Descrição de chapéu The New York Times

Raquete que Serena Williams destruiu em final do US Open vai a leilão

Item foi dado a pegador de bolas, que o vendeu sem saber que seria leiloado

Stuart Miller
Nova York | The New York Times

Os tenistas quebram raquetes em momentos de raiva há muito tempo, mas nenhuma raquete destroçada reverberou mais do que a Wilson Blade que Serena Williams destruiu durante sua final do Aberto dos Estados Unidos contra Naomi Osaka, em 2018.

O rompante custou um ponto a Williams, o que deflagrou uma discussão entre a atleta e o juiz de cadeira que resultou em uma penalidade de um game contra ela. Williams terminou derrotada na partida, não muito tempo depois, o que deu início a uma grande controvérsia sobre sexismo, racismo e a aplicação das regras do tênis.

Agora aquela raquete se tornou um objeto incomum de coleção esportiva. Será colocada à venda na segunda-feira, pela Goldin Auctions. O lance inicial foi estipulado em US$ 2 mil (R$ 8,4 mil), mas a expectativa é de que a raquete atinja um preço de dezenas de milhares de dólares; o leilão estará aberto a lances até o dia 7 de dezembro.

Serena Williams foi punida após quebrar sua raquete na quadra da final do US Open, em 2018
Serena Williams foi punida após quebrar sua raquete na quadra da final do US Open, em 2018 - Danielle Parhizkaran - 8.set.2018/USA TODAY Sports

 “Creio que a expectativa mínima seja de US$ 10 mil (quase R$ 42 mil), e eu não ficaria surpreso se o valor de venda atingir os US$ 25 mil ou US$ 50 mil (R$ 105 mil ou R$ 210 mil)”, disse Ken Goldin, fundador da Goldin Auctions.

Em setembro de 2018, Williams, que estava jogando sua segunda final consecutiva de um torneio de Grand Slam no ano, em seu retorno ao circuito depois do nascimento de sua filha, quebrou a raquete no segundo set do jogo contra Osaka.

Ela havia perdido o primeiro set por 6 a 2, e no segundo game do segundo set recebeu uma punição por contato ilegal com seu treinador. A tenista contestou a marcação e não pareceu ter percebido que havia recebido uma advertência oficial.

Quando Williams desperdiçou uma breve vantagem, alguns games mais tarde, por conta do jogo descuidado, ela bateu com a raquete no piso da quadra —o que lhe valeu uma segunda falta e lhe custou um ponto.

Mas Williams não estava ciente disso ao se acomodar em sua cadeira antes de uma troca de quadra. Williams inicialmente largou a raquete no chão, de acordo com Justin Arrington Holmes, apanhador de bolas no Aberto dos Estados Unidos desde 2013, que àquela altura da partida estava trabalhando no lado da quadra ocupado por ela.

Foi só quando a tenista retornou à quadra e foi novamente informada do ponto perdido que a discussão com o juiz de cadeira Carlos Ramos se agravou. Ela terminou por chamá-lo de “ladrão”, o que lhe valeu uma terceira falta e uma penalidade de um game; Williams então chamou os dirigentes do torneio à quadra para defender seu ponto de vista.

O final caótico da partida conferiu um significado especial à raquete quebrada.

Holmes disse que falou com Williams depois da partida, e que eles tiraram uma foto juntos. Ela lhe disse que podia ficar com a raquete.

Holmes afirmou que Serena Williams e sua irmã Venus Williams sempre foram muito amistosas com ele ao longo dos anos.

“Muitos jogadores são simpáticos, mas alguns, como Venus e Serena, se importam um pouco mais, dizem 'oi' e fazem um esforço para descobrir seu nome e criar um relacionamento”, disse Holmes, que estuda medicina no Boston College e completará 22 anos neste mês.

O tênis é parte da vida dele há muito tempo. Ele aprendeu o esporte no Programa de Tênis e Educação Harlem Júnior, e depois jogou torneios pela Trinity School. Holmes serve como parceiro de treino para a equipe oficial de tênis do Boston College. Segundo ele, jogar em período integral atrapalharia seus estudos.

Depois do Aberto do Estados Unidos, Holmes guardou a raquete em seu armário e voltou para Boston. Algumas semanas atrás, ele encontrou a raquete quando estava limpando a casa. Um amigo sugeriu que ele a vendesse à Brigandi Coins and Collectibles, de Manhattan. Um dinheirinho extra sempre interessa a um universitário, e por isso Holmes levou a raquete à loja, onde, segundo ele, o comprador lhe disse que entendia pouco de objetos colecionáveis de tênis e não estava certo de que valor de revenda a raquete poderia ter.

A loja ofereceu US$ 500 (pouco mais de R$ 2 mil), e Holmes aceitou sem barganhar; ele escreveu uma carta certificando a proveniência da raquete, dizendo que Williams o “presenteou” com ela na conversa que tiveram depois do jogo.

Ele não pensou mais na raquete até que fosse contatado para este artigo, e ficou chocado ao descobrir que a peça seria leiloada por muito mais dinheiro.

“Em retrospecto, eu gostaria de que houvesse alguém que pudesse ter me ajudado no processo”, ele disse. “Não sei como essas coisas funcionam. Queria só me livrar da raquete”.

Chris Brigandi, que lidou com a raquete na loja, não foi localizado para comentar. Mas um empregado da loja disse que a raquete foi vendida e que a loja não era a responsável por colocá-la em leilão. Goldin disse que o vendedor queria permanecer anônimo.

Itens esportivos com conotações assim negativas são raro em leilões. Exceções notáveis incluem algumas recordações sobre o escândalo de manipulação de resultados da World Series do beisebol em 1919, o chamado “caso Black Sox”; o bastão quebrado que Roger Clemens jogou em Mike Piazza na World Series do beisebol em 2000; e a bola de futebol americano murcha que teve papel central no escândalo “Deflategate”, envolvendo Tom Brady.

A casa de leilões de Goldin leiloou a luva que foi usada por Bill Buckner quando ele não conseguiu evitar o “grounder” de Mookie Wilson na World Series de 1986 e o acordo assinado por Pete Rose quando ele foi excluído permanentemente da Major League Baseball, vendido por US$ 86 mil (R$ 361 mil) em 2016.

A casa de leilões não contata atletas para determinar a autenticidade dos itens que têm à venda —dados os 1,6 mil objetos envolvidos no leilão que inclui a raquete de Williams, isso seria um pesadelo logístico, disse Goldin, acrescentando que os atletas às vezes se irritam ao descobrir que alguma coisa associada a eles está sendo vendida.

Williams e seus representantes não responderam a múltiplos pedidos de entrevista para esta reportagem.

Além da carta de Holmes, disse Goldin, sua empresa contratou uma companhia que emprega fotos de alta densidade e alta resolução para determinar a autenticidade da raquete.

Embora Holmes não tenha mais direito à raquete, ele disse esperar que, caso ela seja vendida por dezenas de milhares de dólares, o atual proprietário não embolse todo o dinheiro.

“Eles poderiam doar alguns milhares de dólares para uma organização de caridade ou para uma instituição como a Harlem Junior Tennis”, disse Holmes. “Espero que eles pensem um pouco no bem comum”.

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