Atletas elevam tom e cobram esclarecimentos do presidente do COB

Eles criticam tentativas de mudanças que reduziriam atuação do conselho de ética

São Paulo

Em carta enviada ao presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Paulo Wanderley, a comissão de atletas da entidade (CACOB) subiu o tom das críticas a posições da atual diretoria. Na semana passada, o dirigente convocou uma assembleia geral extraordinária com o objetivo de aprovar um novo estatuto.

O documento a que a Folha teve acesso é assinado pelo presidente do órgão de representação, o ex-judoca Tiago Camilo, e pede esclarecimentos relativos a essa assembleia (chamada por eles de "desastrosa") e seu processo de convocação.

Procurado pela reportagem, Camilo confirmou o envio da carta e disse que todo o conteúdo dela foi deliberado internamente pelo colegiado de atletas. Ele espera que haja uma reunião com a diretoria do comitê para debater esses pontos na próxima terça-feira (10).

A minuta do estatuto que seria apreciada foi enviada aos membros da comissão e aos presidentes das confederações (integrantes do colégio eleitoral) apenas na noite anterior à votação, realizada na quinta-feira (28). "Fato que, indiscutivelmente, prejudicou a análise do documento em questão", afirma o documento dos atletas.

Entre as propostas de mudança do estatuto mais criticadas, e que acabaram rejeitadas na votação, estão as que tirariam poderes do conselho de ética, responsável por apurar denúncias, inclusive as ligadas à diretoria do COB. Também seria eliminado o cargo de gerente de compliance.

“Não se tente explicar o inexplicável. Nenhuma das mudanças propostas pelo COB têm a finalidade de melhorar a governança do COB. Nenhuma!”, diz trecho da carta, dos atletas, para quem as alterações criariam um “flagrante conflito de interesses”.

O presidente do COB, Paulo Wanderley
O presidente do COB, Paulo Wanderley - Ana Patrícia - 13.abr.19/Exemplus/COB

Sete dos 12 representantes da comissão de atletas com direito a voto participaram da assembleia e ajudaram a derrubar as mudanças citadas.

Apesar de o resultado ter sido tratado inicialmente como uma vitória, no dia seguinte à votação o comitê enviou aos membros do colégio eleitoral uma versão do estatuto aprovado que gerou ruídos, já que os seus participantes apontaram divergências na redação final em relação ao que realmente havia sido deliberado. O COB afirmou que cometeu um erro e encaminhou uma nova versão.

Em outro trecho da carta, a comissão de atletas pede que Paulo Wanderley explique “de forma direta, transparente e objetiva a quem interessa essas mudanças, quem foram os autores dessas propostas, inclusive apresentando para a CACOB e ao público em geral cópia dessas propostas assinadas pelos autores”.

A comissão deseja ainda ter acesso a gravações e à ata da reunião do conselho de administração do COB, que aprovou as propostas de mudança do estatuto na noite anterior à assembleia geral.

Na semana passada, após a votação, Paulo Wanderley negou ver o resultado como uma derrota da sua gestão. "De jeito nenhum. Estou aqui para acatar o que a assembleia decide. Ela é o poder maior do COB. Não foi derrota, foi o exercício da democracia", disse.

De acordo com ele, os órgãos e atribuições que hoje estão a cargo do conselho de ética permaneceriam existindo, mas por questões de afinidade de competência seriam transferidas ao conselho de administração.

Desde então, a diretoria do COB enfrenta uma série de questionamentos. Nesta quinta-feira (5), na entrega do prêmio da associação Sou do Esporte, em São Paulo, o vice-presidente do comitê, Marco La Porta, declarou que a condução da reforma do estatuto talvez tenha sido o principal equívoco da gestão de Paulo Wanderley.

Ex-vice-presidente de Carlos Arthur Nuzman, ele assumiu o comando em outubro de 2017, após a renúncia do antigo mandatário, acusado de participar da compra de votos para escolher o Rio de Janeiro sede da Olimpíada de 2016.

"Jamais foi intenção do COB e de seu conselho de administração andar para trás em termos de gestão, ética ou transparência. Pelo contrário, as propostas visavam a adequar nosso regimento às melhores práticas vigentes", afirmou La Porta.

Na semana passada também veio à tona, revelada pelo UOL, a informação de que a empresa de auditoria Kroll foi contratada pelo comitê para investigar denúncias que partiram de uma fonte anônima sobre suposta contratação irregular de serviços na área de tecnologia da informação da entidade.

Segundo o COB, "não houve qualquer desvio de recursos ou superfaturamento a partir dos contratos questionados". O Ministério Público apura o caso.

Procurada para comentar a manifestação dos atletas, a assessoria de imprensa do COB disse em nota que Tiago Camilo foi chamado pessoalmente pelo presidente Paulo Wanderley para uma reunião ainda nesta semana, mas não aceitou o convite por motivos pessoais.

O ex-judoca ficou licenciado por seis meses do cargo de presidente da comissão e retornou a ele na última segunda (2).

"No dia 10, a presidência e a diretoria do COB estarão à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas ainda persistentes", afirmou a entidade.

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