Descrição de chapéu DeltaFolha

No Brasileiro, 80% dos times trocam de técnico durante torneio

Com demissões, há treinadores que passaram por mais de 10 equipes em 5 anos

Alex Sabino Daniel Mariani João Gabriel
São Paulo

Cada vez que é contratado por um clube, Claudinei Oliveira, 50, tem decisões a tomar. Levar família? O que fazer com o filho Rafael, 9, em idade escolar? Preparar-se para um trabalho de longo prazo ou viajar sabendo que a aventura não vai durar?

Entre 2014 e o final de 2018, ele passou por nove clubes. Na atual temporada, trabalhou no Goiás, na Série A do Brasileiro. Apesar de ter tido rendimento que considera bom, de quase 50% de aproveitamento de pontos, foi dispensado no início de agosto.

“Se o filho for te acompanhar em todos os clubes você terá de matriculá-lo em três escolas por ano, ele vai procurar novos amigos o tempo inteiro. É difícil para quem é adulto se adaptar. Para uma criança então...”, diz o treinador, no momento desempregado e descansando em Araras (a 168 km de São Paulo).

Levantamento da Folha apontou que o caso de Claudinei é comum no futebol brasileiro. Na Série A, de 2014 a 2018, 80% dos times mudaram o treinador durante a competição. Nas cinco temporadas, 117 treinadores trabalharam nas equipes da primeira divisão. Na Série B, foram 147.

 

Em nenhuma das maiores ligas da Europa (Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha, Portugal e França) houve mais de 90 treinadores no período.

Ninguém trocou mais de emprego no futebol brasileiro durante essa época do que Wagner Lopes, 50. Ele passou por Botafogo-SP, Criciúma, Atlético-GO (3 vezes), Goiás, Bragantino, Sampaio Corrêa, Paraná (2 vezes), Albirex Niigata (JAP) e Joinville.

É uma média de 2,4 clubes por ano, o que impede o profissional de criar raízes em qualquer cidade. Dentro das recompensas possíveis, uma delas é ser chamado para equipe na qual já esteve antes. Como aconteceu com Lopes, que hoje disputa a Série B com o Atlético-GO.

“Minha base é em São Paulo e a minha família vai me visitar de vez em quando. É difícil porque a cada três dias você coloca o emprego [em jogo] durante 90 minutos. É uma carreira muito solitária. O torcedor brasileiro não ama o clube. Ele ama o resultado”, diz o profissional que, como atacante, disputou a Copa do Mundo de 1998 pelo Japão.

“Não adianta você trocar de cidade ou de estado achando que vai ficar dois ou três anos. Isso não existe. Um domingo qualquer você vai embora”, concorda Lisca, sem clube desde que foi dispensado pelo Ceará neste ano. Desde 2014, passou por dez equipes.

Os profissionais ouvidos pela Folha afirmam que as multas em contrato são a única forma de obter alguma segurança financeira. “Nunca fiquei sem receber as multas, mas tenho vários companheiros que sofrem com isso”, completa Claudinei.

Na última quinta (3), Marcelo Cabo viveu mais uma vez essa decorrente rotina. Ele chegou para trabalhar no Vila Nova-GO e soube que seria demitido após menos de três meses no cargo .

 

“Confesso que fui até pego de surpresa. Cheguei para dar o treinamento e fui comunicado. Nossos últimos cinco jogos foram duas vitórias, dois empates e uma derrota”, disse sobre sua última demissão. O caso, segundo ele, não é incomum.

Foi surpreendente, mas nada a que já não esteja acostumado. Nos últimos cinco anos, Cabo trabalhou em 11 equipes, mesmo com dois trabalhos de mais de um ano no período (Atlético-GO e CSA). 

Todos os técnicos que mais rodaram no futebol brasileiro desde 2014 passaram pelas Séries A ou B do Brasileiro. Um deles, porém, só esteve na elite: Oswaldo de Oliveira.

Dispensado de oito agremiações até o final de 2018 e demitido no final de setembro deste ano pelo Fluminense, ele foi quem mais rodou no período, considerando-se só equipes da primeira divisão.

Procurado, não quis falar sobre o assunto por ainda estar “chateado” pela demissão do clube carioca, segundo sua assessoria de imprensa.

“Para a família do técnico, que acompanha isso, às vezes a distância, não é fácil. Você é julgado, mas será que a pessoa que te julga a cada partida entende realmente do assunto?”, questiona Wagner Lopes, se referindo aos cartolas.

O técnico do Atlético-GO se especializou em psicologia esportiva para entender a cabeça dos atletas e também para compreender melhor seu trabalho à beira do campo.

“Dirigentes são influenciados por pessoas que às vezes nem vão ao estádio. Usam redes sociais para reclamar, e o clube manda o técnico embora apenas para dar alguma satisfação”, reclama Claudinei.

Aos poucos, eles vão compreendendo quando a situação está próxima do fim. Desempregados, voltam para casa e convivem por algum tempo com a família. Até o telefone tocar novamente.
 

Metodologia 

Foram analisadas 25,6 mil escalações das cinco últimas temporadas finalizadas dos campeonatos Brasileiro, Inglês, Espanhol, Alemão, Francês e Português. Considerou-se que um técnico foi trocado quando um novo treinador apareceu na escalação presente no site ogol.com.br e o antigo treinador não voltou nos próximos três jogos (para evitar considerar suspensão de técnico como troca).

Foram descartadas as poucas escalações que não constavam um treinador (0,23% dos casos). Analisou-se também a temporada de 2018 do Campeonato Chileno, a única por pontos corridos concluída até o momento.

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