Operários de estádios da Copa do Qatar sabem que não poderão vê-la

Muitos deles moram em Asian Town, bairro com cerca de 50 mil imigrantes em Doha

Doha

O cenário muda aos poucos. A luz das ruas fica mais fraca e as construções deixam de ser arranha-céus. A poeira levanta quando o carro passa até estacionar em um centro comercial com cinemas à direita e um canteiro de obras à esquerda. A placa de letras pretas sobre a pintura amarela diz “Asian Town” (cidade asiática, em inglês).

Afastada cerca de 15 quilômetros do centro de Doha, é a área que mais concentra a imigração pobre do Qatar. Vivem no local cerca de 50 mil pessoas, quase todas empregadas na construção civil ou na área de serviços.

 

“A Copa do Mundo vai acontecer em 2022 por causa da Asian Town. Só que ninguém que está aqui vai poder ver os jogos”, diz Mahmoud, funcionário de um hotel do centro e nascido em Brunei. Quase todas as noites, ele circula por um shopping da região com amigos. Afirma que é a única distração possível na capital.

Há comércios no bairro construído a partir de 2013 por um projeto do governo qatari para reunir e oferecer entretenimento a trabalhadores de baixa renda. Esses locais só abrem às 18h. Durante o dia, poucas pessoas os frequentam. Estão todos no trabalho.

A poucos metros do shopping, há conjunto habitacional com 10 mil unidades. Não existe número confiável sobre quantas das pessoas que vivem ou frequentam o distrito estão empregadas nas construções dos estádios para a Copa.

Os mais sortudos conseguiram vaga no projeto de remodelação do Khalifa International Stadium, palco da final do Mundial de Clubes entre Flamengo e Liverpool no último dia 21.

“É o estádio mais perto de Asian Town. Facilita o transporte, mas foi um dos primeiros a acabar porque foi só reformado, não construído. Então quem estava lá teve de achar outra ocupação”, diz Hassan, amigo de Mahmoud que está no canteiro de obras do Ras Aboud, a 22 km. O estádio será desmontado após o Mundial.

A percepção dos imigrantes que frequentam o local (nos finais de semana o número costuma passar de 100 mil) de que a Copa do Mundo não é para eles está relacionada ao estilo de vida do Qatar. Alguns gostariam de ver o Liverpool em campo no Mundial, mas nem tentaram ingresso. Por não terem dinheiro (a entrada mais barata custou cerca de R$ 50) ou acreditarem não ser um evento para eles.

“A Copa será para turistas e para os endinheirados daqui. Com isso, eles já conseguem encher os estádios. Não vão precisar de nós”, completa Hassan.

Da população de 2,6 milhões de habitantes, cerca de 300 mil são qataris. A parte menor dos imigrantes é de mão de obra qualificada, que se muda para Doha por ofertas de emprego na área de petróleo, gás ou tecnologia da informação.

A massa é composta por expatriados de outros países árabes, indianos, filipinos, nepaleses, bengaleses e cingaleses. Não por acaso, a região de Asian Town também é chamada de Labour City (cidade do trabalho, em inglês). Os nascidos no país formam a elite financeira e social do Qatar, um emirado absolutista governado pela mesma família desde o século 19.

Ninguém gosta de falar sobre política com estranhos. Mahmoud afirma não comentar nem em casa, com os amigos que vivem no mesmo apartamento que ele.

Como é comum, parte do que ele ganha é enviado para a família, que ficou em Bandar Seri Begawan, capital de Brunei. Não por acaso, os comércios de maior fila são de envio de dinheiro para o exterior e caixas eletrônicos.

O nome original do projeto da região era West End Park. Foi alterado para Asian Town para refletir a origem das empresas que o governo queria atrair para essa zona, considerada a mais industrial de Doha.

A cerca de 300 metros, mas separado por larga avenida e uma rotatória, há o China Mall. Esse shopping, porém, não é frequentado pela imigração obreira.

Por causa da origem dos trabalhadores, foi construído um campo de críquete, popular na Índia e no Paquistão, por exemplo. Também há garotos que carregam bolas de futebol e usam camisas piratas de equipes europeias.

Chama a atenção a quase ausência de mulheres no shopping. As poucas que são vistas estão acompanhadas dos maridos. Para cada mulher no Qatar, há três homens.

Movimentação em Asian Town, próximo ao shopping que concentra imigrantes nos arredores de Doha, no Qatar
Movimentação em Asian Town, próximo ao shopping que concentra imigrantes nos arredores de Doha, no Qatar - Ricardo Moreira/Folhapress

“Eu tenho esposa e um filho em Bangladesh, mas trazê-los para cá é muito difícil. Preciso provar que possuo uma renda suficiente para me sustentar e a mais duas pessoas, só que os valores que o governo coloca para isso não são reais”, relata Koyakutty, que saiu da Índia há oito anos para viver em Doha e frequenta Asian Town.

 

De acordo com o Comitê Supremo para Execução e Legado, responsável pelas obras para o Mundial de 2022, US$ 7 bilhões (R$ 28,4 bilhões) serão aplicados em toda a infraestrutura necessária para a organização do torneio.

“Conheço muita gente que trabalha nas construções dos estádios. É um trabalho duro, mas é prioridade para o país. Então, enquanto estiverem fazendo obras, haverá emprego. No verão é muito duro. O calor é insuportável”, completa Koyakulty, citando os meses do ano em que a temperatura pode chegar aos 50ºC.

Há alguns assuntos sobre os quais os imigrantes não falam mesmo com insistência. Nenhum é tão proibido quanto a "khafala", a lei qatari segundo a qual o imigrante só pode mudar de emprego se a empresa da qual deseja sair fornecer um documento o autorizando. Para organizações de direitos humanos, trata-se de uma situação análoga à escravidão.

O governo afirma que o assunto está resolvido e que foi criado um fundo de auxílio aos trabalhadores envolvidos nas obras da Copa.

"Tenho um amigo que passou por isso, mas hoje não passa mais". Foi o máximo que a reportagem da Folha conseguiu ouvir sobre o tema.

Os imigrantes não ficam apenas confinados em Asian Town, até porque há milhares que vivem em outras regiões da cidade, mas ali está uma das áreas mais movimentadas da capital, com gente conversando em voz alta, movimento de pessoas e amigos sentados batendo papo. Algo que é impossível de ser encontrado em outros bairros de Doha, principalmente os mais abastados.

O Qatar tem um plano para crescimento do futebol no país. Um dos projetos é observar garotos que moram em regiões periféricas e levá-los para a Aspire Academy, o centro de desenvolvimento de atletas. Isso ainda não aconteceu.

Sem dar atenção a promessas, os homens que frequentam o local que vai tornar possível ao Qatar ter oito estádios para a Copa do Mundo enchem os cinemas anexos ao shopping. Famílias também aparecem no final de semana porque é apelas ali que podem ver filmes dublados ou legendados em hindu, malaio e outras línguas dos expatriados.

Para a questão de se não estão segregados em uma região distante da cidade, a reação é de divertimento. Eles sempre estiveram afastados dos qataris, afirmam. Só que antes, nem Asian Town existia.

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