Descrição de chapéu Tóquio 2020

Rodrigo Pessoa digere decepção, encontra cavalo e mira 7ª Olimpíada

Cavaleiro buscará vaga em Tóquio-20 após ficar fora da Rio-16 e treinar Irlanda

Daniel E. de Castro
São Paulo

Após defender o Brasil em seis edições de Jogos Olímpicos, o cavaleiro Rodrigo Pessoa, 46, se acostumou a carregar outra bandeira nos últimos dois anos, período em que foi treinador da seleção da Irlanda.

Neste domingo (6), ele cumpriu seu último grande compromisso no comando do time europeu, que se classificou para Tóquio-2020 durante as finais da Copa das Nações.

Depois disso, as atenções do atleta se voltarão para garantir sua própria presença no Japão. Caso consiga uma vaga no time brasileiro de saltos, ele disputará sua sétima Olimpíada, um recorde no país —que também deverá ser alcançado pelo velejador Robert Scheidt, 46, no próximo ano.

Campeão olímpico em 2004 e medalhista de bronze com a equipe do Brasil em 1996 e 2000, Rodrigo Pessoa foi escolhido para carregar a bandeira do país em Londres-2012. Sua história nos Jogos, porém, sofreu um abalo antes da edição de 2016, realizada no Rio.

O americano George Morris, então técnico do time brasileiro, convocou Rodrigo Pessoa como reserva. A principal justificativa era que o veterano não possuía um cavalo à altura na comparação com os quatro conjuntos titulares.

O cavaleiro considerou a decisão injusta, preferiu abrir mão da posição de substituto e ficou fora de uma Olimpíada pela primeira vez desde a sua estreia, em 1992.

“Você precisa de tempo e apoio para digerir um tranco violento desses, mas o mais importante é se ocupar com outra coisa. O trabalho com a Irlanda foi primordial para conseguir me afastar um pouco da equipe brasileira. Dar um passo atrás foi bom para agora enfrentar novas aventuras com eles”, afirma Rodrigo à Folha.

Nesse período, sua principal realização foi conduzir os irlandeses a um título europeu após 16 anos. Ele continuou montando para se manter em forma, mas sabia que de nada adiantaria permanecer competitivo se não tivesse um cavalo em condições de disputar a Olimpíada de Tóquio.

Adquirir um animal adequado, que segundo pessoas ligadas ao hipismo não custa menos de 1 milhão de euros (R$ 4,5 milhões), é uma tarefa complexa. Desde o ano passado, o brasileiro passou a mirar Quality FZ, cavalo de dez anos de idade que pertencia a outro campeão olímpico, o canadense Éric Lamaze.

Rodrigo Pessoa com a bandeira da Irlanda, seleção treinada por ele, durante etapa da Copa das Nações
Rodrigo Pessoa com a bandeira da Irlanda, seleção treinada por ele, durante etapa da Copa das Nações - Christophe Bricot - 17.mai.19/AFP

Após recusas iniciais, em março deste ano o sócio de Lamaze concordou em vendê-lo a um proprietário americano, que por sua vez o disponibilizou para Rodrigo. Pesou na decisão o fato de Lamaze estar em tratamento após descobrir um tumor no cérebro.

Com a ajuda do mesmo investidor, o brasileiro ainda procura mais um animal de ponta até o fim do ano.

“O cavalo progrediu muito neste verão [do hemisfério norte] e ainda tem que melhorar para estar à altura, mas tem um enorme potencial. Formar um conjunto é a coisa mais difícil do nosso esporte. Tenho confiança que em maio eu possa me apresentar de uma maneira sólida para agradar a nossa comissão técnica”, diz o brasileiro.

A equipe nacional é comandada pelo suíço Philippe Guerdat, treinador da França campeã na Rio-2016 e pai de Steve Guerdat, campeão olímpico em 2012. Ele começará a definir o time para Tóquio no início do ano e terá que escolher apenas três titulares, já que houve diminuição no número de integrantes por país para a próxima edição.

Em agosto deste ano, nos Jogos Pan-Americanos de Lima, o time brasileiro medalhista de ouro tinha Marlon Zanotelli (também vencedor no individual), Pedro Veniss, Rodrigo Lambre e Eduardo Menezes.

Rodrigo Pessoa vê de oito a dez conjuntos nacionais concorrentes pelas vagas no Japão. O veterano conta que vibrou muito com a vitória de Marlon, 31, no Peru. Pedro Paulo Lacerda, diretor de salto na Confederação Brasileira de Hipismo, foi testemunha.

“Recebi uma ligação dele, dando os parabéns para o Marlon e dizendo que tinha acordado o hotel inteiro, porque já era madrugada na Europa”, conta o dirigente.

Após a tensão vivida com o americano Morris, Rodrigo, que mora com a família em Wilton (cidade nos EUA localizada a uma hora de Nova York), elogia Guerdat.

“Conhecimento e capacidade não têm fronteiras. Nacionalidade não importa, o que importa é ter alguém capaz de dar um estímulo novo para nossa equipe. Agora temos uma comissão técnica capaz, profissional e imparcial, que procura apenas o melhor resultado do Brasil”, afirma.

O suíço também mostra estar animado com a possibilidade de contar com o campeão olímpico, embora ainda adote cautela. Enquanto acompanhava um treino de jovens talentos na Sociedade Hípica Paulista, ele ressaltou que ninguém tem vaga garantida até o prazo final de convocação, no início de julho.

Apesar das dificuldades que muitos brasileiros enfrentam para encontrar o animal ideal, Guerdat se diz confiante no potencial humano à disposição: “Precisamos dos cavalos, mas, se os cavaleiros não são tão bons, apostar no cavalo é mais difícil para vencer campeonatos. Prefiro apostar nos melhores cavaleiros”, diz.

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