mesmo conceito.

Disparidades salariais são um problema persistente na sociedade americana. O caso da seleção de futebol é só um exemplo incomumente claro e público do fato. A federação agora tem a oportunidade de criar um exemplo claro e público —ao finalmente fazer a coisa certa.

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