Esquecida na seleção, 'sucessora de Marta' busca recomeço no Santos

Thaisinha era apontada como grande revelação em 2012, mas perdeu espaço com Vadão

Santos

A jogadora de futebol Thaisinha, hoje com 27 anos, chegou à Olimpíada de Londres, em 2012, carregando uma comparação pesada.

Aos 19, após receber elogios públicos de Marta, a jovem atacante passou a ser apontada por muitos como principal candidata a sucessora da camisa 10 na seleção, então com 26 anos e que dava como incerta sua presença para os ciclos olímpicos seguintes.

“As comparações [com Marta] nunca me atrapalharam. Perdi o meu pai muito nova, e isso me fez amadurecer precocemente. Sempre soube separar e discernir quem ela é e quem sou eu. O legado dela é único”, diz a jogadora à Folha.

Apesar da maturidade, o roteiro não saiu conforme Thaisinha planejara. A seleção caiu nas quartas de final dos Jogos, após ser derrotada por 2 a 0 para o Japão, e, a partir da eliminação, a atacante passou a ser convocada com cada vez menos frequência.

 

Ficou de fora das Copas de 2015 e 2019 e da Olimpíada do Rio, em 2016, quando a seleção era comandada pelo técnico Vadão.

Após sete temporadas no Incheon Hyundai Steel Red Angels, da Coreia do Sul, a atacante está de volta ao Santos como nova camisa 10 do clube para sair de um esquecimento que jamais compreendeu.

“O Vadão falou à Bia [Zaneratto, ex-companheira de clube na Coreia] que não me conhecia, mas como ele vê a Bia e não me conhece? Confesso que me decepcionei muito com relação à seleção. Não falo que fui injustiçada, mas ficar fora do Mundial [de 2019] mexeu muito comigo. Seleção hoje é uma consequência, não o meu objetivo maior”, afirma.

Ao lado de Bia, atacante que a santista considera como uma irmã e acaba de acertar com o Palmeiras, ela conquistou sete títulos nacionais pelo clube coreano e colecionou prêmios individuais. A volta ao Brasil foi uma escolha para ficar mais próxima da família.

“O lado financeiro ainda está muito distante, o que pagam no futebol asiático jamais será um parâmetro. Eu vivia somente com o que recebia de premiações por gols, assistências e vitórias, mas queria voltar. Precisava estar perto da minha mãe novamente”, conta.

Incentivada pelo pai, Thaisinha largou o balé e começou cedo no futebol, com apenas seis anos, na escolinha do São Paulo Center, onde ficou até os dez.

Depois do São Paulo, a atleta passou pela escolinha do Corinthians, até ser aprovada pela técnica Magali Fernandes no Juventus. “Ela me ensinou tudo, me mostrou coisas que só conhecia de ver na televisão. Até ali, jogar para mim era só brincadeira”, relembra.

A jogadora Thaisinha durante treinamento da equipe do Santos
A jogadora Thaisinha durante treinamento da equipe do Santos - Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC

Ao chegar ao Santos, que tem o time feminino apelidado de Sereias da Vila, passou a dividir o vestiário com jogadoras como Marta e Cristiane. Pelo clube, conquistou o bicampeonato da Libertadores, em 2009 e 2010, além da Copa do Brasil e do Campeonato Paulista.

Thaisinha também vivenciou o período mais difícil da equipe, quando, em janeiro de 2012, a agremiação encerrou o projeto de futebol feminino —retomado somente três anos depois.

O anúncio foi marcado pelo choro da zagueira Erika ao lado do então presidente Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, já falecido. O dirigente argumentou que o projeto de manutenção de Neymar, com alto custo para o clube, inviabilizou a continuidade das Sereias da Vila.

“Saí daqui com o Santos acabando. Foi um baque, vimos o principal clube da época encerrando suas atividades. Hoje encontro outro cenário, com estádios cheios e mudanças visíveis. O futebol feminino mudou bastante”, afirma.

Mais madura, Thaisinha agora tenta inspirar uma nova geração de talentos em que o clube aposta. Para esta temporada, 7 de 28 jogadoras do elenco foram promovidas das categorias de base. "Sei que terei essa função, também. Vejo que perdi [financeiramente] algumas coisas, mas estou ganhando em outras que não tem preço", diz.

Em ano olímpico, a santista ainda tenta fazer com que a técnica sueca da seleção brasileira, Pia Sundhage, desperte de volta a sua relação adormecida com a equipe nacional, mas ainda não teve nenhum contato direto com a treinadora.

Na primeira convocação do ano, nesta terça (18), Pia chamou 23 jogadoras para três partidas em torneio amistoso na França, de 2 a 11 de março. Do Santos, foram chamadas a atacante Cristiane e a zagueira Tayla.

O desempenho do time nos próximos meses pode ajudar Thaisinha. A equipe estreou com vitória na temporada, uma goleada por 4 a 0 diante do Flamengo, no último dia 7, na abertura do Campeonato Brasileiro.

Após três rodadas disputadas, tem a melhor campanha da competição, com nove pontos somados e sendo a única equipe que ainda não sofreu gols.

Thaisinha estreou na vitória por 2 a 0 contra o Cruzeiro, nesta segunda-feira (17), na Vila Belmiro, após se recuperar de um estiramento na panturrilha. Ela participou da construção da jogada do primeiro gol, marcado contra pela zagueira Jajá. O público presente no estádio, comemorado pelo clube, foi de 7.700 pessoas.

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