Descrição de chapéu The New York Times

Vizinho e fã pode tirar Slater de primeira Olimpíada com surfe

Maior campeão mundial disputa, aos 47 anos, vaga com John John Florence, 27

John Branch
Haleiwa | The New York Times

O veterano Kelly Slater e seu amigo John John Florence esperam participar do primeiro torneio olímpico de surfe, em Tóquio no ano que vem. O problema é que só existe vaga para um deles.

John John Florence, um dos melhores de sua geração, pode ver o pico de surfe mais famoso do planeta, Banzai Pipeline, na costa norte da ilha havaiana de Oahu, do deque de sua casa à beira-mar. Basta virar a cabeça ligeiramente para a direita.

“Olha só aquela onda”, ele gritou, recentemente, interrompendo o que vinha dizendo sobre o joelho direito, reconstruído cirurgicamente após lesão que o manteve afastado das competições desde junho.

O americano Kelly Slater durante etapa francesa do circuito da WSL
O americano Kelly Slater durante etapa francesa do circuito da WSL - AFP

Florence, 27, vem surfando e vendo o mar em Sunset Beach por toda a vida. A casa em que ele cresceu fica diretamente em frente a Pipeline. A mãe dele continua a morar lá, e Kelly Slater, 47, um surfista 11 vezes campeão mundial —mentor, amigo e rival de Florence– vive na casa ao lado. A pé, Slater chega lá em dois minutos.

Na sua infância e adolescência passadas em Pipeline, e no começo de sua trajetória como surfista, Florence sempre teve Slater como surfista profissional favorito, um mentor, amigo e rival. Mas nenhuma dessas palavras parece suficientemente precisa.

“Na casa da minha mãe, havia um gato que meio que vivia entre as duas casas”, disse Florence, contando uma história acontecida dois anos atrás, para ilustrar o relacionamento entre eles. “E um dia Kelly me chamou e disse que Kitty – o nome do gato era Kitty – tinha morrido, que ele tinha encontrado o corpo dele embaixo da casa. Ele veio nos ajudar a enterrar o gato, e disse algumas palavras em sua memória”.
Florence riu. As ondas estavam ganhando força.

“Ele é quase como um tio”, disse o surfista.

E assim, os dois afirmam, parece quase poeticamente apropriado que, no momento em que o surfe se prepara sua estreia olímpica, no ano que vem em Tóquio, eles estejam disputando a única vaga que resta na equipe dos Estados Unidos. A definição será na etapa do Havaí deste mês, em Banzai Pipeline, sobre ondas que varrem a areia diante das casas em que eles vivem.

Florence espera competir pela primeira vez desde junho deste ano. Em 2018, ele estava defendendo seu bicampeonato mundial quando lesionou o joelho. Ficou fora da segunda metade da temporada ao optar por repousar e não fazer uma cirurgia.  

Começou bem a temporada de 2019, venceu dois dos primeiros quatro torneios. Nas quartas de final da etapa do Rio, em junho, porém, ele saiu mancando da água. Tinha rompido o ligamento cruzado anterior. Seu joelho foi reconstruído usando ligamentos de seu tendão. A temporada e a vaga para a Olimpíada pareciam perdidas, não para Florence, que voltou a tempo de figurar com chances de ir ao Japão. 
  
Ele ainda não conquistou um título do Havaí– o que o irrita, porque ele cresceu mais perto de Pipeline do que qualquer outro surfista. Em baterias nas quais competiu diretamente contra Slater, venceu duas e perdeu seis, o que inclui zero vitórias e três derrotas em Pipeline. A última vez que eles se enfrentaram diretamente lá foi em 2013, na final do torneio.

O último título mundial de Slater foi o de 2011, o primeiro ano de Florence no Mundial. O surfista de 47 anos ficou com o vice-campeonato nas duas temporadas seguintes. Desde 2013, porém, não conseguiu posição melhor que um sétimo lugar, enquanto a coroa do surfe era transferida a outros atletas, como Florence e Gabriel Medina.

“Três anos atrás, fizemos uma viagem realmente bacana para as ilhas Marshall”, disse Florence, uma jornada retratada no filme “Proximity”. “Foi mais ou menos no momento em que eu estava desenvolvendo aquela mentalidade de que queria competir, e estava tentando descobrir o que devia fazer para vencer. Eu fiz um milhão de perguntas a ele, para descobrir tudo que ele sabia. Ele é muito competitivo, e por isso não dá para saber se o que ele me contou é verdade”.

