Descrição de chapéu Futebol Internacional

Eventos esportivos não escapam de tensões políticas em Israel

Ronaldinho, Kaká e Rivaldo foram as estrelas de 'Jogo da Paz' realizado no país

Daniela Kresch
Tel Aviv

A paz reinou no gramado do estádio Sammy Ofer, em Haifa (norte de Israel), pelos 70 minutos do “Shalom Game”, um amistoso com veteranos do futebol do Brasil e de Israel que atraiu 28 mil pessoas —muitos deles brasileiros que vivem no país.

A seleção de ex-jogadores brasileiros venceu a dos israelenses por 4 a 2, mas ninguém ficou decepcionado. O que os torcedores queriam era ver de perto 14 ídolos do passado, entre eles Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Rivaldo, Bebeto, Roberto Carlos e Cafu.

Segundo os organizadores, o “Shalom Game” (Jogo da Paz) tinha o objetivo de “promover a amizade, a camaradagem, a harmonia e a unidade”.

O evento foi realizado pela MTR7, do empresário brasileiro Mauro Rozenszajn.

O nome escolhido poderia dar a entender que se tratava de uma partida para promover a paz entre israelenses e palestinos. Sem a presença de palestinos, no entanto, é possível que o foco tenha sido o de promover a coexistência de jogadores árabes e judeus no futebol local.

Kaká se livra da marcação do israelense Moshe Sinai durante o 'Shalom Game'
Kaká se livra da marcação do israelense Moshe Sinai durante o 'Shalom Game' - Jack Guez/AFP

Boa parte dos jogadores de Israel faz parte da minoria árabe do país (20% da população), em que há um histórico de torcidas organizadas preconceituosas.

Para as autoridades israelenses, no entanto, o maior gol do “Shalom Game” foi ver o carnaval midiático em torno da partida amistosa, com repórteres esportivos emocionados em entrevistar ícones do esporte mundial, que, por sua vez, retribuíram: “Gostei muito daqui e quero voltar”, disse Ronaldinho à TV israelense. “I love you, Israel”, completou Cafu.

A presença de tantos nomes famosos no gramado ameniza a sensação dos israelenses de que o mundo vê o país apenas como um local de conflitos, guerra e violência.

“É muito importante trazer jogadores desse calibre e mostrar, através deles, essa realidade. Se a paz é um objetivo político, então temos um objetivo político. Queremos falar sobre a paz com jogadores enormes como esses, cujas vozes são escutadas mais do que as nossas”, disse à Folha o ex-jogador e ídolo do futebol israelense Itzik Zohar, um dos que entraram em campo.

Para Kaká, o nome do evento é uma ode ao poder do esporte para desatar nós políticos. “A ideia é passar os valores que o futebol consegue transmitir. Sabemos que o futebol pode unir povos, neutralizar situações de conflito”, afirmou.

Certamente, a política e o futebol andam lado a lado em Israel. Os posts publicados por Ronaldinho Gaúcho no Instagram sobre o Jogo da Paz se tornaram um campo de embate pró-Israel ou pró-Palestina, com comentários como “Free Palestine” (Palestina Livre) de um lado e “Long live Israel” (Vida longa para Israel), de outro.

Ronaldinho Gaúcho cumprimenta torcedores durante partida em Israel
Ronaldinho Gaúcho cumprimenta torcedores durante partida em Israel - Jack Guez/AFP

Não há evento internacional no país que não inclua embates na internet, ameaças de boicote ou até de ataques físicos. Foi o que aconteceu, por exemplo, em junho de 2018, às vésperas da Copa da Rússia, quando a seleção da Argentina cancelou, na última hora, um amistoso em Israel por causa de ameaças feitas contra Lionel Messi e sua família por militantes pró-palestinos.

O evento foi relembrado nesta semana, após o anúncio dos argentinos de que planejam jogar em Tel Aviv no dia 19 de novembro, em amistoso contra o Uruguai. Eles só não contavam com a surpreendente oposição da Associação de Futebol de Israel, que reclama da data e é contrária à realização da partida.

O motivo apresentado é que nesse mesmo dia duas seleções israelenses vão jogar. Uma no exterior (a principal, contra a Macedônia) e outra no próprio país (a sub-21 contra a Espanha). A oposição pegou de surpresa os torcedores ávidos por ver Messi e Cavani no país, e ainda não há uma definição sobre o caso.

Na época do cancelamento de 2018, alguns culparam o governo de Israel, que transformou o evento em fato político ao transferi-lo de Haifa para Jerusalém, a capital israelense não reconhecida pela ONU e disputada com os palestinos. A ideia era que a partida celebrasse o 70º aniversário de independência do país.

O presidente de Federação Palestina de Futebol e do Comitê Olímpico Palestino, Jibril Rajoub, comemorou o cancelamento do jogo, mas foi alvo de investigação da Fifa por ter pedido a torcedores que queimassem fotos de Messi e camisas da seleção argentina.

Ex-jogadores de Israel e Brasil que participaram de amistoso em Haifa
Ex-jogadores de Israel e Brasil que participaram de amistoso em Haifa - AFP

O esporte é uma das plataformas mais usadas pelos palestinos na defesa de suas causas. A Fifa admitiu a Federação Palestina em 1998, sendo a primeira organização internacional a reconhecer a Palestina como Estado, 13 anos antes do reconhecimento pela Assembleia Geral da ONU (2011).

Desde então, os palestinos tentam suspender Israel da organização, sob alegação de que o país restringe a movimentação dos jogadores palestinos e aceita a participação, no campeonato interno, de times de colônias na Cisjordânia –consideradas ilegais pela ONU.

Já os israelenses reclamam de “uso cínico” do esporte pelos palestinos para fins políticos: “Imaginem se todos em conflito exigissem a suspensão um do outro?”, questionou o presidente da Associação Israelense de Futebol, Ofer Eini.

A política marca o futebol regional desde antes da criação do Estado de Israel, em 1948. A primeira agremiação foi criada em 1928: a Associação de Futebol da Palestina. Jogadores árabes e judeus competiam juntos ou entre si, em geral, pacificamente.

A partir da Revolta Árabe (1936-1939), porém, quando as duas populações passaram a se estranhar com mais intensidade, os caminhos se separaram também na bola.

Em maio de 1944, foi fundada a Associação Desportiva Palestina, mas a Fifa não reconheceu, exigindo a criação de uma associação neutra, sem ser liderada por árabes ou judeus. A criação de Israel, em 1948, engavetou essa ideia.

A Associação de Futebol de Israel (AFI) foi criada no mesmo ano e só admitida em 1954 pela Fifa. Mas, por pressões de países árabes, acabou suspensa em 1974 da Confederação Asiática de Futebol. Só em 1992 foi admitida na União das Federações Europeias de Futebol (Uefa), onde joga até hoje.

Política à parte, as duas seleções têm algo em comum: a falta de destaque internacional. O time israelense ocupa a 89ª posição no ranking da Fifa, só um pouco adiante dos palestinos (99ª).

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.