Descrição de chapéu Tóquio 2020

Hoje não há como garantir os Jogos de Tóquio, afirma Andrew Parsons

Comitê Paralímpico Internacional ainda estuda qual será o evento possível, diz seu presidente

São Paulo

Daqui a um ano, em 24 de agosto de 2021, o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) espera enfim poder celebrar a abertura dos Jogos Paraolímpicos de Tóquio-2020, adiados em razão da pandemia de Covid-19.

O brasileiro Andrew Parsons, chefe da entidade máxima do esporte paraolímpico, afirma em entrevista à Folha que alimenta um "otimismo não infundado" de que isso possa ocorrer, mas ao mesmo tempo sabe que está à mercê de algo que foge do seu controle: a evolução dos níveis de contágio da doença.

"Se os Jogos começassem amanhã, com a realidade que temos hoje, não haveria os Jogos. Simples assim. Não há como garantir hoje, com o conhecimento que se tem, ausência de vacina, o nível de contaminação no mundo, que você não tenha um surto na vila", diz Parsons.

O dirigente, ex-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), afirma que o IPC, o Comitê Olímpico Internacional (COI) e os organizadores dos Jogos de Tóquio estão debruçados sobre a análise de qual evento será possível entregar no ano que vem. As principais diretrizes precisam ser traçadas até setembro, de acordo com ele.

Parsons defende que a experiência olímpica e paraolímpica não pode acontecer sem público, como vem ocorrendo com outros grandes eventos esportivos, mas não descarta a necessidade de outras adaptações para controlar o fluxo de pessoas durante os Jogos do Japão.

Andrew Parsons atrás de púlpito
Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Internacional, durante conferência da entidade - Ralf Kuckuck - 24.out.19/IPC

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O senhor está à mesa das principais discussões sobre a realização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos em 2021. Atualmente, em que nível está o seu otimismo de que eles poderão ocorrer? Estou otimista, mas não é um otimismo infundado. Eventos como Champions League, NBA, entre outros, dão um pouco de encorajamento de que é possível organizar eventos esportivos na atual circunstância. Claro que os Jogos Paralímpicos são diferentes, estamos falando de 6.000 pessoas vivendo na vila paralímpica. Como você pratica distanciamento social com 1.000 pessoas ao mesmo tempo no restaurante, por exemplo?

Estamos vendo como evolui a questão das vacinas, aprendendo a lidar com a pandemia e seguindo o planejamento. Até setembro, estamos definindo quais os Jogos possíveis, reduzindo princípios que acordamos com o COI e Tóquio-2020 [comitê organizador]. Não reduzir número de atletas ou modalidades, mas simplificar operações e coisas que não são absolutamente necessárias. Identificamos mais de 200 oportunidades, como por exemplo ter menos carros para o transporte de clientes e autoridades. Estamos falando em cortar em qualquer lugar que dê, desde que não afete a experiência dos atletas.

São discutidas também possibilidades de restrição de público? Hoje a gente não trabalha com a hipótese de Jogos sem público. A experiência olímpica e paraolímpica precisa do público participando. Obviamente, pode ser um outro tipo de público.

É considerada a necessidade de controlar a entrada de turistas de outros países, por exemplo? Estamos vendo todos os cenários. Digamos que o Japão esteja com o contágio absolutamente controlado em julho do ano que vem, mas, se o mundo estiver convivendo com o vírus e não houver vacina, vai ter que haver esse controle. Não há definições ainda, no sentido de que vai ter tal tipo de controle na fronteira. A dificuldade que a gente tem é que o alvo está em movimento, as discussões estão mudando dia a dia. Colocamos no planejamento para o último trimestre deste ano as medidas adicionais de controle e combate ao coronavírus, porque no primeiro trimestre do ano que vem já tem que entrar em prontidão operacional.

Quais pré-condições são vistas como as mais importantes para que os Jogos ocorram? A pré-condição é uma só: que a gente possa garantir a saúde e a segurança dos atletas, principalmente, mas de todo o mundo que participar dos Jogos. Como fazer isso são as coisas que estão sendo desenvolvidas agora. Se os Jogos começassem amanhã, com a realidade que temos hoje, não haveria os Jogos. Simples assim. Não há como garantir hoje, com o conhecimento que se tem, ausência de vacina, o nível de contaminação no mundo, que você não tenha um surto na vila.

Lógico que estamos aprendendo com exemplos, como o da NBA, que fez uma bolha. Mas os números de envolvidos [nos Jogos] são maiores, você tem uma vila em que as pessoas convivem muito próximas uma das outras, é diferente de um hotel. Então vai depender muito do cenário em que estivermos no ano que vem. Se for a situação de hoje, os Jogos não acontecem.

É mais difícil garantir os Jogos Paraolímpicos do que os Olímpicos? Existe a possibilidade de apenas um deles não acontecer? Não, um sem o outro não acontece. Nem os Paralímpicos por serem depois, nem os Olímpicos por em tese terem uma relevância maior. Eles são organizados em conjunto. As pesquisas científicas que a gente tem indicam que não há maior risco de as pessoas com deficiência contraírem o vírus, mas, dependendo da deficiência, uma vez que elas contraiam, as consequências podem ser mais graves. Principalmente as deficiências que afetam a função pulmonar, lesionados medulares, paraplégicos mais altos, que têm a função dos músculos que ajudam na respiração afetada. A resposta médica para isso também precisa ser muito bem planejada.

É possível quantificar o que o adiamento representa para a organização em renegociação de contratos e custos adicionais? Nenhum patrocinador ou detentor de direitos de transmissão desistiu dos Jogos, não perdemos receitas comerciais, mas teve um acréscimo na operação. Tem um ano a mais de comitê organizador, com salários, dia a dia, todo o funcionamento. E não dá para ir aos patrocinadores e pedir um ano a mais em recursos. Como a operação está sendo montada, a gente não consegue determinar o custo adicional, ainda. Alguém vai ter que pagar essa conta. Quem será [o responsável por pagar] sempre é uma discussão boa, mas sabemos que não será o Comitê Paralímpico Internacional, em razão da nossa capacidade financeira.

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