 

Florence sorriu. Seu primeiro título mundial veio naquele ano, e ele repetiu o feito em 2017. O que ele aprendeu com Slater foi sobre estratégia – separar as grandes competições em porções menores, entrar em cada bateria para ganhar, pensar em uma onda de cada vez.

“Kelly conquistou seu primeiro título mundial no ano em que eu nasci”, diz, se referindo a 1992. Ele se detém, como se para permitir que a informação seja absorvida. “É uma loucura pensar nisso. Sempre que entro na água para competir com ele, penso nisso. Como é que ele continua na briga?”
 
Um dia mais tarde, na praia em Haleiwa, Slater estava entre baterias de um torneio chamado Hawaiian Pros, que serve como aquecimento para o Pipe Masters. A cada dia, enquanto durou o evento, a plateia que relaxava na areia se agitava a cada vez que ele aparecia na praia. Crianças com o cabelo descolorido pelo sol circulavam em torno dele como borboletas.

Ele procurou uma área silenciosa, à sombra, e ponderou o duelo esperado com Florence e os atrativos da Olimpíada.

“Seria a cereja no bolo”, disse Slater. “Surfar na Olimpíada, isso marcaria 40 anos de competição para mim, desde que disputei meu primeiro torneio, aos oito anos. Poder surfar nos Jogos seria um bom marco final para mim”.

O torneio olímpico de surfe só tem vagas para 20 homens e 20 mulheres. Metade das vagas masculinas (e oito das vagas femininas) serão determinadas pelo ranking da World Surf League (WSL) deste ano, que tem a etapa do Havaí como torneio de encerramento. As demais vagas serão distribuídas de acordo com os resultados de eventos organizados por outras entidades que não a WSL, no segundo trimestre do ano que vem.

Mas a o limite de duas mulheres e dois homens por país na competição. Isso significa que um dos três brasileiros  —Italo Ferreira, Gabriel Medida, Filipe Toledo—  que estão entre os quatro melhores surfistas do mundo ficará fora. 

Entre os homens americanos, o californiano Kolohe Andino garantiu uma vaga olímpica com uma temporada estelar na WSL, em cujo ranking ele ocupa o quinto posto. Florence, bicampeão mundial em 2016 e 2017, teve um segundo trimestre tão espetacular que continua em oitavo lugar no ranking, mesmo tendo ficado fora de metade dos torneios da temporada. Ele é o segundo colocado entre os surfistas americanos.

Slater ocupa o 10º posto no ranking geral do Mundial e não conseguiu superar Florence, a despeito da ausência do amigo durante o terceiro e o quarto trimestres. Sua melhor classificação na atual temporada foi um terceiro lugar no torneio de Bali, em maio. Slater não chegou nem às quartas de final de qualquer torneio, desde então.

“Estou sentindo uma pressão estranha em minha cabeça o ano todo”, diz o maior vencedor do surfe. “Você sabe como é. Pensando no assunto agora, percebo que eu não precisava ter me preocupado com isso o ano todo. Precisava pensar no momento que estava vivendo, a bateria que estava disputando, a onda que estava pegando”.

John John Florence durante etapa do circuito WSL no Havaí
John John Florence durante etapa do circuito WSL no Havaí - Reuters

A matemática é complicada, mas Slater precisa avançar algumas rodadas a mais do que Florence no Havaí para garantir a vaga. Existe até a probabilidade de que nenhum deles se qualifique; outro havaiano, Seth Moniz, está no 12º lugar do ranking.

“Kelly e Seth são duas pessoas a quem você não pode dar moleza em Pipeline”, disse Florence. “Especialmente Kelly, que é absurdamente competitivo. Isso me faz desejar muito estar lá, tomar parte do torneio, e fazer meu melhor para tirá-lo da olimpíada”.

A janela para a realização do Pipe Master é entre 8 e 20 de dezembro. Quando as ondas forem consideradas suficientemente fortes, Florence e Slater sairão de suas casas, cruzarão a Sunset Beach e decidirão quem vai a Tóquio.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